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As cartas de Camille Claudel, escritas no exílio e endereçadas a seus familiares, mostram clareza de idéias, afeto, preocupação com a família, pedido para retornar a Villeneuve. Pode-se ler a respeito desses sentimentos em algumas cartas, relatadas por Outeiral e Moura, Whaba, Reine Marie Paris entre outros. É notória a incapacidade da mãe de suportá-la, pois tinha resistências em aceitar Camille por perto.

Outeiral e Moura fazem uma constatação com a qual há concordância de nossa parte inteiramente: “Com a morte do pai, talvez ele tenha levado consigo o frágil elo que ainda a ligava com a realidade; ou talvez, ele vivo impedisse que a mãe de Camille a exilasse definitivamente, o que, de certa forma, era a mesma coisa.” 174

173 Cf. Paul CLAUDEL, Ma soeur Camille. Prefácio ao Catalogue de l’Exposition Camille Claudel, 1951. 174 Luiz Outoni OUTEIRAL e Luiza MOURA, Paisão e Criatividade, p. 90.

Ficou por um ano internada em Paris, sendo posteriormente transferida para um asilo em Montdevergues, ao sul da França, de onde nunca mais saiu (Centro Hospitalar Especializado Montfavet, antigo asilo de Montdevergues). Neste asilo, fez muitos apelos para sair, ficou completamente isolada, fez pedido à mãe para estar mais próxima, ser visitada, mas tudo em vão. Desde sua internação, e em todos os anos seguintes, insistia em fazer apelos comoventes para ser libertada.

Reine M. Paris traz uma de suas cartas escrita nas primeiras semanas de sua internação, transcrita por Rivière, A., uma carta ao primo de 10 de março.

Querido Charles,

Você me dá notícias da morte de papai, essa é a primeira notícia, não me disseram nada. Quando foi isso? Tente saber e procure me dar alguns detalhes. O pobre do papai nunca me viu tal como sou, sempre lhe fizeram acreditar que eu era uma criatura odiosa, ingrata e má; era necessário para que a outra pessoa pudesse raspar tudo. Tive que desaparecer com a maior velocidade e, embora me encolha ao máximo em meu cantinho, ainda sou demais. Já tentaram me internar numa casa de loucos, com medo que eu prejudique o pequeno Jacques, reclamando os meus bens. É o que aconteceria, se eu tivesse a infelicidade de pôr os pés ali. Louise botou a mão no dinheiro todo da família com a proteção do seu amigo Rodin e, como estou sempre precisando de algum dinheiro, por pouco que seja, pois preciso realmente de algum, sou eu que me torno detestável quando mando pedir. São coisas feitas de propósito, porque você sabe que Louise tem afinidades com os protestantes.

Ir a Villeneuve eu não teria coragem; e depois é preciso ter condições; não tenho dinheiro, nem mesmo sapatos. Estou vivendo com muito pouco; a tristeza é para mim. Se você souber de alguma coisa, mande-me dizer, não correrei o risco de escrever, eu seria hostilizada como sempre.

Surpreende-me que papai tenha morrido, devia viver 100 anos. Aí tem coisa. Muitas lembranças a você e a Emma.175

K-Mille.

Reine Marie Paris faz referência a uma outra carta datada de 14 de março. Nesta carta, Camille fala do pressentimento de seu internamento:

Querido Charles,

Minha carta do outro dia parecia ser um pressentimento, pois mal tinha sido colocada no correio quando um automóvel veio me pegar em casa para me conduzir a um asilo de alienados. Eu estou, ou pelo menos acho que estou, no asilo de Ville Évrard.

Se quiser me fazer uma visita, não precisa ter pressa, pois não estou para sair, me pegaram e não querem me largar.

Se puder me trazer um retrato de minha tia para me fazer companhia, você me daria um grande prazer. Você não me reconheceria, você que me viu tão jovem e tão brilhante no salão de Chacrise.176

A mãe e a irmã Louise proibiram que as cartas chegassem ou que ela fosse visitada no asilo. O temor da mãe eram as acusações de Camille e os escândalos que ela provocava. É veraz seu pedido de ajuda e solicitação de transferência de um asilo para outro.

Whaba coloca que “pedidos direto à mãe tão pouco deram resultados e nem a proposta dos médicos de aproximá-la da família. A morte da mãe em 1929 não alterou o triste e estarrecedor quadro. Paul negou-se a tomar qualquer decisão, a assumir qualquer atitude”.177

Insistentemente Camille solicitava ajuda. Reine Marie Paris fala de uma carta endereçada a seu médico, solicitando intervenção em seu nome:

Censuram-me (que crime pavoroso) por ter vivido absolutamente só, por passar minha vida com gatos, por ter mania de perseguição! É por causa dessas acusações que há cinco anos e meio me encontro encarcerada como uma criminosa, privada de liberdade, privada de alimentação, de calor e das mais elementares comodidades [...]. Gastam comigo aqui 150 f. por mês e é preciso ver como sou tratada; meus familiares não se preocupam comigo e não respondem às minhas queixas senão pelo mais completo mutismo, desse modo fazem de mim o que querem. É horrível ser abandonada dessa maneira. Não posso resistir à mágoa que me devora [...].

Aproveitando-se disso, minha irmã apoderou-se de minha herança e deseja muito que eu não saia dessa prisão. Assim peço-lhe que não escreva para mim e que não diga que lhe escrevi, pois eu lhe escrevo às escondidas contra os regulamentos do estabelecimento e se soubessem disso me causariam muitos aborrecimentos178.

As convicções delirantes de Camille nunca a abandonaram, mas mudava-se de personagens; queixava-se de que o mundo estava contra ela, que acumulavam fortunas com as suas obras e ela não tinha nada, que Rodin a aprisionava, para que não fosse ameaçado pelo seu crescimento, que muitos amigos participavam desse complô; mas seu irmão Paul era preservado e, quando Rodin morreu, a trama delirante deslocou-se para a mãe.

176 Reine Marie PARIS e Arnaud CHAPELLE, L’oeuvre de Camille Claudel, p. 93. 177 Liliana Liviano WHABA, Camille Claudel: Criação e Loucura, p. 54.

A relação da senhora Cerveaux (mãe de Camille) com ela feita através de cartas ao diretor do asilo revelam o quão era insuportável a sua aproximação com a filha, pois negava veementemente uma possível acolhida a um “ser tão ‘ruim’ e que fizera tanto mal com suas calúnias e comportamento”, falando até do perigo de deixar solto alguém com idéias de perseguição tão acirradas. Louise Cerveaux tinha a fantasia de ser assassinada pela filha e, por sua vez, desejava vê-la morta. “Os mortos são pranteados, depois perdoados, pode-se usar lutos por ele, mas essa ‘morta-viva’ cheia de raiva e de dor cutucava, sem contemplação ou piedade, a ferida da relação mãe-filha”.179

Reine Marie Paris sugere que a mãe não queria nenhum tipo de aproximação: “ela tem todos os vícios, eu não quero revê-la, ela nos fez muito mal”.180

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