Havíamos terminado ativa colaboração, num elevado ambien- te consagrado à prece, quando certo companheiro se abeirou de nós, reclamando o concurso do Assistente num caso particular.
Calderaro decerto conheceria os pormenores da situação, por- que entre ambos logo se estabeleceu curioso diálogo.
– Infelizmente – dizia o informante –, nosso Antídio não so- breleva a situação; permanece em derrocada quase total. Vincu- lou-se de novo a perigosos elementos da sombra e voltou aos desacertos noturnos, com grave prejuízo para o nosso trabalho socorrista.
– Não lhe valeram as melhoras da quinzena passada? – inda- gou fraternalmente o orientador.
– Aproveitou-as para mais presto volver à irreflexão – escla- receu o interlocutor com inflexão magoada.
– É de notar, porém, que se achava quase de todo louco. – Sim, mas conseguiu fruir, outra vez, estado orgânico inve- jável, mercê de sua intervenção última; logo, porém, que se viu fortalecido, tornou desbragadamente aos alcoólicos. A sede escal- dante, provocada pela própria displicência e pela instigação dos vampiros que, vorazes, se lhe enxameiam à roda, everteu-lhe o sistema nervoso. A organização perispirítica, semiliberta do corpo denso pelos perniciosos processos da embriaguez, povoa-lhe a mente de atros pesadelos, agravados pela atuação das entidades perversas que o seguem passo a passo.
– Estará em casa a esta hora? – inquiriu Calderaro com inte- resse.
– Não – disse o outro, abatido –, deixei-o, ainda agora, num centro menos digno, onde a situação do nosso doente tornou a características lamentáveis.
O instrutor estudou o caso em silêncio, durante alguns instan- tes, e considerou:
– Poderemos providenciar; contudo, se da outra vez consistiu o socorro em restitui-lo ao equilíbrio orgânico possível, no mo- mento há que agir em contrário. Convém ministrar-lhe provisória e mais acentuada desarmonia ao corpo. Neste, como em outros processos difíceis, a enfermidade retifica sempre.
E, contemplando o benfeitor do necessitado distante, interro- gou:
– De acordo?
– Perfeitamente – redargüiu ele, sem hesitação –; o meu ami- go é especialista em assistência e eu lhe acato as determinações. O que nos interessa é a saúde efetiva do infeliz irmão, que se entre- gou sem defesa aos reclamos do vício.
Rumamos para o local em que deveríamos acudir o amigo ex- traviado.
Penetramos o recinto, servido de amplas janelas e abundan- temente iluminado.
O ambiente sufocava. Desagradáveis emanações se faziam cada vez mais espessas, à maneira que avançávamos.
No salão principal do edifício, onde abundavam extravagan- tes adornos, algumas dezenas de pares dançavam, tendo as mentes absorvidas nas baixas vibrações que a atmosfera vigorosamente insuflava.
Indefinível e dilacerante impressão dominou-me o ser. Não provinha da estranheza que a indiferença dos cavalheiros e a leviandade das mulheres me provocavam; o que me enchia de
assombro era o quadro que eles não viam. A multidão de entida- des conturbadas e viciosas que aí se movia era enorme. Os dança- rinos não bailavam sós, mas, inconscientemente, correspondiam, no ritmo açodado da música inferior, a ridículos gestos dos com- panheiros irresponsáveis que lhes eram invisíveis. Atitudes simi- escas surdiam aqui e ali e, de quando em quando, gritos histéricos feriam o ar.
Calderaro não se deteve. Mostrava-se habituado à cena; mas, não conseguindo sofrear a estupefação que se assenhoreara de mim, solicitei-lhe uma intermitência, perguntando:
– Meu amigo, que vemos? criaturas alegres cercadas de seres tão inconscientes e perversos? Pois será crime dançar? Buscar alegria constituirá falta grave?
O orientador escutou pacientemente as indagações ingênuas que me escapavam dos lábios, ditadas pelo espanto que me asso- mara repentinamente, e esclareceu:
– Que perguntas, André! O ato de dançar pode ser tão santifi- cado como o ato de orar, pois a alegria legítima é sublime herança de Deus. Aqui, porém, o quadro é diverso. O bailado e o prazer nesta casa significam declarado retorno aos estados primitivos do ser, com iniludíveis agravantes de viciação dos sentidos. Obser- vamos, neste recinto, homens e mulheres dotados de alto raciocí- nio, mas assumindo atitudes de que muitos símios talvez se pejas- sem. Todavia, esteja longe de nós qualquer recriminação: lasti- memo-los simplesmente. São trânsfugas sociais e, na maioria, rebeldes à disciplina instituída pelos Desígnios Superiores para os seus trilhos terrestres. Muitos deles são profundamente infelizes, precisando de nossa ajuda e compaixão. Procuram afogar no vinho ou nos prazeres certas noções de responsabilidade que não logram esquecer. Fracos perante a luta, mas dignos de piedade pelos remorsos e atribulações que os devoram, merecem ser am- parados fraternalmente.
E, passando os olhos de relance pela multidão de Espíritos perturbadores que ali se davam ao vampirismo e ao sarcasmo, obtemperou:
– Quanto a estes infortunados, que fazer senão recomendá-los ao Divino Poder? Tentam igualmente a fuga impossível de si mesmos. Alucinados, apenas adiam o terrível minuto de auto- reconhecimento, que chega sempre, quando menos esperam, através dos mil processos da dor, esgotados os recursos do amor divino, que o Supremo Pai nos oferece a todos. A mente deles também está apegada aos instintos primitivos e, frágeis e hesitan- tes, receiam a responsabilidade do trabalho da regeneração.
Vendo-me boquiaberto e faminto de novas elucidações, o As- sistente propôs-me:
– Vamos! Deixemo-los divertir-se. A dança, nesta casa, não lhes deixa de ser, em última análise, um benefício. Chegaram nossos amigos encarnados e desencantados, aqui presentes, a nível tão desprezível que, sem dúvida, não fora o sapateado, estariam rodando, lá fora, em atos extremamente condenáveis, tal a predisposição em que se encontram para o crime. Que o Pai se comisere de todos nós.
Demandamos o interior, apressadamente.
Numa saleta abafada, um cavalheiro de quarenta e cinco anos presumíveis jazia a tremer. Não conseguia manter-se de pé.
Calderaro examinou-o detidamente e indagou do novo amigo que nos acompanhava:
– Voltou aos alcoólicos, há muitos dias? – Precisamente, há uma semana.
Enquanto encetava a aplicação de fluidos magnéticos, o ori- entador aconselhou-me notar os característicos do quadro dantes- co sob nossos olhos.
Antídio, doente e desventurado, a despeito das condições pre- cárias, reclamava um copinho, sempre mais um copinho, que um rapaz de serviço trazia, obediente. Tremiam-lhe os membros, denunciando-lhe o abatimento. Álgido suor lhe escorria da fronte e, de vez em quando, desferia gritos de terror selvagem. Em der- redor, quatro entidades embrutecidas submetiam-no aos seus desejos. Empolgavam-lhe a organização fisiológica, alternada- mente, uma a uma, revezando-se para experimentar a absorção das emanações alcoólicas, no que sentiam singular prazer. Apos- savam-se particularmente da “estrada gástrica”, inalando a bebida a volatilizar-se da cárdia ao piloro.
A cena infundia angústia e assombro.
Estaríamos diante de um homem embriagado ou de uma taça viva, cujo conteúdo sorviam gênios satânicos do vício?
O infortunado Antídio trazia o estômago atestado de líquido e a cabeça turva de vapores.
Semidesligado do organismo denso pela atuação anestesiante do tóxico, passou a identificar-se mais intimamente com as enti- dades que o per seguiam.
Os quatro infelizes desencarnados, a seu turno, tinham a men- te invadida por visões terrificantes do sepulcro que haviam atra- vessado como dipsomaníacos. Sedentos, aflitos, traziam consigo imagens espectrais de víboras e morcegos dos lugares sombrios onde haviam estacionado.
Entrando em sintonia magnética com o psiquismo desequili- brado dos vampiros, o ébrio começou a rogar, estentoreamente:
E indicando as paredes próximas, bradava sob a impressão de indefinível pavor:
– Oh! os morcegos!... os morcegos! afugentem-nos, dete- nham-nos...! Piedade! quem me livrará! Socorro! Socorro!...
Dois senhores, também obnubilados pelo vinho, aproxima- ram-se, espantados. Um deles, porém, tranqüilizou o outro, dizen- do:
– Nada de mais. É o Antídio, de novo. Os acessos voltaram. Deixemo-lo em paz.
Enquanto isso, o desditoso ébrio continuava bradando:
– Ai! ai! uma cobra... aperta-me, sufoca-me... Que será de mim? Socorro!
As entidades perturbadoras timbravam nas atitudes sarcásti- cas; gargalhavam de maneira sinistra. Ouvia-as o infeliz, a lhe ecoarem no fundo do ser, e gritava, tentando investir, embora cambaleante, os algozes invisíveis:
– Quem zomba de mim? quem? Cerrando os punhos, acrescentava: – Malditos! malditos sejam!
A cena prosseguia, dolorosa, quando Calderaro se acercou de mim, esclarecendo:
– É deplorável pai de família que, incapaz de reagir contra as atrações do vício, se entregou, inerme, à influência de malfeitores desencarnados, afins com a sua posição desequilibrada. Em aten- ção às intercessões da esposa e de dois filhinhos amoráveis que o seguem, assistimo-lo com todos os recursos ao alcance de nossas possibilidades; entretanto, o imprevidente irmão não corresponde ao nosso esforço. Emerge de todas as tentativas, mais e mais disposto à perversão dos sentidos; busca, acima de tudo, a fuga de si mesmo; detesta a responsabilidade e não se anima a conhecer o
valor do trabalho. Atenuando-lhe a ânsia irrefreável de sorver alcoólicos, esperamos se reeduque. Para isso, porém, usaremos agora recurso drástico, já que o desventurado se revela infenso a todos os nossos processos de auxílio.
Fixando em mim expressivo olhar, concluiu:
– Antídio, por algum tempo, a partir de hoje, será amparado pela enfermidade. Conhecerá a prisão no leito, durante alguns meses, a fim de que se lhe não apodreça o corpo num hospício, o que se iniciaria dentro de alguns dias, lançando nobre mulher e duas crianças em pungente incerteza do porvir.
Dito isto, Calderaro encetou complicado serviço de passes, ao longo da espinha dorsal.
O enfermo aquietou-se, pouco a pouco, na velha poltrona em que se mantinha.
O Assistente passou a aplicar-lhe eflúvios luminosos sobre o coração, durante vários minutos. Notei que essas emissões se concentravam gradativamente no órgão central, que em certo instante acusou parada súbita.
Antídio parecia prestes a desencarnar, quando o orientador lhe restituiu as energias, em movimentação rápida. Premido pelo fenômeno circulatório, que lhe valeu tremendo choque, o desdito- so amigo pôs-se a pedir auxílio em altos brados. Havia tamanha inflexão de dor, na voz lamentosa, que grande número de pessoas se aproximaram, penalizadas.
Um piedoso cavalheiro tomou-lhe o pulso, verificou a desor- dem do coração e, presto, requisitou um carro da assistência pú- blica. Em breves momentos Antídio era transportado em maca de hospital, para receber socorro urgente, seguido, de perto, pelo solícito benfeitor espiritual.
Retirando-se em minha companhia, Calderaro acrescentou, tristonho:
– O infortunado amigo será portador de uma nevrose cardíaca por dois a três meses, aproximadamente. Debalde usará a valeria- na e outras substâncias medicamentosas, em vão apelará para anestésicos e desintoxicantes. No curso de algumas semanas conhecerá intraduzível mal-estar, de modo a restabelecer a har- monia do cosmo psíquico. Experimentará indizível angústia, submeter-se-á a medicações e regimes, que lhe diminuirão a tendência de esquecer as obrigações sagradas da hora e lhe acor- darão os sentimentos, devagarinho, para a nobreza do ato de viver.
Notando-me a estranheza, o Assistente concluiu:
– Que fazer, meu amigo? As mesmas Forças Divinas que concedem ao homem a brisa cariciosa, infligem-lhe a tempestade devastadora... Uma e outra, porém, são elementos indispensáveis à glória da vida.