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Uri Bronfenbrenners økologiske systemteori

3. Teoretiske perspektiver

3.1 Uri Bronfenbrenners økologiske systemteori

Alexandre Stephanou afirma que uma característica importante da peça, e que a aproxima da linguagem jornalística, é a de ser essencialmente texto – nem cenário havia no espetáculo: o foco está no texto verbal. Comparando Liberdade, liberdade com outras obras do período, como Opinião e Arena canta Zumbi, o autor aponta que a importância do texto, da mensagem verbal, é uma característica das obras artísticas de oposição à ditadura militar, que procuram fazer a denúncia de problemas da atualidade e, para isto, adotam este e outros recursos próprios do jornalismo288.

A crítica teatral da época chegou a pôr em dúvida se é um espetáculo teatral ou musical. E, de fato, a peça contém elementos de um show musical – e mesmo de alguns formatos jornalísticos. Trata-se de uma obra fragmentada, à maneira das crônicas que Millôr Fernandes publicava em revistas desde os anos 40, fazendo colagens de textos de diversos gêneros. O prólogo de Flávio Rangel, no livro, já alertava que “uma seleção de textos não é uma ideia nova no teatro moderno. É nova aqui no Brasil, onde tudo é novo, inclusive a noção de liberdade” – lembrando que, no teatro europeu, já houve experimentações com colagem de textos.

O material que serviu de base para o texto é, essencialmente, de cunho histórico e jornalístico. A peça não tem uma estrutura narrativa baseada em personagens e ações que

287 FERNANDES, Millôr; RANGEL, Flávio. Liberdade, liberdade. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira

S.A., s/d., p. 150-151. Parte integrante do prontuário de censura DDP 5767 do Arquivo Miroel Silveira, 1965.

288 STEPHANOU, Alexandre Ayub. Censura no regime militar e militarização das artes. Porto Alegre:

José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos

levam a um desfecho, mas é construída a partir de diversas cenas sobre um mesmo tema (a liberdade). Há algumas passagens em que se desenrola uma ação dramatizada – são diversas narrativas breves nas quais é possível identificar claramente protagonistas e antagonistas – Josef Brodsky contra os inquisidores da ditadura soviética; Sócrates contra as autoridades de Atenas; o soldado Slovik contra a corte marcial.

Peças de teatro sem uma narrativa única, porém baseadas em quadros não eram novidade no Brasil de 1965. O teatro de revista, em sua tradição luso-brasileira, usava formato parecido desde o século XIX e, tradicionalmente, se baseava no comentário humorístico de acontecimentos recentes divulgados pela imprensa289. Mas há uma diferença. Se, nas revistas, havia inicialmente quadros ligados a uma tênue narrativa central, passando depois a peças formadas por quadros sobre temas variados e desconexos, em Liberdade, liberdade há um fio condutor central que é a ideia de resistir contra um regime que cerceava a liberdade.

A técnica de colagem de diversos elementos, à maneira do que ocorre com os textos de uma revista ou um jornal, ou ainda programas de jornalismo radiofônico ou televisivo, na peça de Millôr, obedece a esse fio condutor, que norteia tanto a disposição dos fatos – numa sequência que leva a um clímax – quanto a escolha do que vai se contar no palco.

Esta técnica não foi usada exclusivamente em Liberdade, liberdade. Está presente em outras peças do período, como a peça-show Opinião (1964), de Armando Costa, Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes290. E Millôr retomou essa fórmula, de maneira bastante parecida, nos textos Mulher, esse super-homem (DDP 5892, de 1966), e O homem do

princípio ao fim (DDP 6065, de 1967). Este texto tem por tema central o homem (no caso, o

sexo masculino, e não a humanidade como um todo), e é construído a partir da colagem de textos de Shakespeare, Molière, Brecht, poetas brasileiros e portugueses, paródias de episódios bíblicos, e referências a questões contemporâneas ou do passado recente (Guerra do Vietnã, conflitos na Colômbia, entre outros), narradas em linguagem semelhante à do jornalismo radiofônico e televisivo.

289 O teatro de revista é um gênero surgido na França do século XIX e que rapidamente se espalhou para Portugal

e o Brasil. Aqui, produzido por autores portugueses ou brasileiros, desenvolveu características particulares e foi um gênero bastante popular até as três primeiras décadas do século XX. As peças de revista são elaboradas pela sucessão de quadros, que muitas vezes comentam de forma jocosa acontecimentos recentes da política, cultura, sociedade, moda, entre outros temas jornalísticos. Tanto no Brasil como em Portugal, era comum que os autores dessas peças também fossem jornalistas. Conferir JORGE FILHO, José Ismar Petrola. Teatro português nos palcos brasileiros: travessias na arte e na imprensa. (Trabalho de Conclusão de Curso). São Paulo: ECA-USP, 2010.

290 A peça Opinião, com texto de Armando Costa, Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, e

músicas de Zé Kéti e João do Vale, foi apresentada no Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 1964. Este espetáculo, misturando cenas teatrais e canções, era apresentado pelos Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão (depois substituída por Maria Bethânia). Foi levado a São Paulo, com estreia em 13 abril de 1965.

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Desta forma, Millôr foi um dos criadores de um formato inovador, que não se encaixa num modelo narrativo como os modelos de Propp, Greimas e Antõnio Cândido que estudamos anteriormente.

Além da escrita fragmentária, da referência a acontecimentos reais da forma como faz o jornalismo (usando com mais frequência a função referencial da linguagem, em vez de metáforas como as usadas na ficção) e do uso de trechos de material jornalístico na peça,

Liberdade, liberdade também se aproxima do jornalismo – no caso, o jornalismo de gênero

opinativo – pela maneira como expressa uma tomada de posição ante um problema da atualidade.

Esta posição aparece de forma expressa em monólogos declamados pelos atores, bem como no prefácio da versão publicada em livro. A introdução também traz depoimentos de Millôr, em que o autor esclarece por que aceitou o convite de Flávio Rangel para escrever a peça:

Aceitei, de Flávio Rangel, o convite para escrever com ele o presente espetáculo, por dois motivos: 1º) Porque sou um escritor profissional. 2º) Porque acho esse negócio de liberdade muito bacana. [...] Tentamos fazer um espetáculo que servisse á hora presente, dominada, no Brasil, por uma mentalidade que, sejam quais sejam as suas qualidades ou boas intenções, é nitidamente borocochô. E cuja palavra de ordem parece ser retroagir, retroagir291.

O que Millôr defende neste depoimento, embora não mencione, é uma aproximação do teatro com o jornalismo, ao pretender que um espetáculo teatral possa exercer a função de divulgar um problema da atualidade, analisá-lo em suas causas e consequências e colocar a questão no debate público, visando a uma intervenção na realidade – ou seja, a definição de jornalismo que vimos anteriormente.