Diante do exposto, fica evidente o fato de que, para estudarmos como a narrativa jornalística de revista mudou no decorrer do século XX, a partir das modificações nos códigos compartilhados de narração, buscando, a partir disso, as diferentes estratégias de semantização utilizadas pelos jornalistas ao longo do tempo, é necessário levar em consideração não a narrativa como um elemento isolado, mas como um ponto nodal de articulação das problemáticas que envolvem a constituição de um lugar social, de uma prática e de uma escrita.
Na qualidade de tripé articulador das práticas referenciais, é evidente o modo como as mudanças nos valores jornalísticos e em suas práticas cotidianas de apuração levam a reorganizações no nível narrativo.
Como afirmam muitos autores – e, entre eles, talvez um dos mais enfáticos acerca dessa questão seja Hayden White (2008, p. 11) – as narrativas referenciais não
30 Trata-se de uma discussão que não está de todo ausente hoje e que pode ser mencionada, por exemplo, em casos de reportagens recentes que usam as redes sociais como fonte primária das notícias. Se tal prática acontece, isso se deve a um reposicionamento dos valores jornalísticos em voga (que a coloca dentro das fronteiras do aceitável) e tem consequências visíveis na escrita e estruturação do relato, que passa a ter que considerar um elemento ausente nas reportagens escritas até então.
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são mais do que “estruturas verbais na forma de um discurso narrativo em prosa”, o que implica assumir – além de certo caráter fictício que permeia todas as suas reconstruções de mundo – a sua sujeição a modelos de narração específicos que dependem, em última análise, da natureza das preconcepções poéticas e de estilo.
Essas preconcepções – que limitam a liberdade narrativa antes da escrita de qualquer texto em específico – estão vinculadas ao desenho de um lugar social (e, portanto, aos saberes e valores profissionais que marcam a hierarquia entre as boas e as más estórias contadas, definindo mesmo a partilha entre os procedimentos de escrita adequados) bem como de uma prática (como compositora dos próprios métodos rotinizados de trabalho e de composição do material).
Uma vez que o jornalismo não pode nunca ser separado da construção de uma escrita – entendida, aqui, como uma organização de significantes em torno de um evento que conduz da prática ao texto (CERTEAU, 2008) – os artefatos jornalísticos estão mesmo sujeitos a uma determinada estruturação narrativa do discurso.
Para Certeau (2008, p. 102), as narrativas referenciais se constroem sobre certo número de postulados epistemológicos que dizem respeito à “necessidade de uma semantização referencial, que lhe vem da cultura”, à “transcritibilidade das linguagens já codificadas, das quais se faz o intérprete” e à “possibilidade de construir uma metalinguagem” através de uma ordem de citações que garanta a essa narrativa um valor de verdade, garantindo a sua credibilidade referencial.
Ora, todos esses elementos não dizem respeito a uma propriedade que pode ser encontrada nos textos particulares, mas sim, estão ligados a postulados virtuais que se atualizam de diferentes maneiras em textos específicos. Nesse sentido, podemos dizer que a narrativa não se constitui meramente como a representação de uma série de acontecimentos por meio da linguagem, mas sim, que ela está sujeita mesmo a uma estruturação que obedece a determinados conjuntos de regras inscritos nos sistemas culturais. Nesse sentido, o narrar nunca é livre. Saber narrar implica um domínio de elementos virtuais que se atualizam em um texto específico.
E é aqui que nos encontramos com a noção de código. Ele é o elemento chave que nos permite articular o reconhecimento de que, apesar do imenso número de narrativas presentes no mundo, é impossível escrever uma estória sem recorrer a um sistema implícito de unidades e regras (BARTHES, 1976).
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Desde os primeiros estudos de Retórica e de Estilística já estava pressuposta a noção de que os elementos que levavam ao convencimento ou à expressão estética de um texto não eram propostos enquanto originalidade pelo autor, mas sim, que estavam ancorados em regras que estão em estado de potencialidade e que se atualizam em textos específicos – muito embora o entendimento em torno de quais são essas virtualidades, bem como a respeito dos diversos entremeios a partir dos quais elas se combinam e se atualizam difiram radicalmente através das diversas linhas teóricas.
Mesmo nas teorias vinculadas ao discurso e ao contrato de comunicação também estão pressupostos elementos pré-textuais que se atualizam em um discurso específico. Na medida em que “a situação de comunicação constitui o quadro de referência ao qual se reportam os indivíduos de uma comunidade social quando iniciam uma comunicação” (CHARAUDEAU, 2006, p. 67), todo o quadro de representações sociais e de regulação das práticas coletivas, bem como as pressuposições em torno do lugar do autor e do destinatário se enquadram como potencialidades que irão se materializar em textos concretos.
Uma vez articulada a noção de que a narrativa jornalística comporta os elementos virtuais ligados ao tripé “lugar social – prática – escrita”, é necessário, portanto, entender os mecanismos a partir dos quais esses elementos virtuais se atualizam em narrativa.
Essa será a temática que trataremos no segundo capítulo. Embora a Análise Estrutural da Narrativa seja um dos campos mais recorrentemente utilizados nos estudos em comunicação para descrever os mecanismos a partir dos quais os elementos virtuais se atualizam em narrativa, alinhavaremos a noção de que ela não é adequada para que possamos analisar as mudanças que a narrativa da reportagem jornalística em revista sofreu no século XX exatamente porque o modelo estrutural, ao valorizar as relações internas ao sistema narrativo, não está preocupado com os outros mecanismos de atribuição de sentido ligados ao lugar social e a prática. Como esses elementos estão sempre coadunados à escrita, eles se tornam propulsores de mudanças na amarração textual que não podem ser ignorados.
É necessário, portanto, a adoção de um modelo que leve em conta as diversas problemáticas articuladas na narrativa jornalística tais como a hierarquização dos valores da comunidade profissional que desenham o lugar social de seu pronunciamento, as mudanças na práxis e no campo dos saberes articulados, a
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dependência e a instabilidade em relação ao referente, os mecanismos de construção de autoridade, bem como a construção de lugares no texto que posicionam o leitor em determinados papéis enunciativos, retornando, ao seu lugar no todo social.
Nesse contexto, traremos as teses de Ricoeur acerca do funcionamento das três mímesis compostas no tecer narrativo. É justamente a partir do entendimento de que as narrativas podem ser definidas como a atualização de uma série de elementos pré- textuais ligados a esquematismos simbólicos da ação e a agenciamentos culturais de ordem diversas que estão em potencialidade antes de sua materialização em um texto determinado, que Ricoeur equacionaliza o funcionamento mimético de um texto nas narrativas referenciais.
Apenas depois disso é que poderemos proceder a uma análise da noção de código propriamente dito – como arcabouço teórico-metodológico central no presente trabalho – e, especialmente, à releitura que Roland Barthes deu a esse conceito em S/Z – leitura esta que também, por sua vez, opõe-se aos postulados da análise estrutural.
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