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É bem visível que uma das marcas lingüísticas que constituem a cena genérica do causo é o emprego da variante caipira ou, nos termos de Amaral (1920), do dialeto caipira. A variedade lexical da obra convoca o autor, inclusive, à elaboração de um glossário para o leitor com pouca fluência em caipirês. Nossas considerações que seguem não têm o objetivo de gramati(cali)zar a variante caipira, como já o fizeram Amaral e o próprio Cornélio Pires, mas perceber como o uso da variante pode contribuir para uma configuração das cenas de enunciação e do ethos discursivo do caipira.

A primeira observação que fazemos é quanto ao emprego da variante e suas marcas de oralidade na constituição da cena genérica. Como vimos, os causos chegam ao leitor por uma cena validada, a conversa ao pé do fogo, e os causos surgem dessa prática rotineira na fazenda velha. Então, a troca de turnos conversacionais é que permite a ativação de insights provocadores de novos causos. Essa troca de turnos se faz pelo uso exclusivo da variante, marcando a fala do homem do campo.

No causo 1, assim que o título apresenta ao leitor o histórico de sobrevivência às muitas doenças sofridas por Joaquim Bentinho, a fala do narrador “E ainda está vivo?”, é o que desencadeia o uso da variante e o desenvolver do causo.

Excerto 20

P’ra vacê vê! Quano Deus qué, inté o cadave de um defunto revive e perobera é capais de dá bacaxi...

Eu moro sózinho no sitio, ua capuava na vorta do riu, na invernada, lugá que, in certos anno, dá maleite in tudo!

É notório o uso da variante que “domina” o resto do texto, dispensando até mesmo o uso verbos dicendi e até sinais de pontuação para indicar a fala em alguns momentos. É pelo código linguageiro, essa variante do plurilingüismo interno da interlíngua, que essa ruptura se torna possível. Ruptura com a cenografia outrora instalada, a cena validada.

Percebe-se pela fala do personagem a instalação de outra dêixis empírica, bem marcada pela variante: capuava na vorta do riu, invernada, lugá, in certos anno... Isso tudo para criar um lugar discursivo do caos, do abandono, da distância das políticas de saúde pública; mas, como o caipira é, antes de tudo um forte; ele resiste às doenças e adversidades, citadas pelo código linguageiro: maleite, bixiga pipocano, micróbe, febre marella, febre arta... A seleção lexical exagerada reforça a imunidade do caipira frente às adversidades e o tratamento bem humorado dado a elas.

Já o causo 3 evidencia, além do código linguageiro caipira, recursos comuns ao texto falado. Há uma apresentação do tópico ‘progresso’, do qual é recortado o campo ‘medicina: cirgurgia plástica’, que servirá de mote para o caipira demonstrar seu conhecimento popular sobre saúde, fauna e flora. Esta última por digressões que o personagem faz. Evidenciam-se termos de etimologia indígena, acerca das muitas espécies de abelha: manda-saia, madaguary, tuvuna, jetehy, guirupu, mumbaca, irapuá, caga-fogo, sanharão, mandury, aranxim, mora-longe... Com a seleção de termos como esses, o enunciador traz-nos uma imagem do caipira, como aquele que detém um conhecimento ímpar sobre a natureza. Esse saber é uma tese defendida pelo enunciador, acerca de que o homem do campo tem muito a ensinar ao homem da cidade, o caipira sabe muito. Tal assertiva pode estabelecer um diálogo com um trecho do conto Minha Gente, de Guimarães Rosa (1984:191), que também parecia defender a mesma tese:

Quando vim, nessa viagem, ficar uns tempos na fazenda do meu tio Emílio, não era a primeira vez. Já sabia que das moitas de beira de estrada trafegam para a roupa da gente umas bolas de centenas de carrapatinhos, de dispersão rápida, picadas milmalditas e difícil catação; que a fruta mal madura da cagaiteira, comida com sol quente, tonteia como cachaça; que não valia a pena pedir e nem querer tomar beijos às primas; que uma cilha bem apertada

poupa dissabor na caminhada; que parar à sombra da aroeirinha é ficar com o corpo empipocado de coceira vermelha; que, quando um cavalo começa a parecer mais comprido, é que o arreio está saindo para trás, com o respectivo cavaleiro; e, assim, longe outras coisas. Mas muitas mais outras eu ainda tinha que aprender.

Muitas outras coisas também sabe o caipira! Esse ethos da sapiência camponesa é também construído pelo conhecimento de que ele é proprietário. O código linguageiro, assim, reforça o valor do saber popular.

O causo 15 possui orientação mais argumentativa que narrativa, diferentemente dos demais. Esse texto corrobora a tese de que o camponês tem uma visão política, não é o jeca alienado. Para isso, vale-se de metáforas que se apóiam em práticas do mundo rural, deixando, na superfície textual, um código comum.

Para Joaquim Bentinho, negócio de governo é a merma coisa que criação de porco! A comparação é sustentada por termos ligados à suinocultura camponesa. Ter um representante do povo no poder seria o mesmo que recolher um capado magro no chiquero; o povo, pagando os impostos, estaria tratando do porco com os jacá de mio, de minhã, de tarde e na boca da noite. Quando o porco não quer mais comer, fica enfarado, não devora um cateto lançado, deixando as migalhas para as galinhas pinicarem; temos aí o imperador que se farta de tanto comer às custas do povo. Já quanto ao representante da República, o caipira sustenta o seguinte posicionamento, sustentado por exemplificação de práticas rotineiras de seu mundo: recolhe-se um capado e, antes mesmo de ele ingordá, sae, entra otro... Num hai mio que chegue.

Percebemos, também, que o código linguageiro utilizado pelo enunciador possui uma gramática que lhe é própria, sobretudo, no tocante ao uso das pessoas do discurso. Ficou evidente que o uso delas denota certa variação de acordo com o status social dos falantes, conforme análise que fizemos anteriormente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É chegado o momento de avaliarmos o percurso feito até aqui. Para isso, ressaltaremos pontos positivos alcançados, considerando os objetivos da nossa pesquisa e reconheceremos aqueles que, até este momento, não puderam ser contemplados.

Cabe ressaltar que a pesquisa contribuiu para um outro olhar sobre o ethos caipira no contexto da literatura brasileira, construído a partir de uma amostra pouco conhecida e trabalhada no meio acadêmico. Além da novidade da amostra, foi-nos muito prazeroso perceber o contexto sócio-histórico em que os causos emergiram, possibilitando um diálogo instigante entre presente e passado.

Por meio de uma literatura até então distante da academia e do cânone literário nos fez muito sentido o processo de legitimação do discurso literário através das cenas da enunciação e a construção do ethos caipira. A verificação de como se deu a construção das cenas englobante e genérica, permitiu-nos reconhecer o tipo de discurso literário e a construção do gênero causo.

Pela descrição das cenografias construídas tornou possível identificar como se mostra o ethos caipira em seu tempo e espaço, fazendo uso de código linguageiro marcado pela variante. Inclusive, o código linguageiro nos forneceu pistas para um mapeamento do uso das pessoas do discurso e a relação delas com as imagens que os interlocutores constroem de si e do outro na interação geradora do causo. Vimos que o enunciador faz uso de uma língua dual, oscilando entre o emprego da norma culta, dita num tom didático, e a variante caipira que, assume tons variados, conforme as cenografias construídas.

O ethos caipira é construído pela ativação lingüística de estereótipos, notadamente acerca da corporalidade e de sua indumentária, via uma prática discursiva intersemiótica, já que a descrição de Joaquim Bentinho é feita por palavras e complementada pela imagem de Voltolino. Assim, confirmamos o pensamento de Maingueneau, para quem o ethos

discursivo apresenta uma natureza social (pela ativação de estereótipos) e plurissemiótica (ativados por língua e imagens).

A cenografia construída pelos causos nos permitiu ainda depreender a construção de um ethos caipira em contraponto ao tipo criado por Monteiro Lobato, o que nos permite dizer que essa construção se dá por meio de uma relação polêmica. O jeca de Cornélio Pires se mostra trabalhador, comunicativo, resistente às adversidades em decorrência do abandono pelo Estado, detentor de um conhecimento ímpar e dono de um posicionamento político ante à realidade de seu país. Negando, portanto, o sitiante criticado em Urupês e Velha Praga. Em consonância com as cenas e o ethos caipira a ser mostrado, variam-se os tons empregados desde um tom melancólico, passando por um tom cômico, didático e até político.

Temos de reconhecer outras imagens do caipira poderiam ser examinadas em outros causos d’As estrambóticas aventuras de Joaquim Bentinho, bem como de qualquer outra obra do autor. É também conveniente ressaltar que, em outros trabalhos, Cornélio Pires encena vários caipiras, classificados por um critério étnico (ainda que sem rigor científico); o que nos revela um escritor assujeitado a um pessimismo determinista e biológico, em razão de uma taxonomia biologicizante, resquício do pensamento que mais imperou em finais do século XIX. Em contrapartida, neste trabalho, ficamos com a visão romântica do caipira semelhante ao mito do bom selvagem.

A verdade é que o universo caipira é uma esfera discursiva ampla, rica e polêmica que convém ser explorada. Nosso percurso aqui traçado é somente uma ínfima amostra de um terreno muito fecundo e instigante. Mais perguntas poderão ser feitas e a AD pode muito ajudar a respondê-las.

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