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6 Analyzing Combinations of Attributes

6.2 Method: Mann-Whitney U Test

6.3.4 Unprofitable Tech Companies With Large IPOs

WHITAKER (2003), mencionando Geertz, diz que a cultura possui um caráter lúdico que se manifesta, por exemplo, nas festas, nas celebrações, e também na religião, vista como uma forma de integração social. As práticas de sociabilidade podem ser consideradas uma forma de aquisição de solidariedade que contribui muito para o processo de humanização do ser humano. Em geral, as mulheres cultivam a solidariedade, pois são elas que mantêm contato com familiares, amigos, organizam festas, bazares etc. Assim,

O papel das mulheres na constituição desses espaços de sociabilidade via autoconsumo (festivo, solidário ou associativo) é, muitas vezes, de liderança. Neste processo, as mulheres assumem o comando. Pautadas por relações de sociabilidade, as mulheres podem ser protagonistas da construção de um leque de alternativas produtivas que possa garantir a segurança alimentar e a auto- estima diluindo constrangimentos e assegurando a retomada das rédeas do desenvolvimento a partir de suas próprias iniciativas (FERRANTE, 2010, p. 13) Nessas práticas, as pessoas desfrutam o prazer de viver em sociedade e de trocar experiências diversas, cultivando a amizade.

Sábado teve uma festa de aniversário de minha prima de 17 anos foi muito boa, e o D., um cara super gato queria ficar comigo, e eu ficava fugindo dele e ele se irritou e disse que se eu não respondesse ele me beijaria no meio de todos, então saí pra conversar com ele e disse que não, pois a maioria de meus parentes estavam lá e não são poucos (D., diário)

Ontem foi legal teve festa. Todo mês vai ter festa no meu tio é para ajudar a igreja que eles vão. É uma paróquia, primeiro a missa e depois forró. Ainda bem que vai ter alguma coisa agora para ir e fazer na Bela Vista (M., diário)

Os registros nos diários mostram que as festas na comunidade reanimam as relações de sociabilidade e são vividas com muito entusiasmo. A sociabilidade é um valor da cultura e está intimamente ligada à capacidade de melhor conhecer a condição humana e de dialogar com o contexto social vivido. É nas redes de sociabilidade que o indivíduo se percebe como pessoa e se reconhece no espaço e nas suas relações sociais, fatores que constituem a subjetividade. Sobressaem, nas atividades do cotidiano, as amizades que podem ser traduzidas como

divertimento e do tornar-se íntimo. É uma das formas de encontrar apoio emocional, buscar cumplicidade, cultivar o afeto. È importante para o fortalecimento de identidade e da auto-estima juvenil.

A Festa Junina está chegando. Minha prima é a Rainha da Bela Vista [...] a Festa Junina foi ótima. Eu dancei tanto (Ca, diário)

Hoje 7:00 da noite, eu fui na Festa Junina, lá na festa foi muito bom [...] (S., diário)

No Assentamento Bela Vista, a Festa Junina, comemorada há quase vinte anos, é uma das oportunidades de celebrar e divulgar a subcultura camponesa, pois recebe visitantes não só de outras comunidades rurais, mas também de moradores das cidades vizinhas. Além de proporcionar divertimento, essa festa envolve todo um processo de organização e planejamento de toda a comunidade, quanto à arrumação das barracas, preparação das danças típicas, das quadrilhas da escola, da preparação dos alimentos e das bebidas. È um momento em que a rotina desses atores é alterada e os problemas podem ser deixados para um momento posterior. É, assim, uma ocasião em que as pessoas exercem a riqueza de poderem doar-se mutuamente. É o princípio da prática da solidariedade do amor presente nas relações.

Esfera muito importante na vida juvenil, as atividades de lazer são formativas. Estão relacionadas às sensações de bem estar do indivíduo, pois o ser humano é social e isso está além do “viver em grupo” ou da busca pela sobrevivência.

Hoje fui almoçar na minha tia N., a filha dela está linda. Fiquei o dia inteiro lá depois fui um pouco no campo, minhas irmãs foram num aniversário (R., diário) As atividades de lazer também são vividas com o cultivo das relações familiares. Comemora-se a chegada de um parente, o nascimento de um bebê, festas de aniversário.

A quadra poliesportiva30, pertencente à estrutura física da escola e o campo constituem lugares de encontro, em que as meninas jogam ou assistem futebol e vôlei. Por exemplo. Visualizamos aqui avanços no que diz respeito às relações de gênero, pois o futebol é tido como manifestação da supremacia masculina. Apesar de ser um esporte que ainda sofre preconceitos quando praticado por mulheres, tem sido cada vez mais aceita sua prática. No assentamento, o

30 A quadra é aberta à população, estando disponível inclusive aos sábados, domingos e feriados. Seu uso obedece a normas de utilização estipulados pela equipe diretiva da Escola do Campo.

futebol é algo presente na maioria da vida das adolescentes. Trata-se de um projeto da prefeitura que teve início na escola com a municipalização da educação escolar, que foi efetivada na escola em 2001/2002; há um treinador que orienta as adolescentes e jovens de ambos os sexos e promove, inclusive, competições entre times. Podem participar adolescentes com idade entre 9 e 17 anos e os treinos acontecem duas vezes por semana dentro da escola. No capítulo anterior, ao tratar do perfil das adolescentes, observa-se o quanto a atividade é prazerosa a elas e, muitas delas, pensam em ser professora de educação física, o que pode sugerir o gosto pelo esporte. A prática e o gosto pelo jogo de futebol mostram que os padrões que marcam comportamentos ideais para meninas estão em transformação. A prática do futebol representa a abertura de novos horizontes que possibilitam, mesmo que gradualmente, a resistência para as delimitações dos espaços para as meninas e meninos.

S – E o futebol? Ah.... é legal.

S – Você acha que é coisa de menino? Não.

S – Você acha que as pessoas implicam? Sim.

S – Por quê?

Ah... porque elas falam assim que ‘isso é coisa de macho e que não sei o quê... que isso não é coisa de mulher não’.

S – E o que você acha disso?

Ah.. eu acho preconceito, né? Porque... por exemplo... na Seleção quem joga é só homem, não tem mulher, né? e isso é preconceito. Não tem nada a ver! Mulher também pode jogar. (R., entrevista)

S – E como foi começar o futebol?

[...] Eu não queria jogar, né? Porque eu achava que era coisa de menino, sempre vivi com esse preconceito. Aí minha tia Jéssica jogava bola, a Naiara, a Brenda que era minha vizinha. Aí eu pensei: vou lá ver. Quando eu fui lá, eu achei da hora, ver as meninas jogando, gritando e eu gosto de gritar... aí eu gostei e comecei a jogar aí depois de um tempo eu pensei “não vou jogar, cansa muito”. Aí eu só ficava em casa, ninguém jogava vôlei aqui e quem joga, joga muito mal. Aí, meu irmão, ele tem bronquite, estava acontecendo uns negócios e ele não podia jogar bola aí o ... me chamou para jogar no lugar dele. Aí eu comecei a jogar e eu comecei a gostar e depois disso eu não consigo viver sem futebol. E agora eu odeio vôlei. Agora eu acho que vôlei é coisa de menina fresca (risos). (E., entrevista).

WHITAKER (1988) observa que “meninas entregam-se muito prazerosamente a ‘brincadeiras masculinas’, pelo caráter de atividade e movimento que as caracteriza”. Por outro

lado, é comum os meninos sentirem maior reprovação social por parte dos adultos e também de seus pares quando se envolvem em brincadeiras consideradas femininas. È certo que as meninas podem ser ridicularizadas ao jogar futebol, mas isso ocorre por parte dos adultos, pois parece haver uma solidariedade maior entre as garotas da mesma idade que se entregam pelo caráter desafiador da brincadeira.

Assim, a quadra e o campo, muitas vezes entendidos como espaços masculinos, já estão, nesse caso, consagrados como espaço em que as meninas adolescentes exercem atividades físicas. Podemos abrir um parêntesis aqui para observar que, para além do fato de ser uma atividade saudável para a faixa etária, estar nesses espaços proporciona um momento de conversas e paqueras, o que contribui para a valorização do assentamento enquanto lugar para se viver:

Tem hora que eu penso que a Bela Vista é chata que não tem nada, mas não. Sempre tem alguma coisa pra nos divertir. A quadra nós brinca de tudo eu tenho um prima que morava na cidade eu falei para ela onde é mais gostoso aqui ou na cidade. Ela me falou que é aqui porque ela não fica presa e tem animais que ela nunca viu. Eu adoro aqui todos os meus parentes moram aqui faz 13 anos que eu moro aqui e nunca fiquei infeliz aqui. Espero que aqui nunca acabe. Eu tenho um poema que eu amo e serve para todos que mora aqui e sente infeliz aqui. Eu sou do tamanho daquilo que vejo não do tamanho da minha altura e tenho orgulho de mim mesmo. (P., diário)

Eu gosto do Bela Vista mas não é muito bom o quanto vocês imagina mas eu acho que é melhor que a cidade porque se você quer uma maçã você tem que comprar. Lá no Bela Vista não, você planta e colhe. (D., diário)

Eu gosto do assentamento porque aqui você pode fazer o que você quiser ir no campo, na quadra, ir no lote, na cachoeira, na casa dos amigos. Lá na cidade é diferente você não pode fazer tudo isso e lá é mais perigoso por causa de carros, muito movimento, na Bela Vista não é tão movimentado mas se um dia meu pai quiser morar na cidade eu vou (....) (F., diário)

O que chama a atenção na valorização do assentamento é que esses trechos estão registrados no diário e não são respostas a perguntas. A escrita foi totalmente espontânea, o que pode denotar uma reflexão sobre a vida no campo. A escrita espontânea, além de tratar da intimidade, é uma livre escolha do escritor sobre o que deseja narrar. Nos relatos de atores assentados é muito comum a valorização da natureza, pois eles estão em contato constante com pássaros, flores, árvores frutíferas e com a própria lida com a terra por meio de plantios e criação de animais. Há um sentimento de segurança e de tranquilidade em detrimento ao medo de

assaltos, atropelamentos e barulhos comuns nas áreas urbanas31, o que faz com o assentamento seja visto como um bom local para se viver. Observamos que no primeiro registro, há a repetição da palavra aqui. A menina adolescente parece demonstrar, com a repetição, o desejo de ressaltar, veementemente, de que “aqui” (o assentamento) é melhor que “lá”. Outro ponto a destacar é que a adolescente faz uma paráfrase do poeta Fernando Pessoa “Eu sou do tamanho daquilo que vejo não do tamanho da minha altura e tenho orgulho de mim mesmo”, o que mostra, novamente, que as adolescentes praticam a leitura. E mais: a adolescente parece fazer questão de utilizar palavras de um poeta para demonstrar a afetividade que sente pelo assentamento.

No caso dessa pesquisa, a valorização desse espaço surge tanto na escrita dos diários quanto no momento em que fiz a entrevista e houve comparativos com a cidade. As meninas sentem-se atraídas pelas facilidades que o estilo urbano proporciona, como o fácil acesso a supermercados, ao trabalho, à escola e asfalto. O asfalto é importante por estarem envolvidas com o cuidado da casa e, para elas, o asfalto indicaria uma possibilidade de menos poeira em suas casas e facilidade em colocar as roupas para secar no varal.

Gostaria de ressaltar aqui que, apesar da pouca idade, a valorização e o orgulho de ser assentada pode ser reflexo de uma memória individual, familiar e coletiva, uma vez que elas presenciaram, por meio de histórias e relatos, a luta pela Reforma Agrária. Pode-se dizer que, nesse caso, essa “nova geração” possui uma herança cultural que serve como base para os sentimentos positivos de pertencer a essa nova categoria sociológica, que é o assentado. Ao final do capítulo, esse assunto será retomado.

Outros lugares em que a prática de sociabilidade pode ser exercida no assentamento são um salão, considerado uma espécie de clube recreativo e o “terreirão”, que é um espaço onde ocorrem manifestações culturais, como a Festa Junina. Entretanto, fica evidente nos diários, nas entrevistas e em conversas informais com os moradores do assentamento que a falta de lazer e a mesmice faz com que o ser humano procure outros espaços para interagir, sendo a cidade um desses lugares. As atividades de lazer estão limitadas a encontro com as amigas, visitas a parentes, atividades físicas e cuidados com o corpo.

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Essa descrição comum das áreas rurais, por seus moradores, foi constatada em pesquisas, tais como: WHITAKER (1984, 1992, 2002, 2008); FIAMENGUE (1997); CASTRO (2008); CASTRO et al (2009).

A T. e eu fomos fazer caminhada para ver se perdemos peso além de eu estar no meu peso normal acho que está alto (D., diário)

Toda quarta faço aula de dança é muito bom dançar, além de ajudar a manter a forma é prazeroso. Estou fazendo caminhada à tarde com a Y. para também manter a forma, além disso aproveitamos para botar a conversa em dia (M., diário)

Esses registros evidenciam duas práticas muito características do urbano: caminhar e fazer aula de dança. É importante lembrar que na vida rural tradicional, caminhar é ato espontâneo. Faz parte da vida: ir até as plantações, alimentar os animais, visitar os amigos e parentes ao longe. Ou seja, caminhar tem sempre um objetivo. Caminhar por caminhar é uma prática urbana, uma vez que, estando na cidade, existe transporte para tudo. Observação semelhante em relação às aulas de dança: as pessoas desde cedo dançavam nas festas, nas comemorações sem a preocupação em “ter aulas de dança”. Para além dos cuidados com a saúde, sobressai o cuidado com o corpo: uma preocupação que atinge mulheres cada vez mais jovens e a televisão tem uma forte influência.

A televisão surge nos discursos como fonte de informação e de entretenimento. Importante lembrar que as adolescentes participantes da pesquisa, diferentemente de suas avós e talvez até de suas mães, nasceram e estão crescendo com a televisão fazendo parte do cotidiano.

É comum lamentar a influência da TV sobre os jovens e que ela chega a ser, para os jovens, mais importante do que a escola. A mídia, expressa pelos diferentes programas e pelas propagandas de televisão, incita desejos de uma forma de vida em que o cuidado com a aparência (confundida com saúde e bem estar) é seu centro. As jovens estão sendo erotizadas por padrões de beleza, pelo culto ao corpo e pelo sucesso de mulheres bonitas e jovens. A mídia veicula ainda a idéia de juventude não como uma fase da vida, mas sim como um ideal a ser seguido, deseja-se prolongar a juventude e ser reconhecido como jovem e belo, independente da idade biológica em que há, cada vez, identificação com ídolos que veiculam esse tipo físico como ideal de felicidade a ser conquistado (SILVA & SOARES, 2003)

Como sinaliza AVELAR (2010), a mídia, por meio de instrumentos como a televisão, produz e veicula valores, ideias e formas de se comportar almejados por um grupo dominante cuja finalidade é manter ou reproduzir uma hierarquia. A televisão, portanto, como instrumento da ideologia, desenvolve, por meio principalmente das novelas, histórias em que a maioria das cenas propaga modelos de mulheres e de homens que induzem, por exemplo, o consumo de determinados produtos.

Apesar de algumas mudanças no perfil das personagens das novelas e seriados, pode-se dizer que essas mulheres adultas, jovens e adolescentes surgem são sempre lindas, esbeltas e quase não aparecem em seu ambiente de trabalho. As personagens vivem tramas amorosas, condicionadas pelo imaginário romântico que quase nada tem a ver com a vida real. Na maioria das situações em que a mulher aparece trabalhando, está desenvolvendo profissões de baixo status social ligadas ao servir, como secretária ou empregadas domésticas.

Interessante porque basta um olhar em volta para nos depararmos com mulheres que trabalham e lutam contra as limitações dos espaços no mercado de trabalho e preconceitos diversos. Esse assunto já foi denunciado pela literatura sobre gênero, mas convém lembrar a dupla ou tripla jornada de trabalho comum no cotidiano. As mulheres trabalham fora, cuidam da casa, dos filhos e, no desejo de melhorar a vida, muitas fazem cursos diversos no período noturno32.

As jovens do assentamento reconhecem esse fato, principalmente quando refletem sobre a vida de mulheres bem próximas a elas:

minha avó cuida de uma menina ela é linda simpática. A mãe dela trabalha debulhando milho é uns serviços daqui da Bela Vista. Muitas mulheres trabalham lá. (C, diário)

tenho até dó da minha mãe porque ela trabalhou muito em casa e principalmente na roça (F., diário)

S – Você acha que sua vida é diferente da vida da sua mãe, quando ela tinha sua idade?

Ah... eu acho que eu tive de melhor porque ela conta que ela nunca teve as coisas que ela quis; sempre teve que tomar conta dos irmãos... se bem que isso eu faço também... só que assim... ela cuidava... lavava roupa... fazia um monte de coisa. Ela não teve a oportunidade de brincar muito e... de estudar. Ela está tentando terminar. Ela tentou fazer prova do terceirão na cidade, mas não conseguiu. Aí, ela falou que é muito difícil, ela não tinha tempo de brincar, não tinha tempo de conversar com as amigas, né? não tinha escola... (P., Entrevista) Os trechos acima favorecem a reflexão sobre a história das mulheres do campo e tem sido tema de muitos estudos sobre o campesinato no Brasil. SILVA (2010), ao falar de suas experiências de pesquisa também no Assentamento Bela Vista, descreve as várias posições

32 Para aprofundamento da problemática mídia e relações de gênero, ver: BRABO (2010); MARTINS (2005); LOURO (2003).

assumidas pelas mulheres, como donas de casa e o trabalho nas roças por meio de atividades com plantios e criação de animais; outras comercializam seus produtos nas feiras, na cidade. A autora cita que muitas mulheres trabalham como empregadas domésticas na cidade e chegam a contratar pessoas do assentamento para cuidar dos filhos pequenos.

Os relatos da pesquisadora foram confirmados durante a realização dessa pesquisa. Os diários e as entrevistas mostraram que as histórias das mães, das avós e de outras mulheres da comunidade têm sido atravessadas por muito trabalho e pouca (ou nenhuma) hora de descanso. Os cuidados com o lote, a roça e o trabalho na cidade configuram-se como extensão do trabalho da casa. Dito de outra forma, a vida das mulheres do campo é um desafio que muitas enfrentam no percurso de suas vidas. O último trecho ilustra a importância da educação escolar para as mulheres. Esse assunto será retomado na análise das entrevistas realizadas com as mães e avós.