A análise semântica realizada demonstra que a agilidade é uma habilidade que pode ser aplicada a diferentes níveis organizacionais. Portanto, o conceito agilidade precisa ser qualificado, de acordo com o ENTITY (entidade, agente), sempre que citado. Não se pode abordar agilidade simplesmente, mas deve-se associar agilidade com uma entidade que caracteriza o “agente” da mudança. Este “agente” pode ser a organização como um todo, o processo de manufatura, o processo de desenvolvimento de produtos, o gerenciamento de projetos, um projeto, produto ou tecnologia, conforme verificado na análise semântica.
Neste trabalho o agente é o próprio “time de projeto”. Portanto, trata-se do conceito no nível de projeto, sob a perspectiva do gerenciamento de projetos, que é parte integrante do processo de desenvolvimento de produtos, e assim por diante, considerando o contexto de uma organização. Conforme argumentos e evidências discutidas na seção 5.1.1, a definição do conceito agilidade em gerenciamento de projetos é descrita como:
AGILIDADE é a habilidade do time de projeto para mudar o plano do projeto, de forma rápida e contínua, em resposta às necessidades emergentes dos clientes, demandas de mercado e tendências ou oportunidades, para adicionar valor e entregar melhores resultados em um ambiente de negócios inovador e dinâmico.
O foco do conceito agilidade apresentado nesta tese é o “time de projeto” e pode ser ilustrado por meio da Figura 19. De acordo com esta proposta, o time de projeto pode ter ou não a “habilidade para mudar”. A Figura 19 também ilustra os diferentes níveis de aplicação do conceito, conforme resultados da análise semântica de frames (seção 5.1.2).
Figura 19. Diferentes níveis de aplicação do conceito Agilidade.
Fonte: elaborado pelo autor com base nos resultados da análise Semântica de Frames.
A partir desta definição para o conceito agilidade com foco no gerenciamento de projetos, construída a partir de uma revisão sistemática e análise semântica das definições existentes em outras áreas do conhecimento, identificou-se um conjunto amplo de implicações em relação à teoria existente.
A primeira implicação para a teoria é o fato de ter sido obtido uma definição mais coesa que as existentes. Com o uso da técnica de semântica de frames (FILLMORE, 1982, 1985; PETRUCK, 1995;1996; FILLMORE, 2003; FILLMORE; BAKER, 2010), foi possível identificar as diferenças e semelhanças entre os elementos definitórios (elementos semânticos) que compõe os conceitos “flexibilidade” e “agilidade”.
A definição proposta elimina o problema de dualidade entre os conceitos flexibilidade e agilidade, ora tratados como sinônimos, ora tratados como parte e todo de cada um deles, pelos autores dessa literatura. Obtém-se assim, uma definição que elimina por completo esta
ambiguidade. A flexibilidade é parte da agilidade, e diz respeito ao potencial para mudar. Ela contribui para a agilidade, mas não é suficiente para garanti-la. Portanto, o conceito “agilidade” é composto por dois atributos essenciais: a velocidade e a flexibilidade.
Esta ação “mudar” deve ocorrer de “forma rápida e contínua”, é o que indica o elemento semântico DEGREE. Para isso é imprescindível a velocidade da ação “mudar”, ou seja, mudar “rapidamente”, com “velocidade”. Esse atributo pôde ser observado em várias definições conforme análise semântica do conceito agilidade (veja apêndice 6).
Outra implicação teórica é baseada no conjunto de evidências que indicam que o conceito agilidade pode ser adaptado para os diferentes níveis de uma organização, conforme discutido na seção 5.1.2. Isso deve-se ao fato da técnica de Semântica de Frames desdobrar a definição e suas partes elementares em “frames” (quadros), permitindo que se altere o foco do conceito a partir da troca de alguns elementos. É o caso do elemento “ENTITY”. A partir dos elementos centrais ENTITY (organização, manufatura, processo de desenvolvimento de produtos, projeto) e EVENT (“habilidade para mudar”) é possível fazer adequações para diferentes focos de aplicação em níveis organizacionais distintos.
Neste trabalho o “agente da ação” (ENTITY) é o “time de projeto”, mas o foco do conceito agilidade poderia ser a organização como um todo. Caso o foco seja a organização, bastaria alterar os elementos ENTITY (Entity = Organization), e o elemento EVENT, que nesse caso poderia ser “mudar a estratégia de negócio” ao invés de “mudar o plano do projeto”. Portanto, a definição proposta pode ser útil como uma base sólida para o aprimoramento do conceito agilidade e sua adaptação para os diferentes níveis de uma organização.
O resultado indica que a definição para o conceito agilidade proposta neste trabalho é confirmatória, ou seja, está em consonância com os pressupostos encontrados na análise semântica das definições de agilidade e flexibilidade em outras áreas do conhecimento. Além
disso, é completa, coerente e compreensível de tal modo que possa ser operacionalizada para verificação empírica.
Segundo a perspectiva do gerenciamento de projetos esta definição do conceito “agilidade” traz contribuições relevantes. Se “agilidade” é uma “habilidade para mudar” não seria coerente atribuí-la como característica ou adjetivo de uma prática gerencial, simplesmente pelo fato da prática ser chamada “gerenciamento ágil de projetos”. A prática, por si só, não pode ser ágil. Isso implicaria em dizer que uma prática não pode conferir agilidade, ou seja, ser o elemento único responsável pelo melhor desempenho em agilidade.
O uso de uma prática gerencial, técnica ou ferramenta pode contribuir ou não para desenvolver a “habilidade para mudar” (=Agilidade), porém, isso depende da somatória de um conjunto de fatores organizacionais, contextuais do projeto, e fatores relacionados à própria equipe de projeto, chamados neste trabalho de “Fatores Críticos da Agilidade”.
Portanto, o simples fato de adotar uma prática oriunda da abordagem do gerenciamento ágil não permite dizer que se tenha agilidade no processo de gerenciamento de projetos. E a consequência disso é que fica evidente a inadequação do termo “prática ágil”. As denominadas “práticas ágeis” deveriam ser consideradas práticas de gerenciamento de projeto, como as demais. A questão seria verificar quais delas e em que condições podem trazer para a organização ou time de projeto, a habilidade, isso é, a agilidade.
Caso contrário, pode haver contradição, pois, em tese, uma equipe de projeto poderia apresentar a habilidade de ser ágil (desenvolver a “habilidade para mudar”), sem necessariamente adotar todas as práticas oriundas da abordagem do gerenciamento ágil, ou “práticas ágeis”. Bastaria para isso ter um conjunto de Fatores Críticos da Agilidade, ou seja, um ambiente favorável para se desenvolver a agilidade.
Ainda com relação à perspectiva do gerenciamento de projetos, faz-se uma comparação com as definições da área de desenvolvimento de software que mais se adéquam
a este contexto. É o caso das propostas de Highsmith (2004), Ericksson et al. (2005), Qumer e Henderson-Sellers (2006) e Conboy (2009). A primeira constatação é que nenhuma dessas definições possui todos os elementos semânticos de acordo os pressupostos da teoria de
frames (FILLMORE, 1982, 1985; PETRUCK, 1995;1996; FILLMORE, 2003; FILLMORE;
BAKER, 2010), portanto, são incompletas.
A segunda constatação é a confusão nas definições. Em geral apresentam inúmeras falhas, como redundância e palavras genéricas, uso excessivo de adjetivos e falta de elementos essenciais como o próprio “ator” da ação, nesse caso o elemento semântico ENTITY. Tais problemas semânticos dificultam a compreensão, a operacionalização do construto “agilidade”, e como consequência, sua mensuração e observação em campo.
Aqui estão alguns exemplos desses problemas semânticos. Inicia-se pela definição de Highsmith (2004), cuja obra está relacionada com o gerenciamento ágil de projetos e sua proposta é que “práticas ágeis” estão relacionadas com a agilidade, e por sua vez seriam mais indicadas para o gerenciamento de projetos complexos conduzidos em ambientes de inovação, dinamismo e incertezas (HIGHSMITH, 2004). A definição proposta por Highsmith (2004), por exemplo, apresenta somente três elementos de frame e não específica quem é o ator da ação (ENTITY). Portanto, está incompleta e não permite sua verificação em campo.
Já na definição proposta por Williams e Cockburn (2003) o problema está na relação direta entre o elemento ENTITY com os métodos ágeis. Isso é, os “métodos ágeis” que são capazes de mudar, e foram desenvolvidos para absorver altos níveis de mudanças. Esta definição é imprecisa e induz ao erro. Pode-se entender que são os “métodos ágeis” que absorvem as mudanças, e não o time de projeto, com apoio de práticas, técnicas e ferramentas, e um conjunto favorável de fatores organizacionais.
A definição proposta por Ericksson et al. (2005) também está incompleta. Seu foco está explicito, “promover respostas rápidas” (EVENT), porém falha ao determinar o ator da
ação, o ENTITY, e pouco explica o propósito de se promover respostas rápidas (PURPOSE). Portanto, algumas questões emergem: qual o propósito de promover respostas rápidas? Quem é capaz de promover respostas rápidas? Qual a razão, motivação, para promover respostas rápidas?
Por fim, a definição de Conboy (2009) pode ser considerada uma das mais completas, todavia é complexa e confusa. O autor designa várias ações (EVENT) para uma mesma definição, exemplo: “create”, “embrace”, “learn”. Tais elementos dificultam a compreensão do foco da definição. Seria criar mudança? Absorver a mudança? Ou, aprender com a mudança? Seria possível medir todos esses aspectos de uma só vez? Do mesmo modo, o autor destaca diversos propósitos (PURPOSE), o que dificultaria sua medição e associação em um estudo de campo, em uma análise de correlação ou causalidade.
Em síntese, as definições encontradas na literatura e analisadas neste trabalho estão incompletas, são confusas e não permitem a devida operacionalização do construto “agilidade”. Dificulta, portanto, a observação e mensuração do conceito agilidade em campo segundo a perspectiva do gerenciamento de projetos, conforme lacuna identificada no início deste trabalho (capítulo 1).
O Quadro 11 ilustra o resultado da análise semântica das definições utilizadas como exemplos na argumentação teórica apresentada. Uma versão completa, contendo a análise de todas as definições está no apêndice 6.
Quadro 11. Análise semântica das definições de agilidade da área de Desenvolvimento de Software.
Autores Entity [EN] Event [EVT] Degree [DEG] Trigger [TRG] Purpose [PUR] Circumstance [CTC] Highsmith
(2004) to both create and respond to change to profit in a turbulent business environment Williams e Cockburn (2003) Agile methodolog ies feedback and
change to embrace higher rates of change Ericksson
et al. (2005)
to promote
quick response changes in user requirements, accelerated project deadlines and the like to changing environments Conboy
(2009) ISD method create change; embrace change; learn from change rapidly or inherently; proactively or reactively while contributing to perceived customer value (economy, quality, and simplicity), through its collective components and relationships with its environment
Fonte: elaborado pelo autor com base nos resultados da análise Semântica de Frames – Apêndice 6. Se compararmos as definições existentes na teoria, em especial aquelas que poderiam ser utilizadas na área de gerenciamento de projetos, a conclusão é que a proposta deste trabalho se destaca por ser completa, simples, objetiva e coerente, possibilitando sua operacionalização e sobretudo, sua medição em campo, conforme ilustrado no Quadro 12. Quadro 12. Definição de agilidade no gerenciamento de projetos segundo os elementos da Semântica de Frames.
Entity Event Degree Trigger Purpose Circumstance
Time de
Projeto Mudar o plano do projeto De forma rápida e continua Necessidades emergentes dos clientes, demandas de mercado e tendências, ou oportunidades Adicionar valor e entregar melhores resultados Ambiente de negócios inovador e dinâmico
Fonte: elaborado pelo autor.
Portanto, esta definição do conceito agilidade para gerenciamento de projetos constitui a base fundamental para a construção do modelo conceitual, conforme descrito na próxima seção 5.2. Espera-se que esta definição seja útil para o desdobramento de variáveis e por conseguinte mostrar-se robusta o suficiente para a avaliação da agilidade no gerenciamento de
projetos, bem como o estudo do relacionamento com as características da agilidade e fatores críticos da agilidade.