Há uma importância em conhecer os alunos e monitorar o comportamento deles para que o professor possa perceber a necessidade de ajustes, pausas e acelerações na sua prática em sala de aula. Conforme explica Zabala (1998) existe um conjunto de relações interativas necessárias para o desenvolvimento da aprendizagem, sendo necessário criar um ambiente favorável de mobilização da interatividade e autodesenvolvimento dos alunos. Esse processo interativo se encaixa naquilo que estudiosos da educação chamaram de clima escolar (VILASSANTI, 2012). É por meio dele que se espera que os professores tenham o papel de propiciar relações amistosas, evitando violência e garantindo relações amigáveis e bom desempenho dos alunos. Uma das questões que orientou a presente investigação estava associada à forma como docentes de uma academia de Polícia Militar concebem essas relações no interior das suas aulas com os seus estudantes. Parte-se do princípio de que os espaços onde a formação profissional de soldados da Polícia Militar se dá partilham normativas que articulam, ao mesmo tempo, valores sustentados pela corporação com as Diretrizes da Educação Nacional, sem as quais os referidos espaços não poderiam ofertar certificados com validade formativa em todo território nacional.
Às vezes, determinado comportamento agitado precisa ser contido para não trazer prejuízo à aula, outras vezes, é necessário provocar a agitação para que os alunos fiquem despertos e motivados. Isso vai depender do momento e do clima da turma e o professor terá que fazer as adaptações necessárias de modo a manter o foco nos objetivos traçados no seu planejamento e compreender que sua aula não é para aluno A ou aluno B, e sim para todos da turma. Essa dinâmica depende da habilidade que o professor tem que ter para interagir com os alunos, na sua didática aplicada àquela aula e na forma de abordagem dos temas propostos para aquela aula.
Evidentemente que todas as observações feitas acima se aplicam à educação voltada principalmente a crianças e a adolescentes, o que não é o caso do presente estudo. Este tratou da relação de docentes na formação de pessoas adultas profissionais da carreira de policial militar, em uma academia que segue regras claras pautadas na hierarquia de seus quadros, definidas regimentalmente pelo comando superior e que se colocam muitas vezes acima daquilo que é definido pelas reais autoridades da educação como sendo algo a ser cumprido pelos gestores e supervisores escolares e pelo respectivo corpo docente.
As observações realizadas nas turmas do CSTAPO/2014 objetivaram perceber como ocorre essa interação no ambiente da EFSd, de quem para quem e com que duração. O padrão da interação existente, o assunto falado e as próprias discordâncias também foram observados.
Primeiramente, coloca-se em evidência, em relação à interatividade das turmas do CSTAPO/2014, sobre quem fala e para quem são dirigidas essas falas. Observou-se que essas falas ocorrem entre professor e alunos, reciprocamente na maioria das turmas. Em menor escala, em duas turmas ocorreram somente falas do professor para os alunos, acontecendo essa situação na disciplina de Direito Penal Militar. As falas interativas de alunos para os alunos se deram na disciplina de Psicologia Aplicada nas Relações Humanas e nas Organizações, em uma aula em que havia apresentação de trabalhos, portanto, com interferência mínima do professor.
Gráfico 6.17 - Tipo de interação das turmas - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
A interação entre professor e alunos leva em consideração a imprescindibilidade desse processo para a melhoria da aprendizagem, ou seja, os atores no ambiente de ensino precisam se comunicar para provocar reflexões sobre essa interatividade. Conforme relata Delors (2000), o cerne do processo pedagógico encontra-se na forte relação do professor com seu aluno e nos domínios dos processos de reflexão e de aprendizagem. Relações mais sólidas entre professor e aluno fazem com que haja maior confiança e, consequentemente, maior liberdade para realizar as interações entre os sujeitos e, para isso acontecer, deve ser praticado por um determinado tempo.
Nesse sentido, a duração das interações em sala de aula foi observada nas turmas do CSTAPO/2014, tendo como resultado que a maior parte ocorre durante toda a aula ou em
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Alunos com alunos Professor e alunos, reciprocamente
sua maior parte, traduzindo-se em um processo contínuo no decorrer do tempo gasto para as exposições ou atividades realizadas pelos professores.
Na disciplina de Policiamento Ambiental, o professor dirigia-se o tempo todo aos alunos, estimulando interações, da seguinte forma: “Causar poluição em si é crime?” [pergunta o professor]; “É crime” [responde um aluno]; “Vocês acham que esta escola aqui polui? ” [continua o professor]; “A questão é se vai causar danos...” [respondem os alunos, um de cada vez]; “Para saber se há poluição (sonora) a primeira questão que tem que fazer é qual? ” [continua o professor]; “Perícia...” [responde o aluno]. Esse exemplo demonstra que o professor utiliza como estratégia didática o modelo de se fazer perguntas sobre o tema durante toda a aula, havendo uma interação contínua com a turma.
Gráfico 6.18 - Duração da interação entre professor e aluno - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
Como se dá a interação entre professor e aluno nas turmas do CSTAPO/2014? Qual é esse padrão? Estes questionamentos foram respondidos por meio da observação em sala de aula, cujo resultado indica que há uma organização nessa interatividade, ou seja, ou ocorre um de cada vez, na maior parte das turmas, ou em grupos e individualmente, de modo alternado, não havendo ocorrências de muitas pessoas falando ao mesmo tempo, o que, por sua vez, denotaria desorganização.
Na disciplina de Policiamento Ambiental, observou-se que, dependendo da pergunta realizada pelo professor, às vezes, os alunos respondiam às perguntas ao mesmo tempo, todavia, a ordem logo era reestabelecida e cada um passava a falar no seu tempo, ocorrendo, desse modo, uma interação de forma individual.
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Em nenhum momento Durante pouco tempo da aula Ocupa metade do tempo da aula Durante a maior parte da aula Durante toda a aula
Gráfico 6.19 - Padrão de interatividade entre professor e aluno - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
Havendo uma organização na interatividade do professor e do aluno, resta saber quem gerencia e conduz essa interação. Nas turmas observadas, a responsabilidade pela regulação dessa interlocução é do próprio professor que conduz as aulas, sendo essa situação constatada em sete das oito turmas do CSTAPO/2014. O professor torna-se, nessa situação, a autoridade que dita as regras para que haja a interação, aumentando o seu poder simbólico de detentor do saber que conduz os alunos ao aprendizado.
Em apenas uma delas, os alunos é que fizeram esse papel, por meio de lideranças eleitas consensualmente pelo grupo, situação esta que demonstra que a inversão de papéis com o professor é possível de acontecer. Cabe ressaltar que, formalmente, existe a figura de um representante de turma que é denominado de “xerife” em cada turma do CSTAPO/2014, o qual, segundo as regras da EFSd, é escolhido alternadamente entre os alunos, sendo um a cada semana, seguindo-se uma escala previamente definida. Na disciplina de Policiamento Ambiental, ocorreu o fato de o “xerife”, além de ser o representante da turma, também assumir um papel de liderança, auxiliando o professor na organização e na regulação da interação com os alunos. Acontecimentos como o descrito anteriormente surgem quando existe uma habilidade do “xerife” em gerir a turma, aliada ao acatamento das regras estabelecidas pelo restante da turma, em demonstração de respeito ao líder.
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Individual e em grupo, alternadamente Muitas pessoas ao mesmo tempo Um de cada vez
Gráfico 6.20 - Responsável pela regulação da interação entre professor e aluno - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
O momento no qual ocorre a interação entre professor e aluno, na totalidade nas turmas do CSTAPO/2014 em que se realizou a atividade de observação, foi durante a exposição do professor. Provavelmente, os momentos que antecedem a exposição e sua finalização não proporcionam oportunidades em decorrência de atividades iniciais que os professores realizam dentro de sua rotina, como, por exemplo, de retomada de conteúdos anteriores, no início da aula, e de explanação de objetivos atingidos, ao final da aula.
Gráfico 6.21 - Momento em que é dada a palavra aos alunos - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
Uma vez dada a palavra aos alunos, estes partem de um ponto específico, o qual retrata a dinâmica de como os sujeitos falam uns com os outros e com o professor em sala de aula. Nas turmas do CSTAPO/2014, observou-se que esse ponto inicial, na maioria das turmas, ocorreu partindo do conteúdo da disciplina que estava sendo ministrado. A variação de fala a partir do que outro aluno disse ou interrompendo a argumentação do professor foi registrada em menor número de turmas.
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Os alunos, por consenso Os alunos, por meio de lideranças O professor A administração da escola 0 1 2 3 4 5 6 7 8 Ao final da exposição Durante a exposição Antes da exposição
Gráfico 6.22 - Como os alunos e o professor falam uns com os outros - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
A interação entre professor e aluno pode extrapolar a exposição do professor prevista para aquela aula, podendo ocorrer situações imprevistas, nas quais é necessário definir estratégias de negociação para lidar com esses assuntos, para não perder o objetivo inicial do planejamento. Nas turmas do CSTAPO/2014, as experiências profissionais dominaram as falas quando havia essa extrapolação do previsto, seguida de falas sobre experiências profissionais e atividades escolares, respectivamente.
Gráfico 6.23 - O que se fala em sala de aula além da exposição prevista - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
A gestão do ensino não é estática e está passível de adaptações no decorrer da aula, dentro das perspectivas plurais do ambiente escolar descritas por Farias et al. (2011). Uma situação a ser considerada é a ocorrência do silêncio por parte dos alunos, que pode ser sinônimo de atenção e aprendizado, com um significado positivo ou simplesmente de desatenção, apresentando um problema em sala de aula.
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Partindo de um ponto do conteúdo Partindo do que o outro disse Interrompendo a argumentação do professor
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Experiências profissionais Experiências pessoais Atividades escolares
Nesse sentido, primeiramente, foi verificado se esta situação está presente nas salas de aula do CSTAPO/2014, cujo resultado trouxe, em termos de frequência, que em quatro turmas há “muitas vezes” o silêncio, em outras duas turmas “às vezes” ocorre o silêncio e em mais duas turmas ocorre “poucas vezes” o silêncio.
Dessa forma, os dados mostram que sempre há o silêncio em algum momento nas salas de aula do CSTAPO/2014, o que, de certo modo, denota uma naturalidade, pois não há aprendizado em um clima de algazarra e falatório contínuo, além do que, o silêncio pode ter sentidos diferentes para a turma, pois há diferenças de interação em sala de aula que levam a significados diversos para um aluno e não para outro.
Gráfico 6.24 - Frequência de silêncio em sala de aula - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
Lidar com o silêncio exige do professor o desenvolvimento de estratégias de interação ao perceber essa situação. Coloca-se então a prática docente em ação para que o silêncio seja quebrado e o aprendizado flua com mais interação. Nas turmas do CSTAPO/2014, foi observado o uso de diferentes estratégias por parte dos professores. Na maioria das vezes, os professores provocam discussões sobre um tema para motivar a fala dos alunos. A elaboração de perguntas, em menor escala, também foi verificada como estratégia utilizada.
Todavia, mesmo com o silêncio reinante na sala de aula, foi observado que alguns professores não provocam intervenções e continuam a aula normalmente, provavelmente porque entendem que os alunos estão com o significado positivo do silêncio, ou seja, estão prestando atenção na exposição com assimilação do conteúdo.
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Nenhuma vez Poucas vezes Às vezes Muitas vezes
Gráfico 6.25 - Formas como os professores lidam com o silêncio - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
A heterogeneidade, presente em qualquer sala de aula, provoca, necessariamente, discordâncias de ideias, opiniões e perspectivas que envolvem o aprendizado. Perrenoud (1993) salienta a importância dessa característica do ambiente escolar com a qual os professores têm de lidar no seu cotidiano docente, sendo um dos eixos de representação para o qual o professor deve elaborar suas estratégias. Embora da mesma faixa etária, os alunos ainda apresentam heterogeneidade, uma vez que as pessoas sempre são diferentes entre si. O mesmo ocorre com o professor e o aluno, geralmente de gerações diferentes, cuja responsabilidade de um é o dever de outro, ou seja, o de ensinar do professor e o de aprender do aluno.
Enxergar e respeitar essas diferenças constituem-se em grandes desafios do professor no seu dia a dia, mas, em contrapartida, os esforços para lidar com essa perspectiva podem ser vistos como um enriquecimento para o seu lado profissional.
Apesar das situações expostas anteriormente, a frequência com que essas discordâncias entre professor e aluno estão presentes nas turmas do CSTAPO/2014 observadas mostra que esse comportamento é poucas vezes notado. Em cinco das oito turmas observadas não houve nenhum tipo de discordância.
6.26 - Frequência de discordâncias entre professor e aluno - 2014
Fonte: Dados da pesquisa
0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5
Não houve intervenção do professor Continua a aula normalmente Ela o a pe gu tas e expli ações ais…
Provoca discussões sobre um tema Chama a atenção por meio do humor
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Nenhuma vez Poucas vezes Às vezes Muitas vezes
As divergências levam os professores a lançarem mão de estratégias que levem a ações pedagógicas que consigam envolver os alunos, mesmo com as diversidades presentes em sala de aula, de modo que sua linguagem, didática e conteúdo sejam alcançados por todos. Perrenoud (1993) aponta que, diante da heterogeneidade, o professor se depara com opiniões diversas e, nessa situação, ocorrem os chamados incidentes críticos, para os quais os professores devem estar preparados.
Mesmo com poucas observações de discordâncias entre professor e aluno nas turmas do CSTAPO/2014, as estratégias adotadas pelos professores consistiram em dar explicações detalhadas e buscar argumentos oriundos da prática profissional para dirimir as dúvidas e divergências apresentadas.
Em dois momentos, as discordâncias não necessitaram de intervenção do professor, pois, pela própria explanação do conteúdo, sem maiores esforços didáticos, a situação foi contornada, conforme demonstrado no gráfico seguinte.
Gráfico 6.27 - Formas como os professores lidam com as discordâncias - 2014
Fonte: Dados da pesquisa