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O boletim especial Globo Notícia, que vai ao ar às 9:30h, entre o programa Mais Você e o Sítio do Pica-pau Amarelo, é uma espécie de informativo fixo da rede, intermediário, pois é apresentado depois do Bom Dia Brasil e antes do telejornal local, e se diferencia dos boletins extraordinários do SPTV pelo seu alcance nacional e principalmente pelo fato de que faz parte da grade de programas da rede. Ao ser inserido no fluxo televisual, a força de ruptura no cotidiano da grade e captura da atenção do espectador é mais limitada, apesar da música de ritmo acelerado, que lembra vagamente o conhecido tema do plantão do Jornal Nacional, caracterizando com a ajuda do timing um esforço para criar o

aviso de que mais atenção deve ser demovida ao aparelho televisor naquele instante.

Ao iniciar a apresentação, a jornalista se apresenta em uma redação de jornalismo, no canto direito da tela, atrás de um púlpito onde sobressaem elementos transparentes e o seu computador portátil, e ao lado da tela onde imagens ao vivo são projetadas. A presença do púlpito remete a um elemento arquitetônico com origem nas igrejas medievais européias, onde era lido o evangelho. O púlpito não era o altar, ele ficava na lateral da nave, e a pessoa nele presente era um representante do povo com o privilégio e a autoridade para falar dentro da igreja. Essa pessoa praticava a oratória, a arte de falar publicamente. Essa utilização do púlpito pela jornalista Sandra Annemberg constrói um efeito de sentido de respaldo, de fala autorizada (Figura 7).

A agenda do Globo Notícias do dia 15 de maio concentrou-se no tema dos ataques em São Paulo. Sandra Annemberg entrava em contato com jornalistas em diferentes pontos do estado de São Paulo e até mesmo de outros estados - Mato Grosso do Sul e Paraná. Os textos falados pela jornalista construíram e disseminaram o efeito de sensação de insegurança, aliado aos princípios enunciativos de imediatismo e ubiqüidade mencionado por Becker:

Bom dia, o Globo notícias está no ar. Manhã de caos em São Paulo. Depois de um fim de semana de violência, a população acordou sem ônibus para ir ao trabalho. Vamos direto ao Globocop saber como está a maior capital do Brasil neste momento, Marco Antonio Sabino?

- Sandra este é um dos terminais de ônibus da zona sul de São Paulo. Todos continuam fechados. As empresas de ônibus que atuam nessa região decidiram recolher das garagens cerca de 4 mil coletivos. Com isso os passageiros ficaram praticamente sem opção durante toda a manhã, e os pontos superlotados. Por causa da falta de ônibus, o metrô e os trens do subúrbio estão sobrecarregados. Na zona leste, uma estação do metrô também foi atacada, e duas bases de operação da companhia de engenharia de tráfego também foi atingida. Sandra.

Ao delegar a voz para o repórter no helicóptero, as imagens seguem a mesma construção de efeito de sentido da apresentação do SPTV: A transmissão em tempo atual começa com uma tomada aérea de 12 segundos do terminal de ônibus vazio, passam para as ruas do Largo 13, conhecido ponto de vans e lotações, repleto de pessoas nas calçadas e ruas, que dura 14 segundos e não apresenta a legenda de “ao vivo”, mas que devido a sua presença entre as transmissões diretas, produz o mesmo efeito. A tomada final “provê”, com uma cena aérea de uma estação da zona sul, não identificada, a fala do repórter sobre ataques a estações de metrô, que dura aproximadamente cinco segundos.

Ao fim da transmissão daquele repórter e com o retorno para a cena ao estúdio, a apresentadora do boletim resgata o poder de voz para indicar ao espectador informações ao vivo em frente ao terminal: “Vamos saber agora como está a situação nos terminais (...) no chão Fábio Turci está em um dos maiores da cidade; bom dia Fábio, como estão os ônibus, parados por aí?” A tomada ao vivo dura 20 segundos, e é seguida por imagens gravadas dos ônibus incendiados na noite anterior. Ao completar a notícia o jornalista não adiciona nenhuma informação nova. A única diferença é que ele está no chão (e não no helicóptero), onde pretende estar “entre” os usuários de transporte coletivo, numa tentativa de se aproximar do espectador. Quando está em um helicóptero, comentando tomadas aéreas, o repórter apresenta-se em uma condição única, específica de alguém que se locomoveu para o local do acontecimento para observá-lo e contá-

lo, fazendo sua mediação com o espectador. A possibilidade de ver o acontecimento de cima oferece ao jornalista um novo ângulo, uma superioridade técnica em relação a quem está no solo. Ao transmitir imagens feitas no chão, entre as pessoas, o repórter apresenta-se em uma condição de igualdade entre os outros que o acompanham no local onde se dá o acontecimento. Se não pode oferecer ao telespectador um benefício tecnológico, o repórter dessa vez pode inserir o telespectador dentro do contexto de quem vivencia o fato, como se o próprio espectador estivesse no local do fato, entre as pessoas.

As notícias sobre os ataques continuam, e a inserção “ao vivo“ seguinte, que dura 40 segundos, apresenta o jornalista Rodrigo Bocardi em frente a uma delegacia, descrita como o local onde as autoridades se encontram para discutir a situação. Desse local o repórter relata várias informações e números sobre os ataques, as vítimas, etc. O tom do jornalista revela a gravidade dos números, informações mais recentes e precisas, e parte delas de uma fonte oficial, a Secretaria de Assuntos Penitenciários. A apresentação desses novos dados colabora para o sentido de urgência e atualização da situação, motivo pelo qual o espectador estaria assistindo a um boletim extraordinário. A sensação é que tais dados saíram diretamente daquela delegacia. Mas o repórter não está dentro da delegacia, e sim do outro lado da rua, e ainda informa que os dados são preliminares. Percebe-se assim que a presença do repórter em frente àquela instituição busca assegurar a oficialidade dos dados pela emissora apresentados. Nota-se também como a apresentação de números torna os fatos concretos para o espectador, aumentando a sensação de insegurança: ”46 rebeliões em todo o estado. 237 reféns, dez agências bancárias foram atacadas e um caixa eletrônico também”.

Sandra Annemberg utiliza uma das últimas informações passadas pelo repórter em frente à delegacia para dar o gancho ao próximo repórter em link “ao vivo”: “Como o Rodrigo disse, tensão também no interior do estado. De Ribeirão Preto, João Carlos Borda.” Em 25 segundos o repórter do interior completa informações sobre ataques a policiais no interior, dando destaque a um delegado queimado por bandidos. Esse repórter se localiza em uma rua não

identificada em que se vê alguns carros em movimento, uma rua que, dadas suas características, poderia ser de qualquer cidade do interior do estado: mão dupla, apenas duas faixas, alguns prédios baixos ao redor, cuja arquitetura não se destaca, árvores na linha do horizonte. Não há pessoas em volta, nenhum entrevistado. Esse efeito de ubiqüidade se relaciona com a empatia espacial: a figura do repórter da TV Globo está cada vez mais próxima do espectador, ao caminhar das tomadas aéreas para as ruas, tanto na capital quanto nas cidades do interior.

Após o enfoque na cidade de São Paulo e as informações do interior do estado, a apresentadora do boletim resgata o poder de voz e o entrega para uma jornalista em Brasília, em frente ao palácio do Planalto, que fala sobre as medidas que o Governo pretende tomar sobre os ataques. Nessa transferência do poder de voz, a apresentadora do boletim fala rapidamente e utiliza termos coloquiais, que aproximam o espectador da emissora nessa corrida por informações ao redor do país – “pra’ ao invés de “para”. A repórter de Brasília informa “ao vivo” que o presidente Lula vai se encontrar com outras autoridades para decidir o que fazer. Não há entrevistados ou cenas gravadas das autoridades. Sua presença em Brasília demonstra o esforço da TV Globo em mostrar-se presente tanto onde os fatos ocorrem como onde eles devem ser repercutidos e onde poderão ser tomadas decisões pelo Estado.

Ainda há uma inserção “ao vivo” de Mato Grosso do Sul, sobre uma rebelião de presos, com destaque no texto para um rebelado que foi decapitado. A apresentadora inicia a matéria com uma nota simples, passando para o jornalista de Campo Grande. Annemberg retorna para informar a situação de rebeliões em dois presídios do Paraná, dessa vez uma nota “pelada”, sem inserções “ao vivo” ou gravadas. As notícias apresentadas pelo boletim enfocavam a situação de descontrole das rebeliões nos presídios, em que a polícia estava ausente em alguns dos presídios, e re-iniciando as negociações com os presos. Houve destaques para situações dramáticas, que promovem a espetacularização do noticiário pela imposição de um conteúdo “pesado”, capaz de chocar, aumentando a atenção: a decapitação de um rebelado e um preso que pulou do telhado.

Toda a transmissão deste boletim fixo da TV Globo produz um sentido de urgência e de insegurança equivalentes aos boletins extraordinários do SPTV. As informações não são mais atualizadas, estão apenas sistematizadas e organizadas para serem transmitidas, dessa vez em rede nacional. Assim, podemos identificar o esforço da produção telejornalística da TV Globo em mostrar os resquícios mais recentes dos ataques na cidade de São Paulo, sua conseqüência mais direta em toda a população, no caso a ausência de transporte coletivo, bem como as possíveis repercussões no governo federal, de interesse para todo o país, a respeito dos ataques. Por fim, a transmissão levanta a questão da abrangência dos ataques, levando o espectador a acompanhar fatos relacionados no Mato Grosso do Sul e no Paraná.

Além da produção de sensações insegurança e urgência, há também um efeito de presença, baseado na empatia espacial, quando o espectador sente- se próximo do que está acontecendo devido à natureza instantânea da transmissão do fato. Uma sensação que é auxiliada pela quebra do cotidiano da programação televisual e outras estratégias, como planos aproximados de pessoas entrevistadas, escolha de locações, etc. À medida que essa transmissão se afasta ou se aproxima do momento da ocorrência dos fatos, configura tempos diferentes de transmissão direta.

Verificamos também que a seqüência de imagens criada pela produção jornalística da Rede Globo serve para construir um efeito de sentido de história a ser acompanhada, de narratividade. Ou seja, durante a transmissão das notícias, as imagens foram utilizadas para, junto ao texto dos repórteres e apresentadores, construírem uma linearidade explicativa dos fatos, em que passa despercebida aos olhos do espectador a intencionalidade dos produtores da notícia ao contarem essa história. Como vimos nos capítulos anteriores, um evento ocorrido pode gerar inúmeros caminhos, notícias e narrativas que são selecionadas pelos broadcasters para manter uma linearidade óbvia e verossímil. São os nexos de compreensão, referidos por Eco, cômodos para a vida cotidiana (ECO, 1993: 199), mas que impedem reflexões alternativas, ou até mesmo contrárias, às apresentadas na narrativa. O efeito de narratividade vem antes do

princípio de dramatização mencionado por Becker, pois o segundo (a dramatização) pressupõe um envolvimento emocional com o telespectador graças à apresentação da reportagem. Um outro princípio de enunciação de Becker, a ubiqüidade, está presente nas transmissões da TV Globo, principalmente ao apresentar informações ao vivo não somente da cidade atacada, mas do interior do estado, de outros estados e da capital brasileira. Isso porque a ubiqüidade seria a sensação de que a produção telejornalística está presente em todos os lugares, acompanhando todos os fatos relacionados ao acontecimento. Todo o conhecimento enquadrado na apresentação das notícias durante os boletins extraordinários do programa local SPTV foram aproveitados para a apresentação do boletim fixo Globo Notícia em rede nacional. Mesmo que não apresentassem atualizações dos fatos ou correções de dados apresentados prematuramente, colaboram entre si para a construção de efeitos de sentido de urgência, insegurança e ubiqüidade no espectador.