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grupos?

A partir de 1947-48 houve a participação política dos integran­ tes da FEB e do Grupo de Caça da FAB na Associação de Ex-Combatentes, onde havia marcante atuação dos comunis­ tas. Em 1950, as eleições do Clube Militar, altamente motiva­ das pela Guerra da Coréia e pela candidatura de Getúlio Vargas, foram campo fértil para a radicalização tanto da es­ querda) dita nacionalista, como dos conservadores e liberais, tachados de entreguistas. Curiosamente, não foram poucos aqueles que naquela ocasião se diziam nacionalistas e apoia­ vam as posições comunistas, que em 1964 se tornaram radical­ mente contra seus antigos aliados.

Em 1954-55, na Escola de Comando e Estado-Maior, surgiu um grupo com a esdrúxula denominação de Ação sem Chefia, a ASC, com estatutos e lista de participantes. Gente séria mas sem convicção. Eram instrutores e alunos da Escola, majores e tenentes-coronéis com carreiras promissoras, alimentados pelo ódio incendiário e inconseqüente de Carlos Lacerda. Fo­ ram antigetulistas, antijuscelinistas, antilottistas, antijan­ guistas, sem prejuízo para suas respectivas carreiras, salvo em uma ou outra transferência para fora do Rio, o que era consi­ derado como um exílio, para valorizar ° sacrifício. Em 1969 foi

criado na Brigada Pára-Quedista um grupo que se denominou Operação Centelha, tendo como líder o coronel Dickson Grael, e que chegou a editar um pequeno jornal. A origem teria sido um ato de insubordinação esboçado pelo coronel Dickson em

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uma das unidades da Brigada Pára-Quedista, recusando-se a desfilar com sua tropa no dia 7 de setembro, inconformado com as negociações da Junta Militar com os subversivos quanto à troca de 15 presos políticos pela libertação do embaixador Elbrick, dos Estados Unidos, que havia sido seqüestrado. Evi­ dentemente faltou neste caso autoridade e ação do comando, ou então houve conivência e omissão dos generais diretamente envolvidos no episódio. Junte-se a isso também a evidente pusilanimidade omissa dos três membros da Junta Militar.

Durante o governo Médici, quando o general Orlando Geisel estava no Ministério do Exército, em decorrência da subversão e das guerrilhas urbana e rural, a repressão atingiu seu grau mais elevado, e aqueles grupos encontraram um ambiente ideal para se expandir. A partir de 1974 passaram a questionar o processo de abertura e logo se voltaram para a oposição, procurando seus líderes mais influentes, como o deputado Ulysses Guimarães e depois o ex-ministro Severo Gomes, para tentar consolidar a candidatura do general Euler Bentes Mon­ teiro. A vaidade deste foi maior do que seu conhecido bom senso e não menor inteligência. O grupo militar que o apoiava chegou mesmo a elaborar um plano militar de operações para um movimento de vulto, absolutamente visionário e sem qualquer fundamento prático. O general Euler recolheu-se a tempo. O curioso é que alguns desses elementos atuantes estavam no SNI, inclus ive na Agência Central e junto ao próprio Figueire­ do. Outros acompanharam as pretensões de Frota. Em sua maioria, continuaram a ascender em suas carreiras como bons profissionais que eram. Atuaram contra a candidatura de Tan­ credo Neves, mas também não apoiaram as pretensões do general Medeiros ou do Andreazza, salvo um pequeno grupo. Suponho que estavam divididos e com dúvidas. Não havia, contudo, clima ou vontade, condições essenciais para um golpe, como ensinava o presidente Geisel a quantos o procuraram naquela época. Também dizia ele com sabedoria: "As Forças Armadas só saem às ruas quando a coisa é incontroversa."

Durante o governo Sarney e por ocasião da sucessão de 1989, a grande motivação desses grupos era novamente o

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anticomunismo e o perigo do Lula. Em 1990-91, com a aparen­ te extinção do SNI, houve um estado de expectativa, chegando­ se à total desmoralização do sucedãneo daquele órgão e, prin­ cipalmente, de seu titular, absolutamente desqualificado.

Em 1988 aflorou, aqui no Rio, o Grupo de Oficiais Inde­ pendentes 31 de Março, liderado pelo general Sebastião José Ramos de Castro, de destacado passado no SNI, congregando o general Ibiapina e o Grupo Estácio de Sá .. Já com Itamar, publicaram manifesto nos jornais) com os nomes de quase uma centena de adeptos, propondo o fechamento do Congresso e a demissão dos ministros do STF. Segundo constou, esse mani­ festo foi também remetido ao presidente da República. Os duros de sempre, corno Burnier, Torres de Melo, Coelho Netto e outros tantos, continuaram se organizando. Em Fortaleza surgiu o Grupo Guararapes dirigido pelo general Euclides Figueiredo. Em meio a tudo isso, o Clube Militar se porta como veículo de reivindicações de natureza administrativa e sala­ rial, assunto que deveria ser de exclusiva competência das autoridades militares. De forma abusiva a diretoria do Clube fala em nome de seu corpo social, quando na verdade foi eleita por percentual inexpressivo de votos que nunca são divulga­ dos. Divu lgam apenas os percentuais das diferenças entre os candidatos. Assim, é ela legal, mas não é representativa.

Mas o que realmente impressiona em todos esses grupos é o ranço da obsessão anticomunista e a não compreensão do processo de mudança no quadro internacional. Não entendem ou não querem entender e alimentam a perspectiva de alguma coisa parecida como a que houve recentemente no Peru , ] Apóiam-se no descrédito do Congresso e dos políticos, nos perigos da inflação, no custo de vida, na insegurança, na falta de autoridade do governo e na utópica isonomia salarial entre os três poderes. Mas não há isonomia nem dentro das Forças Armadas. N inguém mostra os contracheques.

1 . Refere-se à atuação do presidente peruano, Alberto Fujimori, eleito em 1989, e às medidas autocráticas tomadas logo após sua }Xlsse, entre elas o fechamento do Congresso.

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Em função de quê se fazem as aproximações que geram esses grupos? São ligações gercreionais ou ideológicas?

Elas vêm do fato de exercerem .atividades na mesma organiza­ ção militar, como colegas , subordinados oU chefes.

É

aquilo a que nós sempre nos referimos: "Servi com fulano em tal lugar." Daí nasce o conhecimento e uma relação mais estreita que é a camaradagem. Quanto à ideologia, já me referi ao fato de que nossa direita não a tem. Ela apenas é contra, como bem sinte­ tiza com propriedade o Etchegoyen quando diz: ''Nós Íamos consertar este país. Na marra. ( ... ) Durasse o que durasse. Quarenta anos, cinqüenta anos, cem anos."1 Esse é o pensa­ mento de um duro em sua expressão mais pura.

o que o senhor creha de afirmações como a do general Leonidas Pires de que no Brasil apenas 08 militares estão preparados para cumprir tarefas e missões?'

As Forças Armadas, como toda instituição, não são entidades etéreas, sem mácula, incorpóreas. São organismos vivos, atuantes, com órgãos e funções nobres, mas também com ex­ creções e dejetos que devem ser expelidos. E após enfermida­ des, de menor ou maior gravidade, restam possíveis seqüelas. Até o próprio cérebro pode sofrer trágicos desvios de conduta, tais como perversões e sadismo, comprometendo seriamente o organismo a que pertence. No caso de instituições, esses des­ vios deformam o saudável espírito de corpo, criando um corpo­ rativismo hipócrita, falacioso, pusilãnime, que pretende aco­ bertar, sob a falsa impressão de homogeneidade, as misérias de alguns. E isso é verdade tanto para as Forças Armadas como para as instituições políticas, jurídicas, e para todos os seg-

1. Depoimento de Ciro Etchegoyen em Visões do Golpe: a memona mili/",· sobre 1964 (Rio de Janeiro, Relume.Dumará, 1994), p. 185.

2. A

declaração do general Leonidas Pires Gonçalves a esse respeito está reproduzida em Os anos de chumbo: a memória militar sobre a

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