O vínculo entre tecnologia e dominação, acentuado em “One- Dimensional Man”, deve ser entendido num contexto histórico e político específico, ou seja, o da época da “Guerra Fria”, na qual as duas superpotências mundiais, os EUA e a URSS, lideravam os dois blocos antagônicos. É obvio que o processo tecnológico é historicamente anterior a esse período, que de fato é concebido pelo autor alemão “como a fase mais recente” de tal processo.
Nessa conjuntura histórica, a tecnologia sofre uma dupla determinação: por um lado, ela é um dos elementos vitais da competição entre os países e, de outro, é também requerida pela dinâmica interna da economia e da política nos Estados Unidos. Ou seja, o país se viu forçado a canalizar enormes energias produtivas e intelectuais para o desenvolvimento acelerado de novos equipamentos de produção destinados a produzirem toda uma gama de
produtos meticulosamente planejados, que portassem uma carga efetiva de significados políticos e que fossem também capazes de promover a sensação, para os seus consumidores, de que estes eram essenciais para a sobrevivência. Os produtos deveriam ser percebidos como algo que correspondessem de fato ao desejo dos consumidores e, sobretudo, deveriam promover a sensação generalizada de que a sociedade capaz de oferecê-los a seus cidadãos era incontestavelmente uma boa sociedade.Em outras palavras: o sentimento advindo de tal tipo de consumo deveria reforçar a identificação do individuo com a sociedade que oferece a ele tal gama de satisfações.Ao lograr reforçar essa identificação, o processo tecnológico não apenas gerava uma atmosfera ,na vida interna do país, de estabilidade política e de contenção da crítica e da oposição, como simultaneamente promovia uma forte coesão interna entre os cidadãos, que passavam a considerar como indesejável qualquer crítica ao país.Cada indivíduo, cada cidadão, saberia que a sociedade em que viviam deveria ser preservada e defendida, pois ela despontava a seus olhos como mais apetrechada do que qualquer outra, particularmente a do bloco soviético.
Esse aspecto suscitado pelo processo tecnológico possibilitou também o aparecimento de uma dimensão fortemente coercitiva na sociedade estadounidense. Esta disseminou em pouquíssimo tempo uma percepção baseada no pânico, fundamentada pelo terror de que o país pudesse estar permanentemente submetido a uma ameaça política oriunda do “inimigo externo”, que, obviamente, logo foi identificado como sendo o bloco soviético. Com isso, não só reforçou ainda mais a coesão interna, mas também a coerção, que passou a ser percebida como legítima, já que o inimigo externo deveria ser combatido radicalmente. O EUA foi, inclusive , nos momento iniciais da
Guerra Fria, capaz de criar uma espécie de “estado de exceção6” a fim de
combater o inimigo que, presumivelmente, ameaçava penetrar no país e se disseminar internamente. Esse período ficou conhecido como a “era do macarthismo7”, que atingiu seu auge em 1952.
A intensificação e a expansão do processo tecnológico nesse período é uma das características essenciais da “sociedade unidimensional.” Toda a variedade de produtos tecnológicos destinados ao ambiente doméstico, da máquina de lavar roupa à geladeira, do liquidificador ao aparelho de som, parece ter sido planejada nessa conjuntura histórica-política. Eles ajudaram sem dúvida a estabelecer um estilo de vida que logo se espalharia por todo o mundo capitalista, em menor ou maior grau. Isso não só ajudou consideravelmente a garantir a supremacia tecnológica dos Estados Unidos, mas também a consolidar sua hegemonia, que logo se tornaria global, porque a maior parte dos países capitalistas passou desde então a orientar seu próprio aparato produtivo segundo o modelo fornecido pelos EUA. Nesse sentido, pode-se afirmar que a hegemonia foi conquistada mediante a capacidade do país de orientar o processo tecnológico em todo o mundo capitalista, provocando, ao mesmo tempo, impacto na economia do bloco soviético.
6 As restrições começaram a surgir com a aplicação da Ordem de Lealdade de Truman de
1947:
“Ordem executiva, dada pelo presidente Truman, para investigar funcionários do ramo executivo federal com o propósito de expulsar os indivíduos cujas atividades ou associações fossem consideradas desleais para os EUA”. “A Lei de McCarran ( Lei da Segurança Interna de 1950) exigia o registro de organizações comunistas e da frente comunista e proibia a imigração para os EUA de quem já tivesse sido membro de alguma organização totalitária ( permitiam-se exceções nas emendas de 1951 )”. Syrret, H. Documentos históricos dos Estados Unidos da América, 1980, p. 321 e 324
7 Seguindo a política de restrições o “macartismo” teve início também no ano de 1950
quando o senador Joseph McCarthy ressuscitou o Comitê de atividades antiamericanas. De certo modo, o “Ato Patriota” proclamado por G. W. Bush logo após o 11/09/2001 também pode ser interpretado com o estabelecimento de um “estado de exceção”. Sobre essa questão consultar o livro Estado de Exceção de G. Agambem, de 2004.
Um bom exemplo da supremacia conquistada pelos EUA, que o qualificou mundialmente a fornecer as diretrizes do processo tecnológico, seria a produção planejada dos computadores pessoais, ou como se diz em alguns países, dos “ordenadores pessoais”, que rapidamente, a partir dos anos 1970 e 1980, se espalharam por todo o mundo e mudaram os hábitos e a cultura de populações de inúmeros países, além de introduzir profundas modificações no processo de trabalho em todos os recantos. Outro exemplo seria o fornecido pela produção de armas, setor em que os EUA há muito tempo lidera e não admite concorrência de espécie alguma. O vínculo entre tecnologia e armamentos é antigo e conhecido, não foi inventado pelos Estados Unidos da América. G. Arrighi mostra muito bem esse fenômeno no livro “Caos e Governabilidade”, como podemos ver nessa passagem:
“Durante aproximadamente 60 anos após 1788, as vantagens geopolíticas e as inovações organizacionais continuaram a ser os principais determinantes do equilíbrio de poder entre a s nações européias. De meados de 1840 em diante, contudo, a aplicação dos produtos e processos da Revolução industrial às atividades bélicas - “a industrialização da guerra”,nas palavras de Willlian McNeill (1982,capítulos sete e oito) - começou a transformar a capacidade industrial relativa no mais importante determinante isolado.
Essa mudança começou para valer no auge da hegemonia britânica,quando a marinha francesa adotou navios a vapor blindados, equipados com canhões de grosso calibre, que tornaram irremediavelmente obsoletos os navios de guerra construídos em madeira. À medida que a marinha francesa foi lançando encouraçados cada vez mais sofisticados, a partir de meados da década de 1840 até 1860, a marinha britânica não teve alternativa senão seguir o mesmo curso. “Cada inovação francesa provocava medidas contrárias imediatas
na Grã- Bretanha, acompanhadas por uma agitação popular a favor de um maior poder naval” (McNeill, 1982, p.225-7).
Quando outras nações entraram na corrida, a industrialização da guerra adquiriu um impulso próprio... ”(Arrighi, G. & Silver, B. Caos e governabilidade no moderno sistema mundial, 2001, p.78).