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7 International human rights law

7.1 United Nations

A sequência das classes por nós proposta é, também, particularmente evidenciada pela análise geoarqueológica do sítio da Canada do Inferno, especialmente da zona meridional atualmente submersa. De facto, o dispositivo parietal da zona mais cerca do rio da Canada do Inferno (locus 1) apresenta duas realidades distintas: uma zona montante, correspondente a uma ampla praia delimitada a leste por uma escarpa paralela às diáclases dos afloramentos xistosos (orientadas genericamente para oeste), e a norte pelas faces da xistosidade de uma bancada que se prolonga cerca de 40 m para oeste (cfr. Figs. 3.1, 5.55 e 5.56). As diáclases desta bancada correspondem à segunda zona da Canada do Inferno, aí se destacando o conjunto de faces historiadas em torno do “abrigo das cabras”.

Na zona montante, em frente da escarpa melhor definida encontramos outros afloramentos que afloram a cota mais baixa. As faces historiadas encontram-se quer nos sectores mais altos da referida escarpa — rochas 10, 11, 16, 17 e 18 —, quer nas diáclases dos afloramentos situados a cota mais baixa — rochas 19, 20 e 22 — (Fig. 3.1). A esta diferença de cota corresponde igualmente uma diferença ao nível das classes dos motivos presentes em cada um dos conjuntos de rochas. Assim, só nos painéis existentes a cotas mais altas encontramos motivos atribuídos à classe 1, enquanto que nas rochas localizadas a cotas mais baixas apenas se encontram motivos das classes 2 a 4. Existem mesmo rochas onde as gravuras mais antigas se encontram separadas das mais recentes por sectores completamente vazios, como é o caso da rocha 11, já atrás referida. A diferença de cota entre estes motivos é ainda amplificada pela posição dos painéis na escarpa, grande parte destes fora do alcance atual da mão humana, tendo este aspeto sido valorizado como resultado de uma escolha intencional por parte dos gravadores. A localização destes painéis nos sectores mais altos das rochas, deixando livres de qualquer gravura as zonas mais baixas dos painéis, foi aliás considerada como uma das caraterísticas da arte mais antiga do Côa (Baptista, 1999b, 34). Mas será mesmo assim?

Que dizer então da maior parte das rochas da Quinta da Barca, do Fariseu e mesmo da Canada do Inferno? De facto, a localização de gravuras em sectores atualmente inacessíveis é algo de excecional, sendo que na maior parte dos casos onde tal ocorre existe uma interpretação alternativa à que lê este aspeto como resultado de uma escolha por parte dos gravadores. Estas rochas excecionais são: 6, 9/15 e 11 da Penascosa, 17, 19 e 56 da Quinta da Barca, 13 da Ribeira de Piscos, 1 de

Vale de Figueira, e 1, 10, 11, 15, 16 e 17 da Canada do Inferno. São apenas catorze rochas, em sessenta e sete, ocorrendo quatro delas na zona montante da Canada do Inferno, zona sobre a qual voltaremos agora a centrar a nossa atenção.

Os quatro painéis deste sector que apresentam gravuras em zonas inacessíveis ou dificilmente acessíveis são os correspondentes às rochas 10, 11, 16 e 17. Chamamos a atenção para o facto de em duas destas rochas encontrarmos motivos atribuídos a classes mais recentes em sectores mais baixos do painel — rochas 10 e 11 (cfr. decalques respetivos nos anexos). Por outro lado, em frente das rochas 16 e 17 encontramos outras rochas a cotas mais baixas onde apenas se encontram motivos de classes mais recentes — rochas 19, 20 e 22. Também as gravuras da rocha 12 se localizam a cota mais baixa que as gravuras da classe 1 que se encontram mais perto (neste caso, da rocha 11), tal como verifica na figura 3.2.

Tendo em conta os diversos episódios de sedimentação e erosão identificados no Vale do Côa (v.g. Aubry et al., 2010a), pensamos ser altamente provável que a diferença de cota verificada na zona montante da Canada do Inferno entre a localização das gravuras da classe 1 e a das restantes classes reflita a ocorrência de um destes episódios — neste caso, erosivo — entre a gravação dos motivos mais antigos e a dos mais recentes. Ou seja, aquando da gravação dos motivos da classe 1, as rochas onde apenas se encontram motivos da classe 2 ou posteriores não se encontravam ainda expostos.

Se tivermos em conta este episódio erosivo, verificamos que na maior parte das rochas referidas acima que possuem motivos atualmente fora do alcance da mão humana, este facto poder-se-á explicar por este (ou outr) episódio erosivo. Desde logo, em duas delas — rocha 56 da Quinta da Barca e 1 de Vale de Figueira — encontramos mais uma vez motivos da classe 1 na zona superior das rochas e da classe 2 ou posteriores na zona inferior (cfr. Figs. 5. 20 e 5.54). Nas rochas 6 e 9/15 da Penascosa e na rocha 1 da Canada do Inferno não seria necessário um solo muito mais alto para que as gravuras deixassem de se localizar num sector particularmente elevado das rochas, pelo que julgamos que a existência de um solo antigo entretanto desaparecido é, dados os factos que temos vindo a apresentar, uma hipótese altamente parcimoniosa69.

                                                                                                                         

69 Em abono desta hipótese, remetemos o leitor para linhas à frente onde se discutirá a releitura das

datações de Dorn, proposta por T. Aubry, e a sua relevância para a identificação de períodos de sedimentação no vale.

As gravuras da rocha 11 da Penascosa encontram-se atualmente localizadas a uma altitude bastante mais considerável que as referidas no parágrafo anterior. Julgamos, no entanto, que mesmo neste caso, existem evidências de um processo erosivo do solo à sua frente, posterior à gravação dos seus motivos. Essas evidências podem ser encontradas na margem oposta, ou seja, na zona jusante da Quinta da Barca.

De facto, aí encontramos uma situação semelhante à da zona montante da Canada do Inferno. Ou seja, as gravuras mais antigas não se encontram abaixo de determinada cota, a partir da qual só encontramos gravuras mais recentes, designadamente da classe 3 de cervídeos (cfr. Fig. 5.25).

Restam-nos, portanto, apenas quatro rochas cuja existência de um solo antigo à sua frente, entretanto desaparecido, carece de evidências claras: 17 e 19 da Quinta da Barca, 13 da Ribeira de Piscos e 15 da Canada do Inferno, se bem que nos casos da 19 da Quinta da Barca e da 13 da Ribeira de Piscos não será de colocar de parte, a hipótese da existência, não de um solo, mas de blocos que permitissem o acesso às zonas onde se encontram as gravuras. Se na rocha 19 da Quinta da Barca, a dimensão e posicionamento no painel do cavalo aí gravado não sugere, de facto, nenhuma intenção de o tornar conspícuo na paisagem, as dimensões das gravuras ou de algumas das gravuras existentes nas restantes rochas sugere exatamente o oposto. Correspondendo essas gravuras na sua totalidade a auroques, devemos considerar neste caso a provável relação entre este tema específico e a sua ocorrência em localizações conspícuas.

Ora, a existência no Côa de pelo menos uma fase erosiva entre a gravação das unidades gráficas que compõem a nossa classe 1 e a das que compõem as restantes pode reforçar a hipótese dos dispositivos gráficos das rochas 4 e 5 da Penascosa serem algo mais recentes que os restantes classificados seguramente da classe 1. Não nos esqueçamos que as rochas 4 e 5 são as rochas do sítio que se encontram a cota mais baixa (cfr. Figs. 5.7 e 5.9). Contudo, o facto de também encontrarmos nestes espaços parietais unidades gráficas da classe 1 obriga-nos a uma grande precaução relativamente à possibilidade destes só se terem colocado a descoberto aquando da referida fase erosiva. Lembremos que todos os motivos classificados como classe 2 se encontram ainda na zona partilhada de elipses das classes 1 e 2. A cerva Pn05-29, classificada como 2 da sua espécie e sendo a figura localizada a mais baixa altitude na rocha, já nos parece claramente posterior à generalidade do dispositivo gráfico, pelo

que a possibilidade do espaço parietal onde esta se encontra ter sido colocado a descoberto apenas durante uma fase erosiva posterior à gravação dos motivos mais antigos, nos parece mais provável. Contemporâneas da cerva seriam as unidades gráficas incisas existentes no espaço parietal E da rocha 5.

Desta forma, podemos afirmar que também os dados da Geoarqueologia corroboram a nossa classificação. Mas mais que corroborarem a nossa classificação, eles podem ajudar-nos a datar as classes por nós identificadas. De facto, se as diferenças de cota observadas entre os espaços parietais com unidades gráficas atribuídas a classes diferentes pode refletir a existência de um ou mais episódios erosivos entre a gravação dos motivos pertencentes a cada classe, então é de elevada pertinência datar com rigor esses episódios, algo que começou já a ser feito no vale do Côa (Aubry et al., 2010a, 3315, fig. 5). A este assunto voltaremos no primeiro subponto do nosso próximo capítulo, dedicado exclusivamente à datação das classes identificadas.