4. Discussion and interpretation
4.2. Paleoenvironment reconstruction
4.2.1. Unit 2
As relações homoafetivas sempre foram consideradas desviantes, recebendo da sociedade representação de pecado, patologia ou comportamento perverso. A sociedade negou, e indiretamente, nega até hoje uma série de direitos a estes sujeitos, mantendo este grupo minoritário à margem de diversos espaços e possibilidades. Ainda que, clandestinamente, esses relacionamentos existam no cenário social, o distanciamento da homossexualidade das relações de parentesco e das possibilidades de constituição familiar aumenta ainda mais a rejeição. O debate acerca da sexualidade, promovido pelos movimentos sociais LGBT atribuiu caráter político a esta dimensão, colocando nas discussões públicas aquilo que, até então, era de cunho privado. Assim, as estruturas familiares e identidades sexuais historicamente segregadas passaram a receber visibilidade, provocando questões para a academia e para as políticas públicas. Esse impacto mostra que a atenção aumenta cada vez mais para as questões sexuais, apontando uma necessidade de se ampliar as discussões e reflexões em torno do assunto.
Observando os relatos aqui apresentados, percebi que alguns entrevistados acreditam que, o fato de terem filhos ou estar em união estável aproxima as outras pessoas e facilitam a aceitação e o respeito, deixando transparecer que essas pessoas desejam mais do que serem mães ou pais, eles realmente precisam dessas crianças para ser reconhecidos e se afirmarem como uma família. Porém, a maioria dos entrevistados não pensa em adoção imediata – embora cogite essa opção para o futuro – e já se considera família. De forma que essa esta questão descortina ideias do que estas pessoas têm da vida familiar no contexto em que vivem.
Uma questão levantada por uma entrevistada, que se opõe a opinião do senso comum, seria que filhos criados por pais ou mães homossexuais seriam beneficiados, pois tendem a crescerem menos intolerantes às diferenças. O contato com a diversidade de uma forma natural e contínua, não só ocasional, proporciona à criança lidar com essas questões com mais equilíbrio e bom senso. Para Garcia (2007), muitas das pesquisas utilizadas como instrumentos para defender juridicamente as famílias homoparentais se baseiam na utilização da orientação sexual “heterossexual” da criança como critério de adaptação positiva. Isso significa afirmar que as famílias homoparentais só seriam “normais” se as crianças nelas criadas não se tornassem mais facilmente homossexuais do que as criadas em famílias heterossexuais, o que mostra uma contradição evidente:
para afirmar o direito dos pais homossexuais, nega-se o direito do filho à orientação homossexual. (GARCIA, 2007:284).
Em algumas narrativas, notei que os entrevistados não percebem – ou não querem perceber o preconceito, o estigma, as contradições e tensões que existem ao seu entorno, tendendo a acreditar que tudo já está bem, resolvido e aceito, não existindo mais conflitos ou tensões sociais. Alguns entrevistados, em especial nos que se encontram em relacionamento estável, uma necessidade de descontruir os preconceitos que rondam a homossexualidade e em algumas falas uma busca pela idealização conjugal – sendo o amor romântico mais retratado nos relacionamentos lésbicos. Alan, o entrevistado que tinha menor grau de instrução, menor capital econômico e reside na zona rural da cidade, se mostrou o mais informado em relação aos direitos LGBT, debatendo de forma espontânea e sem reservas.
Outra preocupação visível seria a dos sujeitos conciliarem o universo marcado pelo individualismo e pela vida familiar, ansiando em buscar uma harmonia e equilíbrio entre estes dois pontos. As necessidades destas pessoas em se mostrar duplamente “responsáveis” parecem corresponder a uma estratégia de defesa frente a uma possível atribuição social de irresponsabilidade frente ao fato de serem simultaneamente mães e lésbicas, pais e gays. A necessidade de discrição frente à própria homossexualidade aparece como uma estratégia de evitar a discriminação e eventual culpa, algumas vezes deixando transparente o quanto os próprios entrevistados têm seus preconceitos enraizados, vez que criam uma escala “invisível” de normas de conduta, modelo familiar e comportamento “menos e mais aceitável”, reproduzindo assim velhos estigmas.
Em cidades como Ervália e tantas outras interioranas da região da zona da mata mineira, o comportamento discreto e com reservas é o mais valorizado, então como aprender a conviver se você não se encaixa padrões considerados ideais e tem uma prática sexual desviante da convencionalmente aceita? Os homossexuais, depois de séculos, continuam sendo alvo de preconceitos explícitos e implícitos de nossa sociedade contemporânea, porém confirmei com esta pesquisa que existem homossexuais e/ou casal que alcançam maior (in) visibilidade e respeito, dependendo da forma que se comporta, se veste, se apresenta e do nível social e econômico em que se encontra, podendo ser mais facilmente aceito e inserido na sociedade.
Pude notar ainda, nos sujeitos entrevistados, que havia um estranhamento maior, pelos próprios homossexuais, nos modelos corporais e comportamentais que mais destoam dos modelos mais regrados, valorizados pela sociedade ocidental, provavelmente este estranhamento se dê em razão do contexto, carregado de valores e crenças, em que foram criados e educados. Para a maioria, a postura “militante” muitas vezes aparece em oposição à postura “discreta”.
Acredito que a partir destas investigações surjam novos desdobramentos sobre contexto de cidade pequena e áreas rurais em contrastes com costumes advindos do urbano, abordando novas possibilidades analíticas sobre os novos rearranjos familiares, investigando não só do ponto de vista das minorias, mas também por parte da população civil, das autoridades e dos familiares. Espero que esta experiência aponte para outras questões que perpassaram minha pesquisa, mas que devido à tamanha extensão e complexidade não pude abordar.