Chapter 7: Stability analysis of Waterway System
7.2 Brittle failure analysis
7.2.3 Uniaxial compressive and Tensile strength approach
Rua São Tiago, número 216, Bairro Santa Efigênia. Esse parece ser um endereço como outro qualquer de uma cidade como Belo Horizonte. No entanto, ao chegarmos a esse endereço alguns aspectos já despertam nossa atenção e nos alertamos para as singularidades do local. Um muro grafitado nos avisa que ali se encontra a comunidade quilombola Manzo Ngunzo Kaiango e o projeto Kizomba, como demonstram as imagens a seguir.
FIGURA 2 – Fachada do território quilombola Manzo Ngunzo Kaiango (Fonte: Arquivo da autora - Dez/2011)
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FIGURA 3 – Fachada do território quilombola de Manzo Ngunzo Kaiango (Fonte: Arquivo da autora - Dez/2011)
Ao descermos a escada que dá acesso à comunidade, começamos a notar a dimensão religiosa e mais alguns degraus podemos adentrar o barracão do terreiro. É desta maneira, adentrando nesse quilombo, que podemos apreender que não se trata de um endereço qualquer, mas sim de um território constituído por aspectos étnico-religiosos. Um território quilombola que se estabelece através da manifestação religiosa do candomblé e, ainda, pelo trabalho desenvolvido pelo projeto Kizomba.
A comunidade Manzo Ngunzo Kaiango se originou a partir da aquisição de um terreno pela sacerdotisa do terreiro, que migrou, ainda criança, de Ouro Preto para Belo Horizonte. Ao final da década de 1960 o terreno, onde hoje está localizada a comunidade, foi adquirido e mais tarde, nos anos 1970, foram construídos a primeira casa e o barracão para a realização de rituais da umbanda. De acordo com a sacerdotisa, a escolha desse local foi definida por sua entidade na umbanda que lhe indicou onde ela deveria adquirir um terreno para se instalar junto com sua família e construir um terreiro para o desenvolvimento das práticas umbandistas. O depoimento a seguir relata o inicio do processo de constituição do território de Manzo44.
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Os depoimentos presentes neste trabalho não contêm os nomes que, eventualmente, foram citados nas falas. Deste modo, os mesmo foram substituídos por letras maiúsculas para somente situar o leitor de que se trata de uma situação na qual um outro estava envolvido. O mesmo ocorre em relação ao entrevistado, uma vez que este não é identificado pelo nome, mas somente por sua função ou vínculo estabelecido com o quilombo.
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Comprei um terreno no Paraíso, mas só que eu não sabia mexer com os documentos, com a papelada e um senhor pegou e foi mexer pra mim. Só que ele comprou no nome dele, aí o dono do terreno me chamou um dia e disse pra mim: precisa preocupar não, que esse terreno não é seu não e o dia que esse homem morrer os filhos dele te toma e deixa ocê com uma mão na frente e outra atrás. Eu falei: ah, mas a [M] não vai deixar, não. Mas ela também assinou, é os dois que são comprador do terreno. Aí eu vou te devolver o dinheiro, vou falar que eu disfiz o negócio, vou te devolver os dois mil conto e ocê compra noutro lugar. E eu rodei pra Jatobá, pra lá, pra cá, pra todo canto, num conseguia. Eu nunca pensava que eu ia comprar o terreno aqui no Santa Efigênia. Aí meu Preto Velho falou que pra mim consegui que era pra eu andar no buracão, que aqui era um buracão, que eu ia conseguir. Aí comprei! Eu não gostava daqui, porque eu gosto de lugar limpo, de ar, com ar, com sol, com vida, sabe? Vou comprar aqui mesmo. Aqui é onde eu achei pra comprar. Aí eu comprei aqui. Só a terra, só o terreno. Tinha um barranco aqui. Esse barranco era ali, oh. Nós fomos cortando, cortando, cortando. Agora para que vamos chegar na rua.(Ialorixá de Manzo – Nov/2011)
A fala da ialorixá revela a marcante presença da religiosidade no território de Manzo desde o início de sua constituição, uma vez que ele foi indicado por sua entidade umbandista. Mesmo se tratando de um local que a sacerdotisa não pensava em adquirir seu terreno, foi lá que ela estabeleceu seu terreiro e sua moradia, pois, foi seu Preto Velho que a levou para onde o território de Manzo foi estabelecido. A partir das transformações necessárias no terreno, a comunidade foi se consolidando e através de suas práticas culturais e religiosas foi constituindo um território de resistência na cidade de Belo Horizonte. Um território que também pode ser encarado como uma referência para as demais comunidades negras da capital mineira, na medida em que são estabelecidos em Manzo contradiscursos que revelam as contradições que permeiam a sociedade e a ressignificação das identidades negras. Entendo assim, que esse território se constitui através da dimensão religiosa da comunidade, uma vez que sua origem está atrelada às manifestações de matriz africana. Um território étnico-religioso que mais tarde se torna quilombo em meio às diversas dinâmicas socioespaciais da cidade de Belo Horizonte.
A ialorixá foi iniciada na umbanda ao descobrir sua mediunidade, e somente mais tarde, é que ela se insere no candomblé, como apontado no depoimento abaixo45. Foi, então, com a umbanda que a sacerdotisa de Manzo inicia sua relação com as religiões de matriz africana, sendo, somente mais trade, em decorrência de um problema de saúde que
45 Nesse capítulo serão abordadas as questões referentes ao candomblé, entre as quais sua origem no Brasil e,
mais especificamente, em Belo Horizonte, onde a umbanda chegou primeiro. Sendo assim, não apresentarei nessa seção aspectos referentes à inserção dessas religiões na capital mineira, que serão mais bem explicitados em outro subcapítulo.
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ela decide mudar para o candomblé. E quando o terreiro foi ali instalado, a mãe-de-santo ainda era vinculada à umbanda e sua casa ficou denominada de Senzala de Pai Benedito, em homenagem ao Preto Velho ao qual ela se relaciona na umbanda.
Aí um dia eu caí na rua, desmaiei na rua, aí minha mãe correu e me levou pro pronto-socorro. [...] Eu tava incorporada. Aí uma enfermeira [...] conheceu meu sintoma. Aí ela disse assim: leva essa menina pro centro. E tinha um terreiro. A gente morava na Vila Paraíso, num lugarzinho lá, num barracão de pau a pique. Aí morava lá e me levava pro centro. Aí me levou pra um terreiro de umbanda, chegou lá eu incorporei, aí incorporei tal. Aí comecei, aí que começou a minha vida, essa minha vida dentro do santo. Minha mãe não aceitava e eu também não aceitava! E eles falavam assim: não, mas eu não vou deixar os guias cobrando. Eu fui criada em colégio de freira, estudei em colégio de freira, minha terra não existia espiritismo. Existia catolicismo, muita reza, muita oração. Aí mãe com muito custo abriu mão, mas não aceitava, não aceitava. E eu comecei a benzer um, benzer outro e chegava um pra benzer, chegava outro pra benzer, chegava um pra benzer. Quando foi em 1966 ou 1968 eu tive um problema de saúde. Aí eu fiz o santo, raspei minha cabeça, fiz o santo. E a jornada começou aí. (Ialorixá de Manzo – Nov/2011).
Manzo se constituiu a partir de uma única família, que tem como matriarca a ialorixá do terreiro. O seu desenvolvimento se deu em decorrência do aumento da família, mas devido à pequena área em que se encontra, a comunidade teve reduzido o número de seus moradores ao longo dos anos. Deste modo, residem atualmente em Manzo cerca de sete famílias, somando aproximadamente trinta e sete residentes, entre crianças e adultos. Não são todos/as moradores/as membros do terreiro, mas o contato com a religião é inevitável, pois, o barracão está no centro da comunidade e em outros pontos — como na escada, por exemplo — também se encontram elementos religiosos. Não ocorre, contudo, a imposição de um contato com as práticas religiosas aos não candomblecistas, que frequentam as festas, circulam pelo barracão e relacionam-se, ainda, com os/as filhos/as- de-santo, que não moram em Manzo. Aponto, no entanto, que a presença de não praticantes do candomblé na comunidade não desqualifica a centralidade da dimensão religiosa desse quilombo. O candomblé está presente no cotidiano dos/as residentes de Manzo, não somente pela sua materialidade, mas também por sua representação simbólica. Quando a comunidade se instalou em Santa Efigênia, as condições do bairro eram distintas do contexto atual e as práticas discriminatórias eram recorrentes no cotidiano de Manzo. Nos momentos de toque eram comuns as interrupções nos rituais em decorrência da presença da polícia, que ao visibilizar esses grupos somente os desqualificam e os deslegitimam. Esse processo não foi diferente com Manzo. Apesar da discriminação, o
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terreiro permaneceu e se desenvolveu, chegando a se tornar um território quilombola urbano. A intolerância religiosa, no entanto, não desapareceu, pois, as religiões de matriz africana ainda são consideradas pela sociedade brasileira como “inferiores”. A discriminação étnico-religiosa não desapareceu, mas se reconfigurou e, muitas vezes, não é explicitada, mas se faz presente de diversas maneiras no cotidiano de comunidades religiosas. Desqualificar ou deslegitimar as manifestações de matriz africana, como o candomblé, constitui uma prática discriminatória que se mantém, mas pouco se revela. As concepções depreciativas acerca destas religiões ainda se fazem presentes na sociedade, que ao ser indagada sobre o que é o candomblé atribui a essa manifestação o caráter de demoníaca, desqualificando-a. Além de não considerá-la como uma prática religiosa, deslegitimando-a.
Há até mesmo um certo receio, por parte da sociedade envolvente, em se manifestar sobre o candomblé. Assim, quando em campo utilizei questionários, para apreender a relação entre Manzo e o seu entorno, observei que muitas pessoas não queriam ser indagadas sobre a religião. Algumas se esquivavam para não manifestar concepções depreciativas acerca do candomblé. Entretanto, em muitas situações, ficou evidente como são concebidas as manifestações candomblecistas pela sociedade, revelando que a intolerância religiosa ainda é marcante. Apesar de me deparar com uma discriminação evidente, aponto que as práticas discriminatórias, muitas vezes, são manifestadas de maneira sutil e, por isso, não são evidenciadas. As diversas estratégias, como o discurso da democracia racial, para apagar a ideia de que estas práticas estão presentes na sociedade, as tornam sutis e em muitos momentos imperceptíveis. Porém as tentativas de dissimular as discriminações não correspondem a mecanismos que valorizam a diferença, mas sim, meios que tornam invisíveis os candomblecistas, através de discursos que tentam encaixar os sujeitos nos padrões branco e ocidental.
É por contrapor esses padrões que considero Manzo como um território de resistência. As manifestações religiosas conjugadas com as atividades desenvolvidas pelo projeto Kizomba revelam as diferenças desta comunidade, estabelecendo, assim, identidades negras bem demarcadas. Identidades que se constituem através do contato com o outro, ou seja, com a sociedade envolvente. Mas que também se estabelecem a partir do encontro com seus pares. Manzo possui uma série de parcerias que contribuem para o reforço e a consolidação das identidades dos/as moradores/as do quilombo. A imagem a seguir retrata algumas dessas parcerias que convergem com as práticas de Manzo. Ressalto
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que o diagrama em questão foi realizado em um determinado contexto, revelando as relações estabelecidas em um momento específico e não se trata, deste modo, de algo imutável. Se fosse construído em outros contextos os resultados poderiam ser distintos, de forma a retratar as dinâmicas e as transformações vivenciadas pela comunidade.
FIGURA 4 - Diagrama de Venn
O diagrama pode ser dividido em dois grupos, sendo um de caráter governamental e outro não governamental. Cada círculo possui um tamanho diferente e revela a dimensão de cada grupo e o que ele representa para Manzo. A distância entre o círculo que indica o quilombo e os demais retrata a intensidade da relação. Deste modo, o grupo não governamental está indicado pelo Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro- brasileira (CENARAB), Companhia Baobá de Dança, Associação de Capoeira Lausanne (ACL), Movimento Nacional da Nação Bantu (MONABANTU), Educafro. Esses grupos possuem uma relação mais intensa com Manzo e as ações por eles desenvolvidas possuem forte caráter étnico-racial, constituindo, portanto, parceiros que contribuem para a constituição das identidades negras e também com as mobilizações políticas do quilombo.
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É com a contribuição desses grupos que a comunidade tenta acessar determinadas políticas públicas e, até mesmo, chegar ao poder público.
Nesse grupo ainda estão presentes os estudantes universitários, que abordam questões variadas junto ao quilombo, mas que, muitas vezes, não estão diretamente vinculados a organizações como as supracitadas. A comunidade considera os estudantes como um grupo que tem contribuído assessorando-a sobre demandas diversas através de informações sobre potenciais parcerias e mecanismos para se ter acesso ao poder público. Por funcionar como uma assessoria para algumas demandas de Manzo, esse grupo está localizado no diagrama próximo à comunidade, pois, há uma relação direta e intensa entre o quilombo e os estudantes. Ressalto, contudo, que estas relações muitas vezes não se configuram em vínculos permanentes como aqueles estabelecidos com as demais organizações, embora tenham um relevante papel para a comunidade46.
Quanto ao CENARAB, trata-se de uma organização que tem o objetivo combater a intolerância religiosa e promover a ampliação do conhecimento acerca das religiões de matriz africana, sendo um importante parceiro para os terreiros de Belo Horizonte. Para Manzo, esse órgão constitui um intermediário entre a comunidade e o poder público, sendo através dele que o quilombo tem a possibilidade de acessar determinadas políticas públicas. Já a Cia Baobá de Dança trata-se de um grupo criado na década de 1990 com o interesse de retratar através da dança as práticas culturais dos povos negros. A parceria com Manzo se dá a partir de atividades desenvolvidas junto ao Kizomba, tais como oficinas de dança e também contribui com as mobilizações política da comunidade. A origem dessa parceria e sua consolidação estão relatadas no depoimento abaixo.
E aí junto com esse trabalho da Baobá tem trabalho mesmo que é a questão, é na área educativa mesmo que vamos dizer assim é [...] com o terreiro Manzo Ngunzo Kaiango, né a gente tem uma experiência bacana que assim: primeiro que a [ialorixá de Manzo] me pegou assim, falar que ela me pegou porque eu estava fazendo uma apresentação na câmara municipal, não sei, não sei talvez precisar a data, não sei, uns sete anos atrás. Mas aí ela me viu apresentando lá e aí ela falou assim, foi o que ela me falou, né: que ela sentiu uma força muito grande ni mim e tudo e ela falou que viu a mãe dela ni mim, entendeu?! Aí foi assim que depois, na
46 A relação entre a comunidade e os estudantes é bastante variável e se estabelece por motivações diversas.
Muitas vezes ela tem a duração de um período de pesquisa, mas também pode se consolidar e se tornar mais duradoura. Esse é o caso do Núcleo de Estudos sobre Populações Quilombolas (NUQ/UFMG), que constitui um grupo composto por estudantes e professores da UFMG, que ao desenvolver uma pesquisa com Manzo se tornou uma importante parceria. Esta parceria foi essencial no momento em que os/as moradores/as foram retirados/as do quilombo, uma vez que contribuíram apoiando a comunidade nas discussões para se encontrar uma solução para a situação. Através dos estudantes foi estruturada uma comissão com o objetivo de ajudar Manzo em várias questões envolvidas em seu deslocamento para o abrigo.
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época eu participava com o grupo Fala Tambor que eles devem ter falado também, né que eu era dançarina e do grupo lá Fala Tambor, então, aí o [C.O] falou assim: [a ialorixá de Manzo] quer te conhecer, ela quer te conhecer de qualquer jeito e aí quando eu conheci ela falou, não, eu vi minha mãe em você e tudo e aí começou a parceria. Eu gostei muito dela, né. E aí depois eu fui dá aula lá pras crianças, né no projeto lá, no projeto Kizomba, né, então eu fiquei lá mais de sei lá uns três anos dando aula lá de dança afro-brasileira, né?! E aí fora isso, a gente vem fazendo várias parcerias. Ano passado, por exemplo, o projeto Kizomba foi lá no Palácio [das Artes] no primeiro Prêmio Zumbi de Cultura e o projeto Kizomba levou a capoeira, levou o samba de roda, né?! É, fora isso, no ano de 2009, por exemplo, que foi a primeira comemoração da consciência negra realizada pela Companhia Baobá no palácio, aí disso resultou um documentário que chama “Ocupação cultural e identidade” em parceria com A & C, que é Associação de Imagem Comunitária aqui de Belo Horizonte e aí eu tô falando assim, porque aí é como projeto Manzo Ngunzo vem na parceria. Aí resultou num vídeo, aí nesse vídeo a gente colocou lá o projeto, o nome do projeto, parceiros, né?! Esse vídeo foi exibido na TV Minas e aí ano passado eles participaram, né?! Esse ano já foi outros grupos e é isso assim, né. A [sacerdotisa de Manzo] participou de mesa também, mesa de debate e assim vai. (Coordenadora da Companhia Baobá - Dez/2011).
Já a ACL é uma organização de capoeira localizada na Suíça, onde reside o mestre do coordenador do Kizomba. A associação é um dos principais parceiros do quilombo, uma vez que a capoeira tem se constituído na principal atividade do projeto. Já o MonaBantu é um movimento político, cultural e religioso que desenvolve discussões e ações em torno de questões relacionadas à discriminação étnico-racial, de gênero e religiosa. Trata-se de uma parceria recente que tem o objetivo de fortalecer e complementar as ações do quilombo assim como as demais organizações. A Educafro é um órgão que desenvolve trabalhos no âmbito da educação, buscando o acesso ao ensino superior para negros e negras. É uma parceria ainda incipiente, que se estabeleceu por meio do MonaBantu. Porém, tende a se tornar um importante parceiro, contribuindo para que os jovens do quilombo possam, no futuro, ter acesso à universidade.
Esses grupos localizados mais próximos a Manzo no diagrama configuram em relevantes parcerias para a comunidade, na medida em que contribuem com suas ações socioeducativas, culturais, com o combate à intolerância religiosa e a discriminação étnico- racial. As relações estabelecidas entre as organizações e o quilombo são, portanto, essenciais para o seu desenvolvimento e a ampliação de seus trabalhos. Entendo que a construção desse diagrama revela as necessidades de Manzo em ser ouvida e visibilizada, principalmente pelo poder público, o que configura para a comunidade a possibilidade de garantir seus direitos e sua cidadania. Por isso, esse grupo, composto de órgãos não
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governamentais, aparece no diagrama mais próximo ao quilombo, estabelecendo uma ponte entre Manzo e as instituições governamentais.
Entre os grupos de caráter governamental presentes no diagrama estão a Regional Leste (unidade administrativa da Prefeitura de Belo Horizonte – PBH), a Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial (CPIR - PBH) e a Fundação Cultural Palmares (FCP). Esses grupos encontram-se mais afastados da comunidade, pois, muitas vezes, eles não são acessados diretamente por Manzo. Além de não estabelecerem com o quilombo vínculos mais estreitos, podendo somente estabelecer contatos pontuais em situações específicas, como será apresentado posteriormente. A presença da FCP no diagrama decorre do entendimento da comunidade de que através desse órgão é possível se reivindicar os direitos políticos destinados aos quilombolas, já que foi essa instituição que concedeu a certificação de quilombo ao grupo. As demandas da comunidade, enquanto quilombo, não podem ser atendidas no nível municipal, uma vez que nessa instância não existem políticas específicas para os quilombolas. Por isso, a necessidade de se recorrer à instância federal para usufruir de políticas destinadas aos territórios quilombolas. O diagrama revela, portanto, como a comunidade busca se mobilizar para ter suas demandas atendidas. Estabelece uma rede de relações que agrega grupos distintos, mas que convergem em uma direção única que é contribuir para o desenvolvimento de Manzo. As parcerias, sejam com grupos governamentais ou não, constituem apoios para que esse território possa se reproduzir e se desenvolver enquanto uma comunidade étnico-religiosa singular.
Aponto que a manifestação do candomblé, conjugada com o projeto Kizomba, e as parcerias estabelecidas entre Manzo e diversos grupos de caráter étnico-racial tornaram essa comunidade num território de resistência. Resistência contra os padrões homogeneizantes e dominantes da sociedade brasileira, que tendem a invisibilizar e até mesmo negar as diferenças étnico-religiosas. Foram estes aspectos e a busca pela manutenção de suas práticas identitárias que permitiram à comunidade ser reconhecida como quilombo pela FCP. Com o apoio de uma de suas parcerias, o CENARAB, Manzo foi certificada como território quilombola em 2007.
O CENARAB participou do processo de autorreconhecimento quilombola de Manzo, contribuindo com o encaminhamento da solicitação de certificação à FCP, que mediante análises documentais avaliou ser pertinente certificar a comunidade como