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4. EMPIRI OG ANALYSE

4.1 Undervisningsopplegg

No décimo capítulo do Book of Werewolves, Sabine Baring-Gould trata da ideia da metempsicose, muito presente na mitologia indiana, na qual uma alma poderia trocar de corpo, assim como uma pessoa troca de roupa.

Ele inicia o capítulo afirmando que tal ideia também é comum em várias outras culturas. Na Saga Finnbog, uma saga mítica islandesa, o guerreiro de nome Finnbog encontra seu inimigo, Brain, encarnado no corpo de um urso. Em outra narrativa citada pelo autor, da mitologia dos índios Osage, da América do Norte, um guerreiro desta tribo não só visita uma família de castores que possuem alma humana como também se casa com a filha deles.

Os xamãs finlandeses e lapões também acreditavam, segundo o autor, na metempsicose; consideravam possível a um ser humano abandonar o corpo e investir seu espírito no corpo de um animal selvagem.

Na Índia, Baring-Gould aponta que os budistas e os hinduístas acreditam ser possível que uma pessoa re-encarne sob a forma animal e que o indivíduo na verdade é apenas sua alma, sendo o

corpo físico apenas uma “veste”, com a qual a alma pode afetar o mundo físico.

Com o auxílio de magia, os indianos acreditavam ser possível deixar seu corpo humano para trás e possuir o corpo de um animal, assim como os xamãs do norte da Europa. O autor destaca um exemplo do Pantschatantra, uma saga indiana. Nela, o rei encontra um necromante que o ensina a enviar sua alma para o corpo de animais ou de cadáveres. Ansioso por testar os ensinamentos do mago, o rei ruma para a floresta, na companhia de um malabarista corcunda que animava sua corte. Na floresta, ambos encontram o cadáver de um brâmane.

O rei migra sua alma para o defunto, mas, para sua infelicidade, o bobo-da-corte também conhecia as magias para mudar de corpo e envia sua alma para o corpo inerte do rei.

O corcunda passa então a viver uma vida de luxo no palácio real, até que o rei, no corpo do brâmane, regressa em segredo à corte e conta à rainha o que aconteceu. Juntos armam um plano contra o rei, persuadindo-o a demonstrar suas habilidades de mudar de corpo, ingressando no corpo de uma ave. Quando o falso rei faz isso, o verdadeiro espírito do rei recupera seu corpo e torce o pescoço da ave, possuída pela alma do traidor.

A metempsicose, segundo Baring-Gould, pode ser considerada uma forma de licantropia, pois, embora não haja uma transformação física ou mental do humano, este acaba tendo sua mente funcionando no corpo de outro animal.

O autor (BARING-GOULD, 2003, p.109) apresenta uma opinião à respeito da natureza mágico-religiosa da licantropia:

Entre as inúmeras superstições existentes relacionadas à transformação, três formas parecem ter sido afetadas preeminentemente: o cisne, o lobo e a serpente. Em muitas dessas histórias de transformação é evidente que o indivíduo que muda de forma é visto com reverências supersticiosas, como sendo de uma ordem superior – de natureza divina. Em países cristãos, tudo relacionado à mitologia pagã era visto sob suspeita pelo clero, e quaisquer poderes miraculosos não sancionados pela Igreja eram atribuídos ao diabo. Os deuses pagãos se tornaram demônios e as maravilhas relacionadas a eles eram supostamente efetuadas por meio da ajuda diabólica. Um caso de transformação, que demonstrava o poder de um deus antigo, em tempos cristãos, era considerado um exemplo de bruxaria. Sendo assim as histórias de transformação tornaram-se malvistas, e aqueles que mudavam de forma não mais eram tidos como seres celestiais, mas como bruxas miseráveis que mereciam morrer.

Baring-Gould explica as formas referidas. A forma de lobo, bastante comum na região da França, Grécia e nos países germânicos, se daria pela relação entre os camponeses e estes animais, vistos como ameaça. A forma de cisne teria origem nas sagas nórdicas, com as valquírias, e nos vedas98 indianos, com as apsaras, figuras mitológicas de mulheres capazes de se transformar em cisnes. Já a forma de serpente, ou dragão, teria origem em fenômenos atmosféricos, como tempestades, tufões e raios.

O autor afirma que fenômenos “turbulentos”, como furacões e tempestades elétricas

teriam sido interpretados na pré-história como sendo serpentes ou dragões e que nuvens brancas e fugazes teriam sido interpretadas como damas celestiais transformadas em cisnes.

Embora aponte alguns exemplos99, Baring-Gould comete uma série de anacronismos, relacionando a mitologia grega com supostas crenças pré-históricas, superstições germânicas e cultura indiana e posteriormente reduzindo todas estas crenças diferentes a interpretações errôneas de fenômenos atmosféricos.

Embora sua ideia de serpentes, dragões e cisnes como nuvens e tempestades seja

98

Vedas, conjunto de textos sagrados do hinduísmo que narram as sagas dos principais deuses do panteão hindu. 99

Baring-Gould, assim como Summers, atribui valor à origem das palavras em diversas línguas diferentes e afirma como sendo evidência de sua teoria a origem das palavras em alemão e sânscrito para raio ou tempestade. Embora não apresente maiores detalhes sobre tais palavras ele garante que ambas tem uma raiz comum com as palavras, nas respectivas línguas, para dragão ou serpente.

extremamente falha e a certo ponto, até mesmo contraditória100, o autor aponta, nesta parte de sua

obra, o mesmo processo citado por Nogueira (2000), do uso, por parte da Igreja, da “Pedagogia do Medo”, para desqualificar a cultura e a religião pagã europeia. Nogueira (2000, p.34) menciona

que:

Perseguido e proscrito nas cidades, o paganismo refugia-se no campo, onde mantinham-se vivas as antigas superstições. Dessa situação resulta o termo a partir daí utilizado para designar os adoradores dos deuses: 'pagani', derivado de sua localização rural.

Portanto, os pagãos, ou seja, os povos que mantinham sua cultura a despeito da imposição cultural cristã, teriam estabelecido uma resistência passiva, nas zonas rurais, adaptando a seu arcabouço simbólico as figuras da cultura dominante que lhe parecessem úteis, descartando as que não lhe correspondiam, em um processo de sincretismo que, como afirma Baring-Gould, acabou em uma demonização da licantropia e do licantropo.

Capítulos 11, 12 e 13: O Marechal de Retz

Estes três capítulos tratam de um personagem histórico do qual Baring-Gould teve ampla referência, tendo consultado o processo que o levou à pena de morte na França medieval; abarcando o processo contra Gilles de Laval, o Marechal de Retz, sendo o capítulo 11 sobre a investigação das acusações contra ele, o capítulo 12 sobre seu julgamento e o capítulo 13 sobre sua sentença e execução.

O autor afirma ter pesquisado a versão de M. Michelet sobre o processo, tendo sido esta uma tradução inglesa dos originais em latim, produzidos a mando da Duquesa Ana da Bretanha e perdidos durante a Revolução Francesa.

Gilles de Laval, senhor da região de Retz, filho de Gay de Laval, teve uma brilhante carreira militar ao lado do rei francês Carlos VII. Além de participar de diversas batalhas, obter inúmeras vitórias e combater ao lado de famosos guerreiros como Richemont, Gaucourt e Joanna

D‟Arc, o Marechal de Retz também foi nomeado conselheiro real da França.

Além da carreira militar de sucesso, Gilles de Laval também vivia uma vida opulenta de

100

Sabine Baring-Gould insiste que a origem da crença em dragões e licantropos capazes de se transformar em cisnes

e serpentes está na interpretação, por parte dos “povos antigos” (nos quais ele inclui desde os indianos de sua época

até os gregos da Grécia Clássica), das nuvens brancas (que seriam os cisnes) e das tempestades, com raios e trovões. O principal problema desta afirmação reside na falta de exemplos e no fato de que os licantropos homens-serpente não são representados como seres capazes de voar, portanto associá-los a nuvens e raios se torna um paradoxo. Como era comum em sua época, Baring-Gould também ignora as diferenças culturais das civilizações que analisa, assim como também seu contexto histórico-social. Embora as apsaras indianas e as valquírias nórdicas fossem representadas como mulheres belas capazes de se transformar em cisnes, é discutível se haveria relação entre ambas e mesmo o símbolo da mulher-cisne não é interpretado e imbuído dos mesmos significados para os indianos e os escandinavos, sendo que ambas as civilizações estão inseridas em contextos simbólicos completamente diferentes uns dos outros.

riquezas e luxo. Seu pai, senhor de Retz, lhe deixou um riquíssimo feudo como herança. Seu casamento com Catharine de Thouars o tornou ainda mais rico e a morte de seu avô materno, em 1432, lhe deixou uma herança tão suntuosa que ele decidiu se aposentar do exército ao recebê-la. O autor pontua que Gilles de Laval era, sem dúvida, um dos homens mais ricos da França e possivelmente de toda a Europa.

No entanto, parte de sua fortuna começou a ser dilapidada de maneira suspeita. Terras, castelos e feudos foram doados ao Duque da Bretanha, seu parente, e ao Bispo de Nantes; segundo rumores, como concessões para que ele não fosse excomungado ou tivesse seus bens tomados, devido a segredos sombrios sobre sua pessoa.

Assim como aconteceu com a Condessa Báthory, os castelos de Gilles de Laval e as regiões vizinhas a eles começaram a apresentar sinais de motim. Os camponeses acusavam o marechal de seqüestrar centenas de crianças.

Diante destas acusações, o Duque da Bretanha, senhor da região da França na qual se localizava Retz, foi obrigado pela pressão dos populares a abrir um processo contra seu parente. Inicialmente, segundo o autor, o Duque pretendia perpetrar uma farsa, inocentando Gilles de Laval e limpando seu nome diante da população. No entanto, o senhor de Retz não só se rendeu e aceitou o julgamento como confessou seus crimes.

O marechal havia, durante sete anos, raptado e assassinado mais de mil crianças, segundo Baring-Gould, por puro deleite. As crianças seqüestradas, normalmente do sexo masculino, eram torturadas e mortas em câmaras secretas nos castelos de Gilles de Laval, e este gostava de se banhar no sangue delas e depois queimá-las nas lareiras do castelo, respirando os vapores dos corpos carbonizados.

Segundo a confissão do marechal, em seus castelos haviam câmaras e salas lotadas de corpos e de partes mutiladas de crianças, algumas em estado avançado de decomposição, e que os criados que encontravam estes cadáveres eram assassinados para não espalharem a notícia. Além destes crimes, Gilles de Laval também confessou ter participado de cerimônias satânicas, sabbats e invocações ao diabo, o que o levou a ser julgado, paralelamente, pelo Tribunal da Santa Inquisição.

Os dois tribunais, um deles laico, presidido pelo Duque da Bretanha, o outro religioso, presidido pelo Santo Ofício, condenaram Gilles de Laval à morte por seus crimes. O réu não se opôs e foi conduzido, junto com os servos que o auxiliavam nos assassinatos, ao cadafalso. O tribunal laico o condenou à forca e o tribunal inquisitorial à fogueira; para tanto, foi erguido um monte de palha e lenha sob a forca, para que o Marechal de Retz fosse queimado ao mesmo tempo em que morresse enforcado.

Embora os autos do processo, apresentados por Baring-Gould, sejam detalhados, há poucas menções aos crimes de Gilles de Laval. A maior parte destes três capítulos se concentra em

descrever os pormenores do julgamento, datas e locais dos raptos das vítimas e regiões onde se localizavam as propriedades do Marechal de Retz.

Na história desta personagem, são encontradas quase as mesmas características da história da Condessa Báthory. Um nobre começa a matar jovens em seus domínios; embora seja poderoso, seus atos logo chamam a atenção de um poder político superior ao seu; o nobre acaba julgado e condenado, tendo a população contra ele, pressionando seus superiores políticos. A questão do sangue reaparece nas narrativas do Marechal de Retz. Assim como a Condessa Báthory, Gilles de Laval também se banhava no sangue de suas vítimas. Não há informações em Sabine Baring-Gould que indiquem que ele bebia sangue, mas o ato de respirar as cinzas destes cadáveres também pressupõe uma assimilação, por parte dele, de algo das suas vítimas.

Ao contrário da condessa, o marechal, ao ser aprisionado pelo Duque da Bretanha, agiu

exatamente como os “criminosos perversos” descritos por Marie-Laure Susini, em seu tratado de

psiquiatria forense O Autor de Crime Perverso (2006). Segundo a autora, os chamados criminosos perversos apresentam um importante componente narcísico. Eles cometem seus assassinatos e crimes como um diretor prepara uma peça teatral, com o objetivo de mostrá-los ao público e ser reconhecido como o autor daquela obra. Antes de ter sua “obra” terminada, o assassino perverso esconde seus rastros o máximo que pode; no entanto, quando se considera satisfeito com o que fez,

se deixa prender e usa o tribunal como um teatro, no qual apresenta à sua “plateia” o que construiu e

depois não se importa com a pena que recebe, não apresentando nenhum tipo de defesa no seu julgamento.