Outro aspecto significativo em nossa análise em relação ao trabalho com textos desenvolvido em sala de aula está diretamente ligado ao tempo destinado a esse tipo de trabalho, ou seja, subjacente ao ato de ler em sala de aula há a questão do tempo disponível para essa atividade.
De acordo com Silva (1998), às condições concretas do ato de ler alia-se o tempo disponível para a leitura, privilegiando-se o consumo rápido dos textos. Segundo o autor, “não sobra tempo para a discussão das idéias, para a exposição das interpretações individuais e para a partilha das experiências geradas pela incursão nos textos” (idem, p. 7).
Na realidade, percebemos diversas vezes que a opção por se trabalhar com o livro didático advinha, também, do fato de se necessitar cumprir um determinado conteúdo da disciplina e, estando esse conteúdo disponível no livro, fazia-se necessário utilizá-lo por ser uma forma rápida de se chegar aos objetivos propostos, ou seja, cumprir o conteúdo bimestral.
Muitos foram os motivos que contribuíram para que o tempo destinado ao trabalho de sala de aula ficasse comprometido durante o período em que estivemos observando as aulas, entre eles as reduções de aula devido aos jogos da Copa do Mundo e as manifestações estudantis17 a favor da permanência das duas modalidades de Artes existentes na escola – Artes Cênicas e Visuais –.
Em entrevista, o professor Lucas afirmou ser este um problema:
Professor Lucas: já (.) isso tava até no planejamento (.) mas esse semestre (.) ou esse ano tem sido bastante acumulado com uma série de (.) de (.) de eventos que tem rompido com a programação (.) por exemplo (.) eu tinha pra esse bimestre dois outros (.) três capítulos (.) que seriam mais dois conteúdos a serem trabalhados (.) eu já deixei para o semestre que vem (.) dada a quantidade de interrupções que nós tivemos no 1º bimestre (.) isso já foi complicado em função das paralisações que nós tivemos na escola pela mobilização em torno da (.) da questão de artes (.) né é:: e aí nós já seguramos algumas coisas depois veio copa do mundo isso foi tirando algumas (.) alguns dias de aula que foram usados em outros tipos de atividades (.) também importantes (.) mas que em termos de conteúdo (.) não pode ser trabalhado [...] esse ano é que não foi possível ainda por conta dessa (.) dessa confusão toda de paralisações (.) interrupções (.) e por aí vai.
Nas aulas de Filosofia, observamos alguns momentos em que ficou nítido o comprometimento das atividades em relação ao pouco tempo disponível para realizá-las.
Aula de Filosofia – professor Pedro – observação nº 11, em 20/6/06
Professor Pedro: gente (.) o bimestre está comprometido (.) houve alguns problemas nas terças-feiras e ainda tem a gincana e a festa junina (.) não é o ideal ir ao texto “pescar” as respostas (.) mas será necessário porque a prova está chegando e precisamos fechar alguns conteúdos.
Aula de Filosofia – Professor Pedro – observação nº 20, em 11/11/06 Professor Pedro: o problema é que não temos mais tempo (.) o ano acaba.
Verificamos que o trabalho de leitura dos textos deixou de ser realizado em várias aulas porque o tempo destinado a ele era utilizado para outras questões, ou seja, colocava-
17
Protestos contra a portaria nº 30 do artigo 53 da Secretaria de Educação do Distrito Federal, publicada em fevereiro de 2006, que estabelece o fim da opção entre as três modalidades de artes: visuais, cênicas e música, como era feito até o ano de 2005.
se de lado a leitura do texto em sala, pois uma outra atividade ou situação “roubava” a oportunidade de se ler.
Percebemos também que, quando era solicitado aos alunos que fizessem a leitura de determinado capítulo do livro em casa, não se retomava essa leitura em classe já que, supondo que isso realmente acontecia, optava-se por não se tomar o tempo da aula com uma suposta releitura. A questão é que grande parte dos alunos não lia os textos em casa e, como isso não acontecia em sala, a leitura não se efetivava.
A fala de um dos alunos da terceira série abaixo pode ser um indício de que, em casa, a leitura não era realizada:
Aula de Filosofia – Professora Ana – observação nº 05, em 25/4/06
A: professora (.) tem sobre o liberalismo no livro da gente e eu nem me liguei na hora de fazer o trabalho. ((sobre o fato de não ter observado e lido sobre o assunto, tema de um trabalho solicitado)).
Conversando com alguns alunos da primeira série, perguntávamos se os textos do livro eram lidos por eles em casa. As respostas, em sua maioria, eram negativas. Em alguns casos, os estudantes respondiam que liam os textos do livro quando havia alguma atividade avaliativa que dependia dessa leitura.
Em outros momentos, a própria dinâmica da aula não abria espaço para que houvesse a leitura. Foram muitas as situações em que se deixava de lado a leitura dos textos por conta do “tempo perdido” com outras atividades ou com atividades de cunho pedagógico burocrático: avisos de cronogramas, agendamentos diversos, discussões acerca do desempenho da turma, disciplina ou indisciplina, entre outras.
Reproduzimos abaixo uma cena de sala de aula de Filosofia na qual estava previsto o trabalho com um texto do livro didático sobre o tema Anarquismo. Tentaremos, com essa reprodução, demonstrar ao leitor como o tempo destinado à leitura constituía-se em fator influenciador no trabalho de leitura realizado em sala de aula.
((A turma chega agitada, como sempre. São os dois últimos horários do turno. A professora inicia a aula dando instruções sobre uma avaliação que
acontecerá na próxima semana. Fala que o assunto da aula de hoje é o anarquismo e pede aos alunos que leiam sobre o tema no livro didático. Alguns se organizam para iniciar a atividade, mas na realidade, poucos lêem. Alguns pedem livros emprestados à professora, outros conversam, riem, brincam. É um dia de chuva e o barulho da água caindo no telhado contribui ainda mais para a falta de concentração na leitura. Após quarenta minutos do início da aula, a professora pede atenção aos alunos)):
Pr: vamos ao que interessa.
((Ela explica que não será realizada a leitura de todo o capítulo do livro que trata sobre o anarquismo e justifica isso dizendo que entende o fato de, nesses dois últimos horários do turno, ser complicado trabalhar, uma vez que já estão todos cansados e estressados. Em seguida, passa a fornecer uma explicação rápida sobre a origem do anarquismo e pede para um aluno ler o parágrafo introdutório do capítulo. Após isso, outra aluna lê o texto abaixo)):
Pr: silêncio (.) vamos acompanhar a leitura.
A1:
O Anarquismo no Brasil
Como a abolição da escravatura no final do século XIX, a necessidade de mão-de-obra livre favoreceu a imigração de europeus, sobretudo italianos, que vieram inicialmente para as fazendas de café. Data do início da República Velha a vinda de um grupo de italianos que, autorizados pelo então imperador Pedro II, instalou-se no interior do Paraná fundando a Colônia Cecília nos moldes de uma comunidade anarquista. Experiência efêmera e cheia de dificuldades, não conseguiu florescer.
No começo do século XX, com a urbanização decorrente da industrialização, organizou- se o anarco-sindicalismo, visando a atuação mais eficaz na luta contra a opressão patronal. Era um movimento atuante não só na preparação das greves, mas na difusão do ideal anarquista por meio de escolas e jornais.
Merece destaque a atuação de José Oiticica (1882-1957), que, além de teórico divulgador das idéias anarquistas, foi ativista e por isso exilado. Professor universitário e também do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, tentava aplicar em aula os princípios anarquistas. Homem erudito, foi autor de obra variadíssima; além dos textos políticos, escreveu poesias, contos, teatros e desenvolveu trabalhos lingüísticos filológicos de primeira linha.
Pr: deu pra entender (.) então? a questão anarquista (.) resumindo (.) é isso (.) só pra vocês terem uma noção (...) o capítulo é pequenininho (.) pra acabar vocês vão fazer uma dinâmica e a última aula (.) faltando uns minutinhos (.) a débora vai apresentar o trabalho dela. ((encerrando o
trabalho com o texto e se referindo à apresentação de uma atividade anterior)).
Pr: eu quero os livros de volta (.) a aula que vem.
A1: ((interrompendo a professora)) professora (.) deixa só eu falar uma coisa (.) é::
Pr: tá
A1: eu queria saber (..) quando ele surgiu (.) ele foi (.) assim (.) foi (..) ele começou em outro lugar (.) não é?
Pr: é
A1: assim (.) quando (.) onde mesmo ele surgiu?
Pr: ele surgiu no século xix (.) eles foram mesmo contra as concepções cristãs tá (.) contra a igreja (..) foram seguidores de marx e faziam frente ao governo (.) eles aproveitaram a carona de marx (...) e fizeram um movimento independente que foi denominado anarquista tá? foi uma forma de reagir (...)
A2: [a senhora repete a origem (.) por favor? ((anotando))
Pr: foi lá na alemanha (.) mais ou menos por volta do século xix (.) tá certo (.) pessoal ? vocês prestaram atenção na minha explicação? alguém não entendeu (.) quer que eu repita?
A3: eu quero!
Pr: ah, sérgio (.) acho que você tá brincando comigo né?
Pr: o que é que você não entendeu?
A3: ((parafraseando a explicação da professora – inaudível))
Pr: no século xix (.) na alemanha (.) pegaram carona com marx (.) como uma forma de reagir (.) como as idéias de marx estavam sendo difundidas na europa no século xix (...)
A3: [por que não foi pra frente?
Pr: porque surgiram novas concepções políticas (.) a sociedade se estruturou de forma diferente (.) entendeu? ( ...) e não vingou (.) como hoje em dia (.) é mais ideologia (.) teoria do que prática (.) eu não conheço no brasil um movimento anarquista que saia em reportagens de jornais (.) pesquisas (..) não existe (.) ele tem a fundação dele (.) a história dele (.) mas (...) ok alguém entendeu o que eu falei? então vamo fazer a dinâmica.
Nesta cena de sala de aula foi possível perceber que alguns alunos necessitavam que o tempo destinado ao trabalho com texto fosse maior, pois eles tinham dúvidas em relação ao assunto. No entanto, essa atividade de leitura ficou prejudicada visto que a professora não distribuiu adequadamente seu planejamento do dia.
Observamos que o grupo de alunos se manifestou solicitando maiores explicações por parte da professora, não deixando com que ela encerrasse o trabalho com aquele texto e partisse para a outra atividade programada. Em contrapartida, a professora reagiu com certa impaciência às interrupções dos estudantes, pois havia uma agenda a ser cumprida e não se poderia ocupar o tempo com a explicação de um texto em sala de aula. Era a preferência pelo “consumo rápido dos textos” (SILVA, 1998).
A questão do tempo, então, revelou-se como um obstáculo ao trabalho de leitura nas duas salas de aula pesquisadas. Em certas situações o trabalho com o texto ficou prejudicado porque havia outras atividades, escolares e extras, que deveriam ser cumpridas. Em outros momentos, a própria dinâmica da sala de aula não favorecia o trabalho de leitura, como no caso das aulas da professora Ana, que alegava prejuízo no andamento do trabalho pedagógico devido ao fato dessas acontecerem em horário pouco adequado.
No entanto, além de retratarmos como a questão do tempo esteve subjacente ao trabalho de leitura, é necessário ressaltar que, a prioridade ou não das atividades de leitura
em sala de aula é uma escolha da escola, mais especificamente do professor. Nesse sentido, entender a influência do tempo na realização do ato de ler requer que analisemos as concepções dos professores acerca desse universo.
Na seção seguinte, buscamos analisar qual concepção de leitura dos professores participantes, entendendo que o lugar que ela ocupa em uma aula depende, principalmente, da maneira como o docente a concebe.