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In document Design for trust (sider 92-100)

As emoções são um fenômeno complexo muito estudado pela Psicologia. A expressão das emoções nas trocas comunicacionais é de interesse das ciências da linguagem. O interesse pela linguagem das emoções perpassa praticamente todas as áreas da análise linguística

quando há um direcionamento para as trocas comunicacionais — pelo léxico, pelo sintático, pelo semântico e pelo pragmático, principalmente.

Para Barbosa (2010), as emoções não se ligam a grandes acontecimentos; a existência delas é dependente dos processos de discursivização. Para Barbosa (2010), fora da linguagem, não há como detectar as emoções. Segundo Barbosa (2010), as emoções ordinárias têm como característica principal o fato de deixarem marcas linguísticas discursivas e não se deixarem etiquetar facilmente em formas linguísticas específicas. Em seu estudo, Barbosa (2009, p. 115) chega à conclusão de que o discurso de emoção põe de modo “incontestável a problemática da alteridade na construção do eu, uma vez que o “ser” se produz na intersecção com aquilo que não é”. Para a autora, não se trata de pensar somente em um movimento positivo de plena aceitação; ao contrário, inclusão e exclusão sustentam a construção do sujeito humano. Nesse sentido, em conformidade com a autora, “o discurso de emoção ganha também o objetivo de ser um recurso de controle e delimitação dos movimentos discursivos vindos dos interlocutores”. (BARBOSA, 2009, p. 143).

Em conformidade com Music (2005), emoções são experiências de ordem subjetiva que envolve o indivíduo, sua mente e seu corpo. Segundo esse autor, as emoções são reações complexas desencadeadas por um estímulo ou pensamento e envolvem reações orgânicas e sensações pessoais. A ser assim, as emoções são resposta que envolve diferentes componentes, nomeadamente uma reação observável, uma excitação fisiológica, uma interpretação cognitiva e uma experiência subjetiva.

Os estudos da emoção numa perspectiva pragmática e comunicacional interessam-se pela comunicação emotiva e pela comunicação emocional. Essa distinção é importante, uma vez que ela interfere na delimitação do objeto de análise deste trabalho e no modo como o analista vê esse objeto. A comunicação emotiva refere-se ao fato de que é intencional. A comunicação emocional refere-se ao fato de que não é intencional; nesse sentido, a emoção

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desloca o discurso ou o reestrutura. No enunciado Estou muito surpreso com tudo isso que

você me contou!, pode-se perceber o sujeito da emoção e a casua dela; esse enunciado é

descritivo e intencional: o sujeito descreve o seu estado emotivo. Nesse caso, tem-se a comunicação emotiva. No enunciado Uau!, proferido por um indivíduo após ter ouvido algo, a reação (pressupõe-se, portanto, uma causa, um fato desencadeador) emocional não é descrita; nesse sentido, fala-se que é presentificada. O sujeito vive um estado emocional.

Para Harré (1986), as emoções são construções sociais. De acordo com o autor, o modo como diferentes sociedades verbalizam as emoções delimita os significados culturais delas e prescreve a maneira como se deve sentir e a maneira como se deve expressar em determinadas situações sociais. A maneira como se deve sentir subordina-se às regras ou normas de emoção; a maneira como se deve expressar subordina-se às regras de expressão. As regras de emoção definem o que se imagina o que se deve ou não se deve sentir ou o que se gostaria de sentir em determinadas situações; elas orientam como se julgam as emoções. Se as regras emocionais governam como se deve sentir, as regras de expressão governam como se deve expressar as emoções. Em virtude disso, na perspectiva de Harré (1986), as emoções estão, portanto, ligadas a contextos normativos e expressivos.

Para Harré (1986, p. 2), “a manifestação de uma emoção é a expressão de um julgamento complexo e, ao mesmo tempo, tal manifestação é frequentemente a performance de uma ato social. Nessa perspectiva, o autor atribui à emoção um valor discursivo, uma vez que ela se manifesta por meio de atos sociais e desempenha um papel comunicativo. Pela leitura de Harré (1986), pode-se inferir que uma emoção manifestada é o resultado de um julgamento complexo que o indivíduo faz acerca de uma situação sob determinadas noções de valor e conceitos de ordem moral. A emoção manifestada, em conformidade com Harré (1986), também é um ato social. Elas performatizariam ordens, pedidos, desculpas, aprovações, desagrados, comiserações etc. — por exemplo: uma manifestação de surpresa

“Uai!” proferida por um colega de trabalho em virtude do fato de outro colega ter chegado muito cedo, já que este sempre se atrasa. Essa manifestação é a síntese ou rubrica de um julgamento complexo: <estou surpreso por você ter chegado bem cedo hoje, uma vez que você sempre se atrasa>. Por meio da manifestação “Uai!”, o falante, talvez, esteja exercendo uma pressão ao colega para que ele explique o motivo pelo qual tenha chegado mais cedo ao trabalho. Por meio da interjeição “Uai!”, o falante, nessa situação, performatiza o ato social pedido de explicação. Um outro exemplo seria a demonstração de impaciência por meio da interjeição “Caramba!”; o falante, além de sinalizar o julgamento complexo de que algo tenha despertado sua irritação, pode performatizar uma reclamação ou protesto.

As distinções entre comunicação emotiva e comunicação emocional, de um lado, e regras de emoção e regras de expressão, de outro, aproximam-se da distinção proposta por Ducrot (1972) entre significação expressa, que seria da ordem emotiva, e significação atestada, que seria da ordem emocional. Essas correspondências aproximam-se também das ideias de Bakthin (1979), quando de suas análises acerca do modo como os indivíduos traduzem os signos interiores em signos exteriores. Os exemplos apresentados por Bakthin (1979) são20:

 Eu estou alegre, em que não há expressão direta vivida, portanto, sem realização do signo interior;

 Hurra!, em que há expressão direta do que é vivido, portanto, com realização do signo interior;

 Estou tão alegre!, em que há um mistura do descritivo e do vivido, portanto, o signo interior encontra-se abrindo caminho para o exterior.

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Esses exemplos já foram apresentados na página 65, na citação de Bakhtin (1979). São retomados para ilustrar as relações entre as ideias dos teóricos citados e comentados.

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A escolha de uma dessas três opções subordina-se às regras de emoção e às regas de expressão, conforme Harré (1986). A expressividade está ligada às regras de expressão; portanto, ela também se subordinaria ao social.

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