O comportamento económico dos agentes agrícolas naquela zona durante a guerra não visava o lucro pois, ou não havia compradores para os produtos, ou não era possível produzir excedente. Os agricultores viam-se por isso forçados a limitar-se a uma produção de subsistência.
À pergunta “Como conseguia comprar material escolar para os filhos?”, referente ao período anterior à guerra, os respondentes revelaram as actividades que complementavam a machamba - a apanha de cocos, corte de lenha, ou culimar a machamba de alguém em troca de dinheiro. Mas é bom referir que estes esquemas de remuneração eram esporádicos e apenas exercidos quando surgia a necessidade de adquirir algum bem extra – neste caso o material escolar – ou algum problema inesperado.
Nos anos que se seguiram ao final da guerra alguns constrangimentos terminaram, mas no entanto muitos agricultores continuaram a não adoptar o comportamento da maximização, devido a uma série de motivos: ainda existiam constrangimentos da procura e da oferta em muitos distritos,
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nomeadamente aqueles que se encontravam economicamente isolados devido ao estrago das suas infra-estruturas; nas áreas economicamente isoladas onde as cheias ou secas são recorrentes, ou onde os agregados são muito pobres, os agricultores tenderam a ser mais cautelosos relativamente ao risco. A evitação do risco leva à prática comum de troca de colheitas, reduzindo as actividades agrícolas. A tecnologia de armazenamento das famílias é na maioria das vezes bastante pobre, o que reforça a prevalência da fome no final das estações de crescimento das colheitas e reduz a tendência para um comportamento comercial anti-cíclico. As pessoas actuaram em situação de guerra durante muitos anos e a chegada de um mercado local não as induz facilmente a alterar as suas rotinas de cultivo (até porque muitos habitantes do campo temiam que a guerra regressasse aquando das eleições, se o lado perdedor não concordasse com os resultados) (Bruck et. al., 2000).
O ajustamento estrutural e o consequente aumento da necessidade de dinheiro, nomeadamente para despesas com a saúde e a educação, tem, de alguma forma, efectivado uma mudança de objectivos e o desvio para uma agricultura mais orientada para o lucro. Regista-se que os agregados têm vindo a aumentar o seu output para o comércio e a comprar mais comida na qual eles próprios não têm vantagens comparativas (Bruck et. al., 2000).
No entanto não podemos extrapolar essa situação para o distrito de Manjakaze, pois as entrevistas demonstraram que o excedente canalizado para o mercado local é muito reduzido e, na maior parte dos agregados familiares, mesmo inexistente, devido à época de seca que se vivia no momento da recolha empírica. Na altura da guerra, tal como agora, a sua principal fonte de subsistência é a machamba familiar, de onde tiram o sustento diário. Alguns, aquando das boas colheitas, conseguem vender parte da produção. Muito poucos indicaram possuir bois e aqueles que o fizeram referiam-se ao período anterior à guerra. A maior parte deles tem apenas algumas galinhas ou animais de pequeno porte.
Não tem sido feita uma análise dos padrões de diferenciação social no campo. O estudo melhor documentado (First, 198363) faz uma vaga distinção entre agricultores pobres e médios. Os agricultores pobres são aqueles que têm machambas familiares de pequena escala que ocasionalmente têm arados e bois. Produzem pouco para o mercado, consumindo a maior parte da sua produção. Os agricultores médios têm machambas maiores e tendem a possuir – ou ter acesso a – gado e arados. Por vezes contratam o trabalho de pessoas externas à família. Consomem a maior parte da sua produção, comercializando uma pequena percentagem. Podemos dizer que a maior parte dos agricultores que encontrámos em Chibonzane pertencem à primeira destas categorias.
Segundo o empreendedor, que diz conhecer os modos de vida da população rural do sul do país, os indivíduos daquela zona não são muito ligados ao comércio. “Enquanto que na vida urbana as pessoas vão ao
mercado ou a uma mercearia e compram o que vão comer nesse dia; no campo não. No campo as pessoas acordam muito cedo, limpam o terreno à volta da casa, vão à machamba, acartam água, arranjam lenha e cuidam dos animais se os tiverem. Essas são tarefas fundamentais diárias”.
Encontrámos, transversalmente a todas as famílias com quem falámos, uma quebra acentuada da bagagem económica, se tivermos em conta a comparação entre o período actual e aquele que precedeu a guerra civil. Na resposta às questões “que bens possuía antes da guerra?” e “que bens possui actualmente?” é notória uma redução clara dos recursos disponíveis, desde o primeiro momento até ao segundo.
Apresentamos aqui alguns percursos que evidenciam essa degradação das condições materiais.
J. L. tem 53 anos. Nasceu e sempre viveu em Nhengueni, não tendo fugido durante a guerra,
apenas se escondendo no mato a partir de 1982. Vendia milho e arroz e com o dinheiro comprava porcos para reprodução. Já tinha 12, mas com a guerra tudo foi destruído. Actualmente o seu agregado familiar é composto pela esposa e três filhos, os quais apoia com o dinheiro recebido no trabalho nas minas da África do Sul, que complementa aquilo que é retirado da machamba. Já não possui animais.
(inquirido nº 25, Nhengueni)
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L. J. tem 38 anos. Antes da guerra vivia com o pai e sete irmãos. A sua família vendia o
excedente da machamba para comprar roupas, mantas e material escolar. Costumava pastorear os 92 bois que os seus pais tinham e quando chegou a ameaça do primeiro ataque, tentou salvá-los, andando de um sítio para o outro, tentando ludibriar os bandidos. Mas nesse processo o seu pai desapareceu e os bois começaram à deriva. Acabou por desistir e fugir para Machulane já sem nenhum boi e teve que se contentar com a machamba emprestada que lhe coube, como todos os outros. Hoje em dia vive com a esposa e quatro filhos. Vende bananas e possui apenas 5 galinhas.
(inquirido nº 41, Vamangue)
J. M. tem 60 anos. Nasceu e sempre viveu em Machulane. Antes da guerra vivia com duas
esposas e 14 filhos, mas estas zangaram-se durante o conflito e acabaram por abandoná-lo. Agora tem uma nova esposa e vive com mais três filhos. Os filhos mais velhos estão em Maputo. Antigamente tinha três tipos de machamba, 9 bois (que não conseguiram esconder e foram abatidos pelos bandidos) e 12 cabritos. Trabalhava na África do Sul, mas assim que se apercebe da guerra regressa para proteger a família. Como se encontrava já em Machulane, perto do quartel, quando a guerra atingiu o seu auge, não precisou de se deslocar. Apenas se escondia nas redondezas. Nesse período não podia fazer nada para se sustentar, pois qualquer movimento era risco de rapto. Apenas conseguiam arranjar verdura para comer quando sabiam que o inimigo estava longe. Actualmente possui uma machamba para auto-sustento, quatro cabritos e dois bois. Só vende na época fresca, quando planta hortículas. De resto só planta cereais e não vende.
(inquirido nº 79, membro do Conselho Consultivo)
Apresentamos também um percurso ilustrativo dos casos de pessoas com muitas posses e cuja experiência de exílio se reveste de muitas facilidades, que advém desses recursos materiais e também do capital social que detinham. A estratificação social acabou por se esbater. No entanto demonstra a resiliência e determinação numa situação de desespero, por exemplo na experimentação de várias actividades económicas:
J. M. tem 78 anos. Teve um primeiro casamento no qual teve duas filhas. Depois ficou viúvo
e casou uma segunda vez. Quando a guerra começou fugiu para Manjakaze e teve lá cinco filhos. Quando a guerra terminou regressou a Vamangue e arranjou uma nova mulher, com quem vive actualmente, com mais cinco filhos. O seu pai tinha uma machamba com 52 ha, 30 bois e 25 cabritos. Passa-lhe uma procuração e ele pede mais hectares e fica com um pouco mais de noventa hectares. Compra depois uma loja de um português que fugiu após a independência. No início dos ataques armados dormia apenas no mato à noite, mas quando lhe incendiaram um camião e lhe destruíram a loja, foge para Manjakaze, onde um amigo lhe cedeu um espaço, no qual montou um negocio de venda de cereais enquanto a mulher vendia bolos. Todavia o infortúnio continuou. A guerra agudizou-se e os ataques atingiram a vila, vitimizando a mulher do seu amigo. Então o governo cedeu-lhe um terreno numa zona de Manjakaze menos propensa a ataques, onde montou um negócio de lenha. No regresso o governo prometeu-lhe ajuda para recuperar o estabelecimento, mas até hoje essa promessa não foi cumprida. Tem que sobreviver apenas com o que a machamba lhe dá. Hoje em dia possui uma machamba, da qual vende parte da produção, cinco cabritos e dois bois. Apesar de não ter nenhum contacto com o empreendimento, diz ter a certeza que o projecto irá ajudar a desenvolver a região. Mesmo que eles não assistam aos resultados, os seus filhos e netos
certamente que os verão. Como se o projecto fosse “a gambiarra na caça que ilumina o caminho”.
(inquirido nº 42, Vamangue)