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O conceito de espiritualidade abordado neste trabalho refere-se à tendência inata do ser humano de buscar sentido e significado para sua vida, reconhecendo a existência de algo além-ego, que o remeta à sua condição de ser social, integrante da sociedade, da natureza e do universo.
Como já verificado em capítulos anteriores, esta definição corresponde ao conceito usado pela maioria dos estudiosos da área e, mais, relaciona-se diretamente ao conceito postulado pela psicologia analítica, pois entende-se que a espiritualidade refere-se à experiência com o sagrado, ou seja, à experiência com o Self, que traz sentido e significado para a existência. Aqui é importante lembrar que o Self se estende à dimensão coletiva do ser humano, conceito que, na psicologia analítica, inclui o
entendimento de que existe um propósito que une o indivíduo a uma consciência maior, ou seja, que existe algo, além da consciência egóica, que norteia sua vida, que o lança em um plano coletivo e tem relações com o universo.
Assim como os conceitos atuais sobre espiritualidade (KONEING et al., 2001), na psicologia analítica e neste trabalho entende-se espiritualidade como diferente de religião. A religião implica em sistemas organizados de crenças, é a institucionalização de credos e práticas religiosas específicas. Lembrando, a espiritualidade é mais ampla, ela independe da institucionalização religiosa. Ela pode, sim, ser encontrada na religião instituída e muitas vezes pode até ser promovida por ela, mas não necessariamente, algumas vezes encontra-se a religião desprovida de espiritualidade.
Ainda, é importante lembrar que muitos autores usam os termos religião, religiosidade e espiritualidade alternadamente, e tampouco Jung fez questão de diferenciá-los, embora, quando se referia à experiência com o sagrado, como já se viu anteriormente, tratasse dos fenômenos de forma distinta. Mais, ele refere-se a espiritualidade usando mais frequentemente o termo religião, referindo-se a experiência que pode ou não estar ligada a alguma forma instituída de credo.
Para avaliar a espiritualidade e verificar a sua relação com o processo resiliente escolheu-se a escala de Bem-Estar Espiritual de Paloutizian e Ellison (1982) - (Anexo C).
Segundo Ellison (1983), a escala tem como objetivo avaliar o bem-estar espiritual geral, sem se ater a questões específicas de quaisquer tipos de sistemas de crenças. Seus autores entendem por bem-estar espiritual um estado diretamente ligado à necessidade de transcendência do homem; é a sensação experimentada pelo indivíduo quando encontra um sentido para sua existência, quando encontra propósito para sua vida e esse propósito “envolve um significado último para a vida” (ibid., p. 330). Somado a este estado, há uma sensação de integração com a comunidade, com a natureza e com o Divino.
Segundo o autor, este conceito aponta para duas dimensões, uma vertical, que se refere ao senso de bem-estar em relação a Deus, e outra horizontal, que diz respeito à capacidade de dar um sentido objetivo à vida que traga satisfação. Ambas as dimensões envolvem transcendência e funcionam como sistemas integrados, cujos componentes se sobrepõem e se influenciam.
Baseada nesses pressupostos a escala de Bem-estar Espiritual é dividida em duas subescalas, uma denominada de Bem-Estar Religioso, que avalia a dimensão vertical da
espiritualidade, contém referências a Deus e diz respeito a uma comunhão pessoal, íntima com Deus ou qualquer tipo de poder superior; e outra chamada de Bem-Estar Existencial, que mede a dimensão horizontal da espiritualidade, correspondendo à sensação de bem-estar do indivíduo com o mundo, a capacidade de atribuir significado e sentido à existência. As duas subescalas somadas correspondem ao bem-estar espiritual geral.
A subescala de Bem-Estar Religioso, embora seja definida como aquela avalia o bem-estar religioso, não se refere a práticas religiosas institucionalizadas, ou sistemas específicos de crenças, ou a alguma confissão de fé institucional. Como foi citado anteriormente neste trabalho, são termos usados e que precisam ser bem delimitados para que não haja confusão. Uma análise mais apurada dos itens possibilita a compreensão de que os autores se referem a um relacionamento pessoal com Deus; usam esse termo “Deus” porque entendem que é a linguagem mais corrente para expressar “um poder mais elevado” (PALOUTIZIAN e ELLISON, 1982). Não fosse assim, não teria sido escolhida como instrumento de avaliação da espiritualidade nesta pesquisa. Segundo Ellison (1983), a escala foi desenvolvida para ser um instrumento válido e confiável na avaliação do bem estar espiritual de vários povos, com vários credos e religiões diferentes, por isso precisou ser genérica o suficiente para abordar vários tipos de culturas.
Acredita-se que a subescala de Bem-Estar Religioso, assim como a espiritualidade humana, tem uma relação importante com a religiosidade instituída, mas não é a ela que este estudo se refere. A subescala diz respeito a uma comunhão e relação pessoal, íntima com Deus ou com uma força superior (ibid.). Não tem como objetivo avaliar o grau de institucionalização religiosa do indivíduo, nenhuma questão existe que diga respeito a práticas espirituais específicas de alguma religião ou qualquer tipo de confissão de fé. Ao contrário, segundo Paloutizian e Ellison (1982) as questões da subescala de Bem-Estar Religioso que incluem a palavra “deus”, não têm nenhuma referência a nenhum “deus” particular ou de alguma denominação religiosa particular. A pessoa é livre para interpretar a palavra “deus”, dando a ela um significado pessoal. Inclusive o próprio autor orienta que em alguns casos, para que não haja confusões com relação à palavra “deus”, é importante que as pessoas recebam instruções adiantadas, esclarecendo que podem interpretar a palavra “deus” de acordo com suas convicções pessoais, como por exemplo “um poder mais elevado”, deixando claro que esse “deus”
refere-se a “um poder maior”, que se enquadra no conceito de algo além- ego, no caso o Self .
Embora se tenha tentado verificar, por meio do questionário elaborado, alguns fatores relacionados à religião instituída, com perguntas específicas e bem delimitadas, como se o indivíduo pertence ou não a alguma instituição religiosa e qual é a sua freqüência à instituição (questões V-6 e V-7 do Anexo A). Não se está avaliando a religiosidade instituída, mas a espiritualidade que a inclui.
A escolha da palavra religião para referir-se a um relacionamento com um poder maior parece bastante inadequado; entende-se que os autores da escala de Bem-Estar Espiritual deveriam ter previsto que o termo poderia remeter diretamente à religião instituída ou a alguma confissão de fé específica, aumentando, ainda mais, as celeumas em torno do assunto. Talvez a revisão e possível adequação do termo “religioso” devesse ser considerada.
Ainda assim, a escala de Bem-Estar Espiritual de Paloutizian e Ellison (1982) tem se mostrado capaz de avaliar a espiritualidade, um fenômeno polêmico, uma temática que necessita de sistematização urgente para facilitar as pesquisas na área.
Existem vários instrumentos que avaliam a dimensão espiritual da qualidade de vida. Além do WHOQOL-100 e do WHOQOL-SRPB, temos a Quality of Life-Cancer
Survivors (QOL-CS) que apresenta uma subescala para avaliar o bem-estar espiritual, e outros instrumentos que além do bem-estar espiritual, medem o bem-estar físico, psicológico e social (PANZINI et al., 2007).
O instrumento (FACIT-Sp-12), Functional Assessment of Chronic Illness
Therapy-Spiritual Well-Being Scale (Brady et al., 1999), é um questionário com 12 itens que também avalia o bem estar espiritual. Desenvolvido com doentes oncológicos, destina-se a “medir aspectos importantes da espiritualidade como um senso de sentido e propósito para a vida, harmonia, paz, e um sentimento de força e conforto transmitidos pela fé” (BRADY, et al., 1999, p. 420). Como a escala usada neste trabalho, a FACIT- Sp-12 avalia o bem-estar espiritual independentemente das crenças religiosas instituídas e também poderia ter sido um instrumento adequado para os objetivos deste trabalho.
Ainda assim, optou-se por trabalhar com a escala de Bem-Estar Espiritual de Paloutizian e Ellison por vários motivos: segundo Marques (2000, p. 76) é uma das pioneiras no tema, “tida como um padrão de referência para os autores que delineiam
instrumentos de medidas de espiritualidade”, foi amplamente recomendada pelos profissionais da área e, além de ter sido testada em vários outros contextos, é, até então, o instrumento mais usado para avaliar a espiritualidade na população brasileira.
Portanto, entende-se que a referida escala é capaz de servir ao propósito de avaliar a espiritualidade dentro dos princípios apontados neste trabalho que considera, dentre outros, os pressupostos da psicologia analítica.