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Para compreender o contexto geográfico, político, social, econômico e cultural onde se situa a mina de Itataia, foi-me necessário percorrer as estradas sinuosas dos discursos desenvolvimentistas e os aproximadamente 80 km para chegar em Santa Quitéria, partindo de Sobral, cidade em que resido nesse tempo em que faço a pesquisa, seguindo pela BR 222 até acessar a CE 362, passando pelo município de Forquilha, contornando a direita na CE 176 e seguindo adiante em um cenário que requer do pesquisador-viajante uma preparação prévia acerca da monotonia da paisagem sempre muito seca durante todo o tempo em que fiz meu trabalho de campo.

Na estrada, os arbustos secos erguem-se pontiagudos em direção a um céu inclemente onde as nuvens procuram o refúgio que não encontram em tamanha imensidão azul. Algumas casas feitas de barro ou de alvenaria, sem reboco e com tijolos à mostra parecem moldadas pela paisagem seca, com colorações indefinidas que mesclam o vermelho do barro com um preto-cinza abusivo das queimadas provocadas pela ação humana para conter a disseminação daqueles arbustos agressivos que avançariam sobre as rodovias, contendo veículos de toda espécie em um abraço selvagem. A luz ofuscante do sol a pino dá a cor predominante da pobreza que se vê nessa paisagem e adentra pelos poucos becos e vielas que se formam entre as simples casas que conformam os distritos espalhados pelo caminho com poucas ruas e muitas vidas.

E assim essa paisagem se repetirá durante aproximadamente uma hora e dez minutos de viagem, quando se avista um pequeno aglomerado urbano que avisa

ao viajante que Santa Quitéria se aproxima. Antes a Cadeia Pública Municipal e um prédio do Departamento de Estradas e Rodagens (DER) dão as boas-vindas. Aliás, se não fosse por eles não saberíamos se estávamos realmente em Santa Quitéria. Avançando um pouco mais, saltando do micro-ônibus e olhando com atenção para cima, surgem frases afixadas em hastes presas aos postes de iluminação pública da cidade: Santa Quitéria A cidade do fosfato e do urânio.

Maior município em extensão do Estado do Ceará, Santa Quitéria está situada no semiárido brasileiro (SAB), que abrange cerca de 1.400 municípios, distribuídos pelos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, a porção setentrional de Minas Gerais e o norte do Espírito Santo. No Ceará, são 150 municípios que integram o SAB, onde predomina o bioma Caatinga, caracterizado pela forte presença de cactos, bromélias e arbustos que perdem as folhas na seca para evitar a perda de água, e ganham uma feição verde e florida no inverno.

O município possui uma área de 4.260km2 e seu distrito-sede está localizado a quase 58 km da Fazenda Itataia. Dada sua extensão, faz limite com outros treze municípios: Cariré, Groaíras, Forquilha, Sobral, Irauçuba, Canindé, Itatira, Boa Viagem, Monsenhor Tabosa, Catunda, Hidrolândia, Pires Ferreira e Varjota. Tem uma população estimada em 43.344 habitantes, e desses, 19.335 habitam a zona urbana e 23.020 as áreas rurais que se aproximam da Fazenda Itataia, como a comunidade Riacho das Pedras e os assentamentos de Morrinhos e Queimadas, que distam apenas 3,5 km e 4,5 km da mina, respectivamente. O Índice de Desenvolvimento Humano – IDH – do município é de 0,642, situando-o na 63o posição no Estado do Ceará, apesar das riquezas minerais, que não alavancaram até o presente momento nem a economia e nem os seus indicadores socioeconômicos. (GUIA MUNICIPAL, 2009/2010).

Esses dados ganham outra dimensão quando atestados empiricamente. Na estrada que me levou até a sede do município e de lá até as comunidades rurais de Riacho das Pedras e o assentamento de Morrinhos, dá para sentir, no cansaço da viagem, como o município tem uma grande extensão de terras formadas por grandes fazendas e pequenos distritos, que revelam uma estrutura fundiária com uma extensa concentração de terras. Da sede até Riacho das Pedras, percorri em média 30km como carona em um carro popular da organização não governamental Cactus em um terreno muito acidentado, cheio de altos e baixos, levantando muita poeira, com

cercas de ambos lados que vão sinalizando a estrutura fundiária com grande concentração de terra, pequenos vilarejos e o que resta de alguns animais em busca de restos comestíveis.

Chegando à sede do município, pode-se caminhar – depois de cuidar do protetor solar para não pegar uma insolação – pelas ruas quiterienses encontrando referências arquitetônicas da cidade, como a Igreja Matriz, que, segundo os moradores, está assentada em cima de uma grande reserva de urânio; a Câmara Municipal, que já abrigou no seu andar inferior a cadeia pública municipal; e outras edificações menos ilustres mas que também contam a história recente do município e sua relação com o projeto de mineração de urânio de Itataia, como o frigorífico Urânio e a Escola Estadual Julia Catunda, responsável pela organização de eventos educacionais, como caminhadas e feiras de ciências, tematizando a mineração do urânio e seus impactos ambientais, sociais e econômicos.

Figura 1 – Mercado de Santa Quitéria, destacando o ao fundo o Frigorífico Urânio.

Fonte: Autoria própria.

A história que dá contornos territoriais e socioculturais ao município de santa Quitéria não é muito diferente daquelas que conhecemos dos pequenos e médios municípios do sertão brasileiro. Oriunda de uma colonização portuguesa, a cidade cresceu em volta da fazenda Cascavel, situada à margem de um riacho de nome homólogo, e ainda guarda as marcas de um passado colonial e católico no museu Monsenhor Luis Ximenes Freire Aragão e na biblioteca municipal Aracy Magalhães Martins, os quais guardam a memória de personalidades, lideranças

políticas e religiosas locais, nos limites da pequena zona urbana de onde se pode avistar uma terra seca e pequenos serrotes semelhantes àqueles encontrados em Itataia.

Na cidade o comércio é o protagonista econômico, jamais apinhado de gente, com pequenas lojas de produtos de ração animal, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, miudezas made in China, material de construção, mercadinhos, supermercados, entre outros. Santa Quitéria ainda conta, além das atividades mineradoras, com uma economia concentrada, principalmente, na agropecuária (produção de algodão sequeiro, mamona, milho, feijão, produção de laticínio, bovinocultura de corte e leite, caprinocultura de corte e ovinocultura), indústrias, serviços, e na transferência direta e indireta de recursos estaduais e federais, como benefícios da Previdência Social e Bolsa Família. Serviços mais especializados são encontrados na cidade de Sobral, que exerce ampla influência econômica e social, oferecendo educação pública e privada de ensino superior, hospitais públicos e privados.

Figura 2 – Centro comercial de Santa Quitéria.

Fonte: Autoria própria.

Não obstante as atividades econômicas anteriormente citadas, a imagem do município foi construída pelas lideranças políticas locais principalmente a partir das reservas minerais que possui, incluindo o fosfato e o urânio. Uma recente afirmação

do prefeito reeleito30 de Santa Quitéria, Fabiano Magalhães, veiculada pelo Jornal O Estado, do dia 14 de outubro de 2013, sintetiza essa imagem e suas contradições:

“[...] Santa Quitéria é a Minas Gerais do Nordeste, pois temos urânio, fosfato, calcário, granito e ferro no nosso subsolo, ou seja, muitas riquezas. A exploração da mina [de Itataia] será um divisor de águas para nosso município, gerando benefícios não

apenas econômicos, mas também sociais”.31

As referências ao urânio se encontram tanto nos estabelecimentos comerciais desta pequena cidade quanto na propaganda oficial do município (ver Figuras 2 e 3), que utiliza o seu aparato burocrático para alardear suas riquezas minerais e se serve de uma rádio local, a rádio Itataia, nome que faz alusão bastante direta à mina de Itataia, para divulgar os discursos e as estratégias de convencimento acerca do PSQ. Essas referências fazem alusão a uma riqueza que se associou no imaginário coletivo à exploração dos minérios locais.

A formação de um discurso da prosperidade que chegará ao município pela exploração das jazidas de urânio, fosfato, ferro, ametista, berilo e a exploração da principal jazida de granito branco do Brasil (aliás, o granito Branco Ceará, comercializado pela empresa cearense Granistone S/A, é tido como o “[...] granito

mais nobre presente no mundo”, segundo a própria empresa que o comercializa), faz

do município uma pequena caixa de ressonância dos discursos da abundância de minérios, que orientam uma política de desenvolvimento pela exploração de bens naturais considerados quase infinitos depois de passados mais de quinhentos anos de rapina.

A Figura 3 destoa do que se vê em Santa Quitéria. O que sobressai dela é o ônus de uma política que aciona a seu favor um tempo futuro de riqueza e abundância que custa a se efetivar. Há mais de 30 anos que a mina faz parte do imaginário desse município. A mina passou de uma expectativa hoje transformada em descrença e desconfiança dos discursos políticos que se apropriam dos sonhos anteriormente construídos em relação ao efeito transformador da mina para homens do sertão. A sanfona de idas e vindas sobre o PSQ transformou a descrença em um sentimento de desconfiança que tem proporcionado, por um lado, um debate que

30 Fabiano lobo foi reeleito em 2016 para mais um mandato de quatro anos como chefe do executivo municipal.

31 Disponível em: <http://www.oestadoce.com.br/noticia/itataia-revolucionara-economia-dos-sertoes>.

incorpora de forma mais abrangente pesquisadores, moradores locais, entidades locais e nacionais para analisar todos os aspectos concernentes ao PSQ.

Figura 3 – Postes de iluminação na sede do município de Santa Quitéria propagandeando o fosfato de urânio.

Fonte: Autoria própria.