Como vimos anteriormente, a atenuação não pode se confundida com a cortesia, entendia esta como um ato de manifestar atenção, respeito ou afeto que uma pessoa tem por outra ou, em sentido amplo, como um conjunto de regras mantidas no trato social com as pessoas que
mostram entre si consideração e respeito (SILVA, 2008:163) enquanto a atenuação, ou mitigação segundo Haverkate (1994: 117), é uma sub-estratégia de cortesia através da qual o
falante mitiga o conteúdo proposicional ou a força ilocutória da asserção. Há entre ambas uma relação de gênero e espécie.
Em idêntico sentido, Briz aponta que alguns dos valores que descrevem mais concretamente a atenuação são: suavizar a mensagem, minimizar ou diminuir importância, mitigar, reparar ou esconder a verdadeira intenção (BRIZ, 2003:19). Ou seja, segundo Albelda e Briz, mediante esta operação lingüística estratégica se minimiza o que é dito e o ponto de vista do falante, ou seja, afeta o enunciado e a enunciação, minimiza o dito e o dizer
Los diferentes estudios sobre la atenuación han destacado principalmente dos funciones en este fenómeno, que, en el fondo, se pueden resumir en la segunda: reducir el valor significativo de un enunciado o reducir su fuerza ilocutiva. La reducción del valor significativo se manifiesta con la expresión de la duda, vaguedad, la disminución del compromiso con lo dicho y, en definitiva, la intención del hablante de no ser claro o tajante al hablar. (ALBELDA y BRIZ, 2010: 245)
Briz (2013) esclarece que a atenuação tem o objetivo de dar efetividade ao discurso de forma intencional e estratégica tornando-se compreensível somente pelo seu contexto. É estratégica uma vez que tenta minimizar ou mitigar a ação e intenção ou o efeito que estas (ação e intenção) possam ter ou haver tido na interação (BRIZ, 2014:85). O intuito desta mitigação é o de preservar as relações entre os interlocutores, de conseguir o acordo ou a aceitação do outro inclusive, quando seja esta apenas uma aceitação social (BRIZ, 2013). O autor destaca e explica o aspecto estratégico da atenuação pragmática, que tem como finalidade:
convencer, conseguir um benefício, persuadir e, ao mesmo tempo, para cuidar das relações interpessoais e sociais ou evitar que estas sofram algum tipo de menoscabo (20013:285) [...] aproximar-se ou não se afastar extremamente do outro e assim conseguir o objetivo, chegar com sucesso à meta, uma meta local (obter algo em um momento dado) ou global (conseguir o acordo ou minimizar o desacordo) (2013: 286)
Seguindo a opinião do autor, pode-se atenuar utilizando recursos morfológicos, sintáticos, léxicos e fonéticos e, com frequência, combinando vários deles. Além disso, há os recursos de caráter supra-segmental, como a entonação. No entanto, pensando na eficácia comunicativa, a atenuação não pode ser analisada somente a partir de suas funções semânticas (ou dos recursos morfológicos, sintáticos, lexicais, etc. empregados), mas sim, a partir de princípios pragmáticos, observando-se o papel que desempenham na interação coloquial, já que manipulam o conteúdo, suavizando-o, sempre perseguindo as diferentes finalidades apontadas.
Assim, a atenuação pode estar relacionada com a atividade argumentativa, ou com a imagem geral sem uma finalidade cortês (BRIZ, 2013:283), como quando se apresenta o resumo de um trabalho num congresso e se atenua o título (Uma aproximação a, Esboço, Reflexões para
o estudo…) e os objetivos (pretendemos abordar na medida do possível…). Nestes casos
poderemos estar atenuando, com a finalidade, por exemplo, de que nossa participação no evento seja aceita, porém não somos corteses, ou talvez o sejamos devido a alguma particularidade. Pelo contrário, no contexto acadêmico podemos ser corteses quando, por exemplo, minimizamos as possíveis discrepâncias com outras propostas (não concordamos exatamente com…) (BRIZ, 2013:283).
Como fenômeno pragmático, a atenuação tampouco pode ser definida somente pela estrutura morfológica dos enunciados, independentemente do contexto22 , seja este geral ou
interativo, como veremos adiante (BRIZ, 2014:91). Assim, o uso dos diminutivos que
normalmente é interpretado como uma marca de atenuação, pode não ter esta função pragmática se, por exemplo, o objeto ao qual se faz referência é, de fato, diminuto23.
De igual modo, embora Haverkate estabeleça que os predicados doxásticos (creo yo, yo
creo) se utilizem especialmente com fins estratégicos (1994:123), coincidimos com Albelda et alii que, para decidir se estes predicados têm função atenuadora, devemos recorrer ao contexto
uma vez que podem manifestar, simplesmente, a opinião do falante acerca de algo do qual ele não tem certeza (2104:12).
Diana Bravo acrescenta mais um requisito para falar de atenuação cortês. Depois de apontar que as estratégias de cortesia não são todas atenuadoras e, embora existam recursos que em forma habitual sejam atenuadores em determinadas situações, não têm esta característica per
se senão que vão depender de sua interpretação em contexto. Ao mesmo tempo especifica que a
função atenuadora não depende da forma e, sim da avaliação de uma ameaça à imagem; só neste caso estaremos em presença de uma atenuação (2005:32).
Resumidamente, a marca modal de atenuação, aquela que produz distanciamento da mensagem e aproximação (ou não afastamento) social dos falantes, só se conseguirá precisar através de uma análise quantitativa (que levará em conta a situação geral de comunicação; o
contexto interacional concreto (BRIZ, 2014:91) e a função do atenuador, e de uma análise
qualitativa, como explicaremos seguidamente e, em última instância, da interpretação que façam os interlocutores.
22 Em idêntico sentido, Haverkate remete a Fraser e Nolen: insistimos en que no hay oraciones corteses, ya que la
cortesía depende del contexto o la situación en la que se emita. (1994:78)
23 Antonio Briz nos traz o exemplo do enunciado, proferido pelo marido à esposa, Comprei um cachorrinho. Se o
diminutivo, observa o autor, faz referência ao tamanho reduzido do animal, afeta só a base léxica. Haverá diminuição semântica, mas não atenuação. Porém, por exemplo, se é uma forma de transmitir a notícia da compra do mascote à cônjuge que era contrária a tal decisão, o diminutivo adquire um valor pragmático atenuador que minimiza os efeitos negativos (2014:101).