4. Estudio de campo: actividades para el imperfecto y el indefinido
4.5. Unas hojas de trabajo con ejercicios del imperfecto e indefinido
A percepção sonora do cronista identificava, com frequência, os sons que rompiam com o suposto silêncio do arraial: “A monotonia do logar foi apenas quebrada pela chegada do bispo, que veio visitar as suas ovelhas”. O religioso foi recebido, no alto do Cruzeiro, com uma cavalgada de mais de cem fiéis e conduzido pela comitiva “por debaixo de bananeiras de occasião e de festivos arcos de fitas graciosamente entrelaçadas”.185
A sensibilidade atenta do crítico musical captava os elementos que alteravam a sonoridade do arraial: “Houve chrisma, reza e cantoria no templo e nas ruas.” Após a despedida do bispo, a sonoridade do arraial se restabelecera: “Mas, sahido que foi o Bispo, Bello Horizonte continuou no seu costumado ram-ram; alternado apenas pelo somnolento chiar dos carros, que é tambem outro ram-ram convidativo, para longas e reparadas séstas!”. 186 Ram-ram: monotonia, som arrastado, sempre igual.
É interessante como a sonoridade religiosa atingia a percepção do cronista. O incômodo ficava evidente: “Sahi de casa, no dia 16 deste mez, depois de haver accordado às cinco horas da madrugada, pelo esfuziar dos foguetes, pelo estampido dos morteiros e pelo badalar dos sinos da matriz, que são dois; mas dos quaes o sineiro tira tanto partido e effeitos, que parecem repicar as matinadas dos portentosos carrilhões do Convento de Mafra, padrão da estupidez de um dos reis de Portugal e gloria de um dos mais celebres sineiros de Antuerpia.187
O arraial, no mês de agosto, estava envolvido com uma festa religiosa: “Ha tres dias que succede invariavelmente esta série de cerimonias do culto religioso”. E o cronista não deixou de expressar seu descontentamento com a mudança do cotidiano: “Devo começar primeiro por dizer que Bello Horizonte tem andado, estes ultimos dias, num desengaçar de festas religiosas muito edificantes para a alma; mas muito amolladoras para o corpo!”.188 Camarate, então, descreveu o amanhecer e o acordar forçados pelos estrondos, ribombos, retumbar de foguetes e sinos:
185
RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XIV. Minas Geraes. Ano III, n.120, 6 de maio de 1894, p.2.
186 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XIV. Minas Geraes. Ano III, n.120, 6 de
maio de 1894, p.2.
187 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XXXV. Minas Geraes. Ano III, n.229, 26 de
agosto de 1894, p.3.
188 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XXXV. Minas Geraes. Ano III, n.229, 26 de
De madrugada, muito antes de cantarem os gallos e de cacarejarem as gallinhas, espojando-se na terra e sacundindo as azas para expurgarem os restos de somno do corpo entorpecido pelo dormir de pé e fazendo gymnastica nas instabilidades de um poleiro cylindrico; antes de se erguerem das casas e cafuas essas columnas de fumo azuladas, que indicam desde logo a furia ou serenidade dos ventos para o seguir do dia, funga meia duzia de foguetes, ribombam alguns morteiros com um estrondear que parece zombar das posturas municipaes e dos direitos de propriedade dos senhorios que mantêm os seus casebres em pé, pelas mais inacreditaveis leis de equilíbrio; os sinos multiplicam-se como os pães na mão do Redemptor, e toda a povoação religiosa e profana salta da cama, os primeiros com préces mastigadas a custo nos labios; os segundos murmurando pragas e maldições, capazes de arripiarem o proprio diabo caudato e bicornuto!189
Existiriam mesmo “posturas municipais” que regulamentariam a hora e a sonoridade das manifestações religiosas? Não estaria incorporado à sensibilidade apenas dos estrangeiros daquele espaço essa necessidade de conter e privatizar tais manifestações? O repicar dos sinos não seria um incômodo apenas para os ditos “profanos”? Alfredo Camarate registrou, em seus escritos, o programa da festa. A atenção do cronista voltava-se para a sonoridade:
A’s dez horas, missa cantada e acompanhada pela banda de musica que veio expressamente de contagem para esta extensa solemnidade; sendo louvaveis os esforços que os cantores empregam para se fazerem ouvir e os não menos ingentes exforços de banda marcial, para não inundar as vozes com o hyperbolico estrondear dos seus ophicleides e trombones.
A sahida da missa é um espetaculo muito para ver-se.
A maior parte dos fieis é composta de senhoras, que, na simplicidade do seu trajar, na compostura dos seus gestos e na suave combinação das côres claras dos seus vestidos, produzem uma marcha harmoniosa e variada, que provoca a palhêta de um pintor.
Entre a missa e a festa da tarde, a banda de musica, composta de moços com os mais robustos pulmões que tenho visto na minha vida, apparecem tocando em toda a parte! De longe ou de perto, todo o dia se ouvem polkas, marchas, quadrilhas, dobrados etc., e tem sido tal a escovadella que tem apanhado o tocador de bumbo, que este instrumento supergrave já vae, no couce, às cavalleiras de um crioulo que, vergado para deante, sente a todo o momento os tremeliques da vibração da pelle que lhe echôa por sobre o lombo e os não menores tremeliques do orgulho, por se ver em tão honrosa e sonora posição social... ou instrumental, se assim o tiverem por melhor!
Os foguetes, lançados alternada e economicamente, tambem intervallam as peças de musicas, com os seus estalidos.
À’ tarde, résa, procissão, sermão, fogueira e levantamento de mastro embandeirado, acompanhado de nutridas gyrandolas de foguetes, que têm sido epilogada, por duas rodinhas com côres, para grande satisfação dos festeiros e gaudio da garotada, que as festejam com enthusiastica e atroadora grita!190
189 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XXXV. Minas Geraes. Ano III, n.229, 26 de
agosto de 1894, p.3.
190 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XXXV. Minas Geraes. Ano III, n.229, 26 de
Missa cantada, reza, sermão, banda de música, foguetes, estalidos, polcas, quadrilhas, marchas e dobrados, peças musicais. Esforço dos cantores para se fazerem ouvir, cuidado da banda com o estrondar de seus instrumentos. Robustos pulmões de músicos, penosa experiência do tocador de bumbo, entusiasmada e retumbante alegria da garotada. Essa é, na percepção do cronista, a composição sonora do arraial em festa.
A percepção auditiva de Alfredo Camarate era muito informada pela sua experiência com a música. Há notícias que Camarate contribuiu com a crítica musical e artística no Rio de Janeiro.191 Também são constantes as crônicas publicadas no jornal Minas Gerais que tratam dessa temática. “O ensino da Musica nas escolas normaes”, “Os pianos em Ouro Preto”, “As transformações no piano I e II”, “A companhia de Zarzuleas”, “Duas operas novas o ‘falstaff’ de Leão Verdi e ‘os palhaços’ de Leoncavallo”, “As três companhias lyricas”, “Um gigante sonoro” (falando sobre orgãos), “A nossa banda de policia”, “Composição musical”, “Os instrumentos ungulares” são algumas dessas crônicas musicais.192 Em algumas dessas crônicas, Camarate desempenhou sua tarefa de crítico musical, observando os “defeitos” das companhias musicais e artísticas que se apresentavam em Ouro Preto. Além dessa tarefa de discutir na imprensa questões que tocavam na necessidade de uma educação musical, sonora e estética, Alfredo Camarate apresentou-se como professor de piano e de “theoria musical” nas seções de propagada do jornal oficial.193 É também singular que, em quase todas as crônicas, publicadas em 1893, que têm como temática a música, o cronista não tenha se identificado pelo pseudônimo (Alfredo Riancho), mas pelo nome próprio (Alfredo Camarate). Isso não seria uma estratégia para atrair alunos para as aulas de piano? Os possíveis alunos, ao lerem as crônicas, não se interessariam por ter aulas com alguém que também participasse da imprensa?
Essa percepção sonora, informada pela aproximação com a teoria musical, é perceptível em outras crônicas, mesmo naquelas que não tratam diretamente da temática. Tal aproximação evidencia-se em uma das crônicas dedicadas a observar os aspectos religiosos do arraial. Além de analisar os aspectos arquitetônicos e estilísticos de dois templos do local, Alfredo Camarate teceu comentários sobre os hábitos
191Há indícios da contribuição de Alfredo Camarate no Jornal do Brasil, na Gazeta Musical e no Jornal do
Comercio, periódicos publicados no Rio de Janeiro, nas últimas décadas do século XIX.
192
Essas crônicas foram publicadas ao longo do ano de 1893, no Jornal Minas Geraes, quando Alfredo Camarate chegou a Minas Gerais e se estabeleceu em Ouro Preto.
193 Minas Geraes, 6 de agosto de 1893, n.211, ano II, p.8. “Annuncios – Alfredo Camarate – Professor de
Piano e de Theoria Musical. Recados obsequiosamente recebidos no estabelecimento do Sr. Ferreira Real. Ouro Preto”.
religiosos dos habitantes de Belo Horizonte, ressaltando que “A todas as solemnidades religiosas, a que tenho assistido, sempre houve cantoria. Todos os motetes194 são executados a tres vozes, por um grupo de fieis, que ficam junto ao sacerdote e repetidos, quasi sempre tambem a tres vozes pelo povo”.195 Comentando sobre alguns exemplos de vozes de alguns “cantores” da igreja, Camarate deixou revelar sua formação artística. Ele fez questão de classificar os timbres vocais dos fiéis que compunham o coro e percebeu que havia “uma voz de baixo clara e que, em certos trechos, [mantinha] um pedal de grande bellesa”. Camarate também falou dos fiéis que acompanhavam a missa, salientando que “o povo responde sempre ao primeiro côro, com igual affinação e sobretudo com o imponente effeito das grandes massas coraes”. Ele ainda distinguiu, entre os fiéis, “um meio-soprano-contralto, com uma vóz muito bem timbrada, arredondada nos centros e sempre muito igual em todos os registros”. Somando-se a esses elogios, outros foram dados às vozes dos fiéis: “Está, talvez, perdida, n’aquella grande colectividade de cantores, uma prima donna de primeira ordem. Entre os homens que cantavam no côrpo da igreja, ouvi tambem um barytono e dois baixos cantantes muito aproveitaveis”.196
Apesar dessas qualificações, Alfredo Camarate também diagnosticou que os habitantes do arraial não teriam passado, ainda, por uma educação estética, do corpo e da audição, não possuindo, desse modo, vozes e ouvidos refinados para o exercício do canto, como é o caso de “uma voz de senhora, potente, vibrante, muito affinada; mas tambem com todos os vicios da emissão, aliás muito naturaes em quem nunca cultivou a arte do canto e de mais a mais nas repetidas festas desta igreja dá, em voz, tudo quanto tem e mesmo mais do que era lícito exigir-lhe”.197
O cronista elogiou o sacerdote do local “que muito dado à arte da musica” cultivava regularmente essa prática e, nesse caso, todas “as festas da sua igreja hão de ter sempre o caracter religioso e artistico, que deriva de um bom sacerdote e de um bom amador de música”.198 Em seus escritos, Camarate chama atenção para espaços,
194 Forma de composição musical dos séculos XII-XVII. Canto polifônico religioso ou música religiosa
com letra. Disponível em: <http://www.priberam.pt/dlp>.
195
RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles V. Minas Geraes. Ano III, n.83, 28 de março de 1894, p.2.
196 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles V. Minas Geraes. Ano III, n.83, 28 de março
de 1894, p.2.
197 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles V. Minas Geraes. Ano III, n.83, 28 de março
de 1894, p.2.
198 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles V. Minas Geraes. Ano III, n.83, 28 de março
nesse particular, a igreja, importantes para se apurar os sentidos e promover uma educação estética. Colocou em associação o caráter religioso e o artístico, presentes na celebração de uma missa, local que poderia se configurar como importante espaço para “sensibilizar” ouvidos a determinado tipo de som.
É também singular como Alfredo Camarate projetou uma cidade que vai se tornando cada vez mais musical. Alguns espaços de divertimento foram pensados, e a música estava presente, dando ritmo a uma determinada sociabilidade que se constituía com a crescente urbanização. Depois de instaladas as famílias estrangeiras, passou-se a pensar em outras demandas de uma população que, distintamente dos moradores do arraial, considera o espaço público como principal meio de socialização: “Mas agora, que o stock dos armazens d’aqui se tem avolumado consideravelmente; agora que todos ou quasi todos têm as suas choupanas com modesta garridice de salões, começa-se a pensar no alimento do espirito e, para as senhoras, o alimento do espirito são bailes, musicatas e reuniões de todo o genero; reuniões que se fazem sem programma, porém que o espirito da mulher substitue victoriosamente, com milhares de frivolidades, de bellos nadas; mas que ao adormecer, nos deixam recordações vagas e gratissimas de uma noite deliciosamente passada”.199 Se, antes, no arraial, a igreja e a casa cumpriam esse papel de lugares socializadores, agora os divertimentos e encontros aconteceriam em um espaço impessoal, próprio para o encontro entre desconhecidos, que se encontram por apenas uma noite.
A cidade passava, então, a exigir uma vivência acústica, associada à constituição de uma determinada sociabilidade, a outras formas de divertimento e a novos padrões estéticos e de gosto: “appareceu, em Bello Horisonte, uma lista cheia de nomes de membros da commissão, subscripta com o fim de utilisar os momentos de ocio em dar bailes, reuniões, concertos, naturalmente epilogados por chá, com dôces e torradinhas, que, nesta especialidade, são as senhoras mineiras mestras sabidas como nenhumas outras”.200 O local para essa determinada experiência sonora era pensado: “Ainda não ha sala apropriada; mas esta lacuna tem de naturalmente desapparecer, ou construindo-se um pavilhão de modesto dispendio ou aproveitando qualquer casarão, por meio da restauração de diversos e diversas colaboradoras; seja de que modo fôr, os bailes hão de realizar-se; porque, quando passa pela cabeça da mulher o suave
199 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XV. Minas Geraes. Ano III, n.124, 10 de
março de 1894, p.4.
200 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XV. Minas Geraes. Ano III, n.124, 10 de
rodopiar da valsa, fiquem certos que ella ha de dançar, mesmo que seja em cima do fundo de uma agulha!”.201
O divertimento para a cidade urbana era pensado com a presença da música: “E como a sociedade de Bello Horizonte está com a mão na massa dos divertimentos, procuram-se minuciosamente as cantoras da localidade e entre as recemchegadas; e consta-me que, com esse numeroso supprimento, se tenciona executar uma grande missa festiva, em que se ostentem córos de trinta ou mais senhoras acompanhados pelo bom orgam que tem a igreja que com certesa, nesse dia solemne, enriquecerá as suas alfaias e paramentos, com muitas, dadivas e a sua ornamentação os graciosos e artisticos enfeites, que sabem fazer as senhoras das grandes cidades”.202
Certamente, Alfredo Camarate deveria se envolver com essa preparação dos divertimentos musicados e previa que iria lhe desabar “sobre o lombo, muito ensaio cheio de prolongadas minuciosidades”. Ainda torcia para não lhe “impingirem algum solo de tenor; a mim que, de ha muito, tenho o sol rouco e o lá encantarroado, o si gosmento e o dó de peito, com um pigarro chronico, que o vela com uma deslumbrante e sonora aphonia”, apesar de ter a certeza de que “pela idade e pelas manhas de macaco velho, saber illudir as difficuldades, quando as não posso vencer!”. A estreia do cantor-cronista no arraial é por ele qualificada: “O meu solo de tenor será, portanto, um solo de illusões!” Os divertimentos e uma nova utilização do espaço público antecipariam a inauguração da cidade moderna. Mas, enquanto a cidade fosse ainda um arraial, o dia e a noite, Camarate passaria de outra maneira: “Emquanto se conspiram estas festas de caracter sacro e profano, eu alterno os afazeres de redacção e collaboração de folhas diarias, com passeios matutinos e vespertinos e, nas horas intermediarias, passo o tempo...”.203