A primeira ida à Nova Olinda depois que entrei no mestrado, em abril de 2012, tinha como objetivo maior retomar o contato com a Fundação Casa Grande e mais do que isso, a partir daquele momento, fui também retomando vínculos há tempos desfeitos com os participantes da ONG e criando novos vínculos com outras pessoas.
Julguei necessária a retomada de vínculos, como também a criação de novos, por acreditar que era por meio desses contatos que eu iria tornar minha adaptação ao ambiente da pesquisa de campo de forma mais confortável possível, como também que seria por meio desses contatos que eu definiria boa parte das decisões que tomaria na pesquisa como um todo.
Beaud e Weber (2007) falam da importância dos pesquisados para as definições que o pesquisador precisa tomar para o andamento da investigação,
principalmente dos pesquisados que tornam-se, ao longo do processo, mais próximos do pesquisador.
A pesquisa constrói-se, pois, com a ajuda dos pesquisados ou, para ser mais exato, com a de certos pesquisados, que ajudarão a penetrar no meio, que serão suas cartas de referência junto àqueles que se mostram mais reticentes para encontra-lo. Eles lhe permitirão abrir portas que, sem eles, estar-lhe-iam sempre fechadas, entrar em contatos com pessoas que, de outra forma, você não poderia ver. É a partir deles, aqueles que a literatura etnológica tradicional chama de informantes, e que aqui preferimos chamar de ―aliados‖,
porque não os consideramos como porta-vozes ou representantes, mas sim como associados, que devem ser analisados como tais – que você poderá construir uma relação de pesquisa sólida e capaz de produzir resultados interessantes. (BEAUD e WEBER, 2007, p.84)
Ao longo das 10 viagens realizadas durante a pesquisa de campo, aproximei-me, primeiramente, de dona Toinha e Yasmin, família onde me hospedei na pousada domiciliar por nove vezes e que já citei no começo deste capítulo. Dona Toinha faz parte da Coopagran desde o início da mesma, em 2002, e, além de ter uma pousada domiciliar, também é responsável pelo que eles chamam de lojinha, espaço dentro da ONG dedicado à venda de produtos da Fundação Casa Grande18.
Dona Toinha tem três filhos: Anderson, que todos chamam de Danda, de 21 anos; Cristiano, de 20 anos; e Yasmin, de nove anos. O mais velho é filho biológico de dona Toinha, já Cristiano e Yasmin são adotados. Danda e Cristiano já participaram da Fundação Casa Grande, mas o mais velho saiu quando completou 18 anos para ir trabalhar em São Paulo. Cristiano participou das atividades da ONG, mas também saiu porque precisava trabalhar. Yasmin aparece em fotos e vídeos da TV Casa Grande participando das atividades da ONG desde bebê. Hoje, Danda voltou para Nova Olinda e trabalha, no momento, como gerente de um supermercado; Cristiano trabalha numa loja de aparelhos de celular como vendedor e faz curso de pedagogia na Universidade da Região do Cariri (URCA) na cidade do Crato pela noite; Yasmin é uma das sete crianças que são responsáveis pela recepção no Memorial do Homem Kariri, laboratório do programa de memória da Casa Grande.
Na casa de dona Toinha, além dela e de Yasmin, moram uma sobrinha e a madrinha da menina. Fiama ajuda a tia cuidando da casa enquanto dona Toinha fica na Fundação Casa Grande cuidando da lojinha. Já a madrinha de Yasmin, Gigi, mora na
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Na lojinha da Casa Grande, são vendidas pequenas lembranças da ONG para os visitantes, como blusas, cadernos, marca página de livros, quadros, bonecas de pano, entre outros. Todos os produtos vendidos usam a marca da ONG.
zona rural de Nova Olinda, mas, como ela tem uma loja de variedades na cidade, fica na casa de dona Toinha de segunda a sábado. Além de dona Toinha, Yasmin, Fiama e Gigi, o cotidiano da casa também gira em torno de Cristiano, que mora com a namorada, mas todo dia vai até lá; de Danda, que voltou de São Paulo, mas mora na casa de uma tia; e de mais uma tia de dona Toinha, que vai todos os dias na casa da sobrinha com uma filha e um neto. A cachorrinha da casa, Bilu, completa a família.
Outro vínculo que foi sendo retomado foi com a família de Ravina, jovem de 29 anos que já fez parte da ONG Fundação Casa Grande. Ravina é casada com Aurélio e tem dois filhos: Raíssa, de 10 anos; e Uriel, de dois anos. Raíssa participou da Casa Grande esporadicamente, sem permanecer nas atividades por um período mais longo de tempo. Uriel, mesmo ainda muito pequeno, tem a farda da Casa Grande, mas não frequenta a ONG cotidianamente.
Meu primeiro contato com essa família foi ainda em 2009, quando me hospedei na casa deles em uma das viagens à Nova Olinda. Na época, eles moravam na parte central da cidade e tinham uma pousada domiciliar. Aurélio trabalha numa pedreira que vende pedra cariri19 e é da família dele. Já Ravina, hoje, possui uma loja de produtos para bebê na rua mais comercial de Nova Olinda. Eles deixaram de ter pousada domiciliar porque foram morar numa casa da família de Aurélio, que é mais afastada do centro da cidade, e ficou, segundo Ravina, inviável manter a pousada. Ravina é irmã de Iêdo, que era gerente do museu da ONG até março deste ano, quando saiu da Casa Grande por divergências com algumas orientações de funcionamento da ONG.
A família de Ravina, além de me abrigar na casa deles por duas vezes, em novembro e dezembro de 2013, teve um papel um papel muito importante ao me abrir caminhos até alguns dos seis jovens com os quais eu trabalhei a estratégia de pesquisa de relatos de vida. Ravina não só me apresentou algum desses jovens, como também os convenceu a contribuírem com meus estudos. Saliento que tive o cuidado de analisar cada uma dessas indicações de jovens para participar da minha pesquisa, pois, como aborda Beaud e Weber (2007, p.71), ―seu hospedeiro será seu primeiro aliado e seu
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Pedra Cariri é o nome comercial do calcário laminado encontrado em abundância nas cidades de Santana do Cariri e Nova Olinda, na região do Cariri, no Ceará, e, hoje, é responsável por grande parte da economia dessas duas cidades. A pedra é utilizada principalmente na construção civil para revestimento e pisos, mas também na confecção de mesas e pessoas artesanais.
primeiro informante (e será preciso, na sequência, levar em conta sua posição para controlar e analisar suas informações).‖ (BEAUD e WEBER, 2007, p.71)
1.4 Voltando ao início – da definição do corpus de análise e das discussões teóricas