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Para se entender melhor os conflitos que cercaram Thomas Szasz e Ernest Becker em Syracuse, é necessário também lançar um olhar, mesmo que breve, para alguns pontos importantes que caracterizavam a psiquiatria da época.

Como nos informa Leifer, naquela época a psicanálise estava em ascensão nos Estados Unidos. Durante os anos de 1930, tornou-se cada vez mais popular entre os intelectuais americanos, até se transformar em um quadro de orientação teórica para a psiquiatria, no período pós-guerra (1950). Ainda assim, já apareciam divisões internas dentro da psicanálise desde os anos de 1920, que se acentuaram gradativamente até culminarem em grandes divisões dentro da Associação Psicanalítica Americana, no final dos anos de 1940. Novas divisões continuaram ocorrendo até a década seguinte, mas várias das novas sociedades ou institutos, que haviam se formado até então, decidiram permanecer dentro da associação nacional. Isso era um sinal da coesão e do poder de organização que a psicanálise havia alcançado até aquele momento – coesão essa que continuou crescendo até os anos de 1960.

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LIECHTY, Daniel. Abstracts of the Complete Writings of Ernest Becker, pp. 38-41.

139

Idem, Transference & Transcendence, p. 5.

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Essa foi uma “época de ouro” para a psicanálise, com um grande fluxo de “pacientes motivados à procura de analistas que os tratassem com um conjunto de ideias e uma bússola terapêutica”141igualmente aceitas tanto pelos que continuavam ligados à associação nacional,

quanto pelos seus dissidentes – e ambos os lados procuraram atender essa demanda. As faculdades de psiquiatria por todo o país recrutavam analistas treinados para cargos docentes, ou até para a chefia de departamentos, “com o mesmo entusiasmo, convicção e exclusividade com que hoje contratam neurobiólogos”.142 Foi nessa atmosfera de entusiasmo e poder

organizacional que Thomas Szasz foi contratado para trabalhar em Syracuse, e que Becker decidiu, alguns anos depois, aprofundar-se em estudos de psicanálise.

Outro ponto a se considerar diz respeito ao crescimento e expansão do poder do estado sobre o indivíduo, e sua regulamentação através das leis. De forma bem superficial, Leifer nos aponta que o estado de direito143 limita o poder do estado sobre o indivíduo, o que acaba por provocar a criação de meios disfarçados para contornar essa limitação, a fim de que o estado continue a manter o controle sobre seus componentes individuais, a despeito das leis que o possam restringir. E acrescenta que, “como uma instituição social, a psiquiatria funcionou, historicamente, tanto a serviço do indivíduo quanto a serviço do estado”.144 O que ele quer dizer com isso é que a psiquiatria se aliou ao estado como um agente de controle social disfarçado, e que essa aliança é uma consequência histórica da limitação de poder imposta

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“No final da década de 60, essa onda de entusiasmo já havia alcançado seu pico e toda a confiança, força e unidade da psicanálise começou a diminuir, primeiro dentro da área e depois fora dela. Essa mudança radical no status da disciplina deveu-se a uma convergência de eventos – científicos e interpessoais – que, mais tarde, foram de encontro a condições sócio-econômicas e avanços competitivos em disciplinas contíguas”, acabando por promover o declínio da psicanálise norte-americana (Cf. RANGELL, Leo. “The Theory of Psychoanalysis: Vicissitudes of its Evolution”. In: Journal of the American Psychoanalytic Association, Vol. 50, August 2001, pp. 1109-1137 [1118]. Disponível em: <http://apa.sagepub.com>. Acesso em: 12 out 2009).

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LEIFER, Ronald. The Psychiatric Repression of Thomas Szasz, 2007.

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O termo em inglês usado por Ronald Leifer é rule of law, que é uma máxima jurídica segundo a qual ninguém é imune à lei (Cf. COLE, John et al. The Library of Congress. W. W. Norton & Company, 1997, p. 113). Apenas a título de breve esclarecimento, podemos dizer que, embora o crédito por cunhar a expressão

estado de direito, nos tempos modernos, seja atribuido a A.V. Dicey (Cf. BINGHAM, Thomas. The Rule of Law,

Penguin, 2010, p. 3), o desenvolvimento desse conceito pode ser rastreado, ao longo da história, até a Grécia Antiga, sendo um antigo ideal discutido por filósofos como Platão e Aristóteles. Dizia Platão: “Sempre que a lei estiver sujeita a alguma outra autoridade, e não possuir nenhuma própria, o colapso do estado, na minha opinião, não se encontra longe. Mas se a lei for o mestre do governo e o governo for seu escravo, então a situação é cheia de promessas e os homens gozam de todas as bênçãos que os deuses podem conceder a um estado.” (Cf. COOPER, John et al. Complete Works by Plato. Hackett Publishing, 1997, p. 1402). Da mesma forma, Aristóteles aprovava essa idéia, tendo escrito que "é mais apropriado que a lei deva governar do que qualquer um dos cidadãos; pelo mesmo princípio, se é vantajoso colocar o poder supremo em algumas pessoas em particular, elas devem ser designadas para serem apenas guardiãs e servidoras das leis." (Cf. ARISTOTLE, Politics: A

Treatise on Government – Book 3, Project Gutenberg, 1912, 3:16. Tradução: William Ellis). Em nossos dias, o estado de direito tem sido considerado como uma das dimensões-chave que determina a qualidade e a boa

administração de um país, pelo menos por enquanto. (Cf. KAUFMAN, Daniel et al. “Governance Matters VI: Governance Indicators for 1996-2006”, In: World Bank Policy Research Working Paper, n. 4280, july 2007).

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pelo estado de direito. Mais especificamente, a psiquiatria cumpriu essa função social através do poder, sancionado pelo estado, para rotular certas formas de comportamento desviantes – ou indesejáveis – como doenças e, por meio da internação psiquiátrica involuntária, possibilitar ao estado a detenção de indivíduos contra a sua vontade, alegando que isso ocorria “em nome de sua saúde mental”.145

A descrição de Leifer é uma séria acusação ao uso que a psiquiatria fazia do poder que se encontrava em suas mãos. Quanto à exatidão dessa afirmação, não cabe aqui fazer nenhum tipo de julgamento. O que interessa é que nessa situação, ou na percepção que Thomas Szasz tinha dela, está a raíz de seus conflitos com a psiquiatria moderna. Portanto, as afirmações de Leifer apontam justamente para as percepções de Szasz – e, até certo ponto, para as do próprio Becker – em relação à repressão da liberdade individual através de diagnósticos psiquiátricos.

Segundo Leifer, Szasz pertencia à tradição que via a psicanálise e a psicoterapia “como desenvolvidas a serviço do homem moderno alienado, que necessita de ajuda para resolver ou aliviar os conflitos psicológicos e emocionais causados pela vida secular moderna”.146 Havia sido treinado como psicanalista, mas “se sentia mais confortável no papel de intelectual e crítico do que de médico”.147 Além disso, sua avaliação dos direitos dos indivíduos sob a jurisdição da lei, em uma sociedade aberta (não totalitária), tinha um contexto muito pessoal. Szasz nasceu judeu na Hungria, em 1920, quando o fascismo anti- semita estava em plena ascenção. Sua família, educada e politicamente sofisticada, sabia muito bem “que o fascismo e o comunismo significavam uma hipertrofia do poder do estado e a repressão do indivíduo, especialmente do indivíduo judeu”.148 Havia fugido de seu país de origem junto com seu irmão, em 1938, pouco antes da guerra eclodir. O resto da família fugiu logo em seguida e, após viajarem até Paris, embarcaram para os Estados Unidos, onde puderam viver tranquilamente. Lá, o jovem Szasz conseguiu estudar, formando-se em medicina. Na América, ele acreditava viver em um país livre, sem o fantasma fascista respirando em sua nuca. Logo, a mera possibilidade de repressão ou supressão da liberdade individual, inclusive a acadêmica, certamente estava fora de questão.

Nesse contexto, Szasz não podia mesmo concordar com o poder que o estado sancionava à psiquiatria estabelecida, que restringia a liberdade dos indivíduos contra a sua

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LEIFER, Ronald. The Psychiatric Repression of Thomas Szasz, 2007.

146 Ibid., 2007. 147 Ibid., 2007. 148 Ibid., 2007.

vontade, sem que tivessem cometido qualquer crime e sido julgados por isso. Sua crítica, portanto, era dupla: discordava veementemente da função política da psiquiatria, como agente de controle social, assim como da ideologia que justificava e facilitava essa função política, ou seja, o modelo médico de psiquiatria.149

Para complicar a situação, a psiquiatria acadêmica usava pacientes mentais confinados involuntariamente como um recurso de ensino; e eram psiquiatras acadêmicos que geralmente administravam as instalações onde esses pacientes ficavam internados. Em Syracuse, não era diferente: Marc Hollender via o hospital psiquiátrico como o carro-chefe do departamento, pois possibilitava a prática direta daquilo que era ensinado na faculdade; ou seja, o hospital era amplamente dependente desses pacientes involuntários, tanto por conta do financiamento estatal, como pela necessidade da posse de objetos de estudo. Logo, Hollender não poderia concordar com as críticas de Szasz ao modelo médico de psiquiatria que ele próprio administrava no hospital. Os conflitos ideológicos entre Szasz e a psiquiatria estabelecida acabaram por se transformar em conflitos acadêmicos e pessoais com Hollender, “um alimentando o outro até que o departamento se viu dividido em dois campos hostis”.150