Pretende-se descrever as metodologias e técnicas usadas na recuperação da Ponte Dom Zameiro.
5.3.1. Descrição da Ponte
A Ponte é constituída por uma estrutura em alvenaria de pedra de granito apresentando uma configuração em planta e perfil longitudinal irregular, cujo comprimento total é de cerca de 125 m e a largura média é de 4.30 m.
Fig. 5.38 – Planta esquemática da ponte
Fig. 5.39 – Alçado esquemático da Ponte – Lado de montante
A Obra de Arte é constituída por 8 arcos desiguais, sendo todos de volta perfeita, excepto o penúltimo arco visto de montante que é um arco em ogiva (Fig. 5.40). Os arcos apoiam-se em pilares de cantaria dotados de talhamares com configuração triangular a montante e quadrangular a jusante (a maioria). Os guarda-corpos da ponte são em cantaria e o pavimento é ligeiramente rampeado e antes da última intervenção era constituído por um lajeado serrado de granito, mas com a última reabilitação recolocou-se o pavimento original de cubos de granito.
Fig. 5.40 – Vista de jusante da Ponte, arco em ogiva
Fig. 5.41 – Vista montante da Ponte Fig. 5.42 – Vista sobre a Ponte, lajeado de granito
5.3.2. Enquadramento histórico e intervenções na ponte
A Ponte D. Zameiro é uma ponte românica que foi construída nos séculos XII e XIII e fazia parte do antigo eixo viário que as inquirições de D. Afonso III, de 1258, chamam de “Via Vetera”.
A ponte que actualmente existe é o produto de uma (re)construção da época medieval, com grande probabilidade executada no século XII, uma vez que o testamento de D. Fernando Martins, de 1185, já a refere, e outras indicações da primeira metade do século XIII confirmam a sua existência.
A configuração actual da ponte revela algumas marcas de intervenções passadas, que sugere que determinados componentes estruturais foram construídos em épocas distintas. Refira-se o facto de a ponte apresentar um arco em ogiva quando todos outros são semi-circulares e os talhamares se encontrarem desligados da restante estrutura.
Tendo em consideração a geometria do arco, supõe-se que esta configuração se deve provavelmente a uma eventual reconstrução da ponte durante o período gótico e que os talhamares deverão ter sido construídos em 1960 com a finalidade de se melhorar as condições estruturais da ponte face ao caudal do Rio Ave.
A ponte foi alvo de intervenção nos anos 90, havendo registo de que foram feitas as seguintes obras de conservação: corte de vegetação e consolidação de algumas fendas.
Em Março de 2001 verificou-se o colapso parcial da ponte na sua margem esquerda, mais propriamente no pilar situado entre o 2º e 3º arco e a ruína de parte do 3º arco, tendo sido alvo de uma intervenção durante os anos de 2003 e 2004. Este acidente deveu-se essencialmente a uma combinação de más condições climatéricas e aumento do caudal do rio Ave (Fig. 5.43). Como se pode constatar, esta ponte tem sofrido sucessivas roturas parciais ao longo dos tempos, a última das quais aconteceu em Outubro de 2004 quando fortes chuvadas na bacia do rio Ave provocaram uma cheia repentina, tendo provocado a ruína dos pilares 6º e 7º da margem direita (Fig. 5.44).
Fig. 5.43 – Estado da ponte após
colapso de 2001 Fig. 5.44 – Estado da pontes após colapso de 2004
Este colapso ocorreu enquanto decorriam as obras de construção do açude localizado a jusante da ponte, que implicaram a execução de uma ensecadeira no leito do rio na margem esquerda e a montante da Ponte, obrigando a água a escoar-se pelos arcos mais pequenos junto à margem direita.
A capacidade limitada de escoamento daqueles arcos implicou a subida da cota das águas, as quais passaram a exercer um impulso horizontal importante nos pilares da Ponte e geraram o início de um processo de derrube e de funcionamento em flexão horizontal do troço de Ponte afectado. Flexão que levou à abertura de fendas entre as pedras de alvenaria e ao derrube parcial da Ponte.
Poderão também ter ocorrido problemas de infra-escavação nas fundações dos pilares, motivadas pelo aumento da velocidade do escoamento devido ao excessivo caudal do rio, criando vórtices que originam escavações na base dos pilares.
Na sequência da rotura parcial da ponte foi elaborado um projecto de reparação que teve por base o relatório de inspecção efectuado à estrutura e as inspecções subaquáticas realizadas às fundações dos pilares.
5.3.3. Estado da obra antes da intervenção
As patologias observadas na inspecção visual realizada em 2005 foram semelhantes às identificadas na inspecção de 2002. Apresenta-se de seguida os tipos de anomalias identificados relacionando-os com o elemento estrutural em que foram observadas.
Arco
Vegetação / poluição biológica Humidade e presença de água no
material de enchimento
Perda de argamassa nas juntas
Degradação do material pétreo Abertura de fendas longitudinais Ruína de elementos
Tímpanos
Vegetação e Abertura de fendas Abertura de fendas e deslocamento de elementos
Apoios Intermédios e encontros (hasteais)
Vegetação / poluição biológica Perda de argamassa nas juntas Infra-escavação
Quebra-rios
Vegetação / poluição biológica Abertura de fendas Ruína do quebra-rios
Fig. 5.45 – Principais patologias da Obra de Arte por elemento estrutural
5.3.4. Metodologias adoptadas na reabilitação da ponte Os principais trabalhos executados foram os seguintes:
A. Reconstrução dos elementos estruturais: talha-mares, de arcos, de pilares, de guardas e de paramentos em alvenaria de granito.
B. Limpeza de eflorescências, de vegetação, de raízes e de colónias biológicas quer na ponte quer no leito do Rio.
C. Refechamento de juntas. Remoção de argamassas de cimento, limpeza e reposição com nova argamassa nas juntas da alvenaria de granito. Limpeza de resíduos de argamassas de cimento na alvenaria de granito.
D. Reforço dos arcos com tirantes em aço, de modo a garantir um confinamento transversal dos elementos estruturais.
E. Consolidação do intradorso dos arcos e fendas.
F. Enchimento dos cofres através da sobreposição de camadas compactadas utilizando uma mistura de solo-saibro, regados com uma calda do tipo “Albaria Allentamneto” , reposição de membranas de impermeabilização, de infra-estruturas e de pavimento.
G. Reposição do pavimento em paralelo de granito e execução/reparação de uma drenagem eficaz no Tabuleiro.
As imagens que se seguem pretendem ilustrar alguns dos trabalhos executados durante a empreitada.
Limpeza e remoção da argamassa
de cimento Limpeza da ponte Numeração das pedras
Colocação de um testemunho Montagem do cimbre do arco Reconstrução do arco
Reconstrução do muro tímpano Colocação de agrafos Reforço dos arcos com tirantes
em aço
Fig. 5.46 – Trabalhos de reabilitação e reforço realizados na Ponte Dom Zameiro.
Tendo em consideração o interesse histórico da Ponte Dom Zameiro, procurou-se durante as intervenções realizadas, garantir a estabilidade estrutural dos elementos afectados sem descaracterizar a arquitectura da obra, tentando deste modo não se alterar o valor estético e histórico da ponte.