Para Antônio Houaiss (1983), a língua portuguesa do Brasil em sua transmissão e uso é uma língua de cultura, pois tem a tradição escrita, capaz de lidar com quaisquer temas de quaisquer tempos e lugares, temas humanos e divinos, científicos ou poéticos,
particularistas ou universalistas, permitindo-lhe aspirar ao estatuto de língua de cultura de ponta.
Apresenta a língua de cultura como um universo de práticas de comunicação e expressão linguageiras que se fazem compreender dentro de certos níveis de análise, mais ou menos numerosos, explicando que, por ser de cultura e cultura gráfica, escrevem-se milhares de frases nessa língua, independentemente de território. O nível ou eixo da extensão geográfica não interfere em textos escritos.
A língua vernácula é a que se aprende em casa desde o nascimento e é praticada por uma maioria, gera uma unidade conivente com as diversidades de línguas e dialetos, sendo adquirida no convívio sociocultural, a partir do nascimento e é dominada entre 12 e 13 anos, em um processo de aquisição que ninguém ensinou, corrigiu ou orientou.
As línguas de cultura, no entanto, consolidam-se pela transmissão sistematizada, ministrada na escola; sendo, pois, o aprendizado decorrente de uma complexa organização social; acontecendo, ao mesmo tempo, aprendizado da língua e aprendizado de conteúdos (cognitivos, filosóficos, ideológicos) da língua de cultura.
Sabe-se que a língua é específica do ser humano, que depende do momento cultural do povo que a fala ou a escreve. Mas se sabe que nem o povo é aquilo que a língua e a cultura revelam, nem a língua em causa é assim sempre, nem a cultura em causa deixa de ser fenômeno cultural e, por isso, historicamente condicionado e em transformação, a potencialização e a atualização das suas variedades funcionais são fatos de sua história cultural.
Todas as línguas do mundo são, em sua estrutura e tipologia, aptas a exprimir os fatos humanos, desde que trabalhadas culturalmente para esse fim. Não existe língua superior porque retrata um pensamento científico. A superioridade aparente de uma língua sobre outra é uma superioridade cultural.
As línguas não diferem na sistemática e na estrutura, mas no vocabulário e na pragmática de uso. Há dois milagres linguageiros humanos: um positivo que é a isonomia sistêmica das línguas e outro negativo que só algumas línguas foram eleitas.
Conforme A. Houaiss (1992), isonomia estrutural das línguas e sua heteronomia cultural fazem com que, virtualmente, todas as línguas sejam capazes de exprimir o que qualquer outra exprima, mas admite que algumas atingiram um estágio cultural qualificativo e quantitativo que lhes permitem exprimir o que outras não conseguem fazer.
A isonomia estrutural postula uma heteronomia cultural. Mas, se o homem levar em conta a axiologia ou valor das culturas humanas em confronto, ética, estética e cientificamente, concluirá que as culturas têm uma isonomia, ou seja, nenhuma cultura humana é superior à outra, que possa justificar a extinção de uma considerada inferior pelos benefícios que lhe trará a chamada superior.
Há três estágios histórico-culturais linguageiros: o primeiro vai de 3 trilhões de anos há 50 mil anos; um segundo, de 50 mil anos há 6 mil anos, período em que aparece o estado e a divisão de classes, que privilegia a contabilidade, a mnemônica oral que se associa à palavra; o terceiro, em que ocorre a formalização da literatura oral através da literatura escrita, pois o linguajar mnemônico oral, as formas fixas, antecederam as formas escritas. Este estágio foi marcado pela invenção da escrita.
Este fato tem por conseqüência a transformação da literatura oral em escrita, determinando a posição de algumas línguas como de ponta e o esmagamento de línguas ágrafas. Muda o conceito de reserva gráfica e mudam a mnemônica, a memória, a capacidade de reportar-se, de referir-se, de lembrar-se do próprio homem.
As línguas modernas de cultura não possuem as mesmas perspectivas em relação ao futuro. Agrupam-se em duas situações distintas: há línguas de cultura em que os suportes geográficos e demográficos são ponderáveis, por exemplo, inglês, russo, português; há línguas de cultura em que seus suportes culturais não estão apoiados por uma política específica de culturalização crescente dos seus usuários, como o português, com a lusofonia.
Ao se tratar do português, pode parecer uma preocupação desnecessária, pois não faltam aqueles que argumentam que ela é a sétima língua mais falada do mundo, potencializando um bilhão de habitantes, sem falar no potencial africano que tem no português um instrumento de comunicação veicular e cultural, quiçá da própria língua de cultura.
As línguas de cultura incorporam três grupos: grupo de línguas de cultura de ponta em expansão, como inglês; grupos de línguas de cultura estáticas, tais como as escandinavas e grupos de línguas de cultura jiboiantes, que, por deglutirem territórios e povos, não entram na modernidade, como o flamengo e o holandês em bilingüismo com o inglês.
A. Houaiss apresenta como critério ideal de pesquisa, o que se norteia pelo critério de igualdade, explicando que, no plano do coloquial, oral, a pragmática linguageira é dialetizada, ficando dependente da pragmática literária e quanto mais alto
o nível social dos falantes, mais unificação ocorre. No tocante à escrita, que é universal, as variedades da lusofonia são quase imperceptíveis.
Em síntese, ser língua de cultura é realçar a face falada e, principalmente, a face escrita. Ser língua escrita é dizer a possibilidade de se dirigir a interlocutores que sejam universais na lusofonia ou de campanário, que se buscam na expressão falada.
Para C. Cunha (1985), a língua portuguesa é trazida para o Brasil em duas modalidades: a oral e a escrita. A modalidade escrita segue os padrões cultos. Tanto é verdade que o Padre José de Anchieta, espanhol, escreve poemas, cartas e sermões em português, segundo a norma literária do tempo e, embora seja a sua segunda língua, domina-a com conhecimento.
Os países soberanos possuem uma norma culta nacional, mas são conscientes da existência das normas regionais, pois unidade lingüística não pressupõe uniformidade normativa; logo, é essencial reconhecer a liberdade normativa.
A gramática nunca se descuida da regra, sua companheira, e, com o surgimento do gerativismo transformacional, ganhou nova força. A Norma, no final do século passado, transmigra do campo conceitual de bom, justo, desejável para o habitual, freqüente, usual. Transportados esses termos ao campo lingüístico, assumem o sentido contrário de anômalo (irregular), desvio em relação a uma média. Norma e normal passam a transmitir conceitos descritivos; anômalo transmigra para a área normativa.
A norma passa a se identificar com o bom uso da língua e confunde-se com a própria língua. O “bon usage”, no século XVII, é a forma lingüística empregada pela parte mais sadia da Corte e pelos melhores escritores, refletindo as características socioculturais e ideológicas da época. Celso Cunha apresenta a palavra norma empregada em dois sentidos: um em uma situação objetiva e estatística, fruto da observação; outro, relacionado a uma atitude subjetiva, envolvendo um sistema de valores, fundamentando-se em E.Coseriu.
E. Coseriu (1979), em seu conceito de norma, substitui a dicotomia saussuriana
langue e parole, língua e discurso pela divisão tripartida de sistema, norma e fala. Sistema é uma entidade abstrata, um conjunto de oposições funcionais, de estruturas em oposição, realizável sob formas socialmente determinadas e mais ou menos constantes, que configuram a norma.
Norma é uma série formalizada de realizações tradicionais, a língua como instituição social. Vale dizer: uma atuação coletiva do sistema. Esses conceitos substituem a noção de langue. A fala consiste na realização individual, concreta da
norma, implicando a originalidade expressiva dos locutores, correspondendo ao discurso saussuriano.
Por se constituir em um conjunto de possibilidades do falar de uma comunidade, o sistema permite uma infinidade de realizações, mas que não alteram as condições funcionais do instrumento lingüístico. A norma se impõe ao indivíduo, limitando sua liberdade expressiva, restringindo as possibilidades oferecidas pelo sistema. Consiste no que se diz tradicional e usualmente.
Para E. Coseriu, uma norma não é superior, nem inferior à outra, é apenas igual ou diferente, não tem conotação valorativa. Ela varia do ponto de vista diatópico (português de Portugal, de Angola, do Brasil) ou do diatrástico (linguagem culta, média, popular) e do diafático (linguagem poética da prosa).