Os dias para Coensino na sala de aula da P2 foram quartas e sextas-feiras das 13 às 17 horas, em um desses dias, na quarta-feira, a turma da P1 tinha aula de educação física. Contudo as professoras da sala de aula comum e da educação especial não puderam usar todas as quartas-feiras para o planejamento do Coensino, pois a coordenadora da escola, também, aproveitava esse tempo para conversar com a P1 sobre os alunos da turma; a pesquisadora só era convidada a participar dessa conversa apenas nos momentos em que conversavam sobre o A2-SC.
[...] a coordenadora e a P1 reuniam-se na sala de aula, mas em poucos momentos fui chamada à conversa, apenas quando era assunto referente ao A2-SC. Sentia-me meio deslocada, era um horário em que todas as salas de aula estavam em atividade, a biblioteca estava cheia de alunos, não tinha para onde eu ir, às vezes ficava em pé na porta da sala ou sentada em um canto arrumando os materiais de pesquisa: diários, folhas de registro, correção de atividades, elaboração de outras [... ]. A P2 sempre pedia desculpa pelo fato de não me chamarem para conversa, apesar de que ela [a P2] fazia de tudo para que a coordenadora me chamasse. [...] Nesses momentos pensava nos autores do Coensino e no quanto eles relatavam a importância do apoio por parte da gestão escolar [...] pensava também que se o professor da educação especial fosse da escola, funcionário da rede, talvez a postura da coordenadora fosse outra [...] (PEE/P)
O primeiro contato com a sala de aula da P2 aconteceu no dia seis de abril do ano de 2011, uma quarta-feira. Era uma sala arejada, bem organizada, possuía um armário, uma mesa para a professora e carteiras para os alunos. Nas paredes desse ambiente estava dependurado um cartaz grande contendo quatro regras da sala de aula: 1-Respeitar os colegas, a professora e os funcionários da escola; 2-Fazer todas as atividades sem conversar; 3- Ficar em silêncio quando alguém estiver conversando e levantar a mão para falar; 4- Ir ao banheiro antes da aula e durante o recreio e mais três cartazes menores escrito: Organizar a sala; Silêncio e Formar fila. A disposição dos alunos na sala de aula da P2 e o a fotografia do cartaz estão representados nas ilustrações que seguem.
Nessa sala estudavam ao todo 22 alunos na faixa etária entre sete e oito anos. Sobre esse número de alunos a P2 relatou que “É complicado! [...]15 alunos seria adequado, nos casos de inclusão. [....].” (Relato da P1 registrada no diário de campo, 06 de abril de 2011)
A2-SC frequentava a escola desde os quatro anos de idade, estava inserido em uma sala de aula comum no segundo ano do ensino fundamental na rede de ensino municipal. A2-SC, naquela época, tinha sete anos, com deficiência intelectual, mas sem diagnóstico sobre as causas, fazia uso de remédios controlados, teve problemas aos nascer, dificuldades para andar e falar. Frequentava uma instituição especial e a SRM para o AEE na mesma escola onde estudava e no mesmo horário da aula, após as 15 horas. Embora, a Resolução CNE/CEB n.4/2009 afirme em seu Artigo 5º que esse atendimento deva acontecer [...] no turno inverso da escolarização, não sendo substitutivo às classes comuns, [...]. (BRASIL, 2009, p.2)
A explicação dos gestores para esse fato é que esse aluno frequentava uma instituição especial no turno matutino e, esse horário, depois do intervalo na escola comum, foi a alternativa encontrada para que A2-SC pudesse participar do AEE oferecido na SRM dessa escola. Sobre esse acontecimento, a P2 relatou na entrevista inicial que:
Minha experiência tem sido muito difícil e tenho pensando muito se essa inclusão deveria acontecer nesse caso, dessa forma [...] Não tenho problema de trabalhar com A2-SC, mas preciso alguém me apoiando [...]. O currículo até agora a gente não conseguiu adaptar, a avaliação do aluno eu não recebi! Ele em si não é um problema, mas falta apoio da escola! [...] espero que com nossa parceria ele deixe de ir para SRM e fique na sala de aula conosco, ficar na sala de aula apenas meio período não acho que seja a solução! (P1 – SALA DE AULA DA P2 – ALUNO A2-SC
entrevista inicial – sobre o aluno A2-SC participar da SRM no mesmo turno da sala de aula comum)
Antes do Coensino a P2 buscava adaptar algumas atividades para A2-SC, mas sua grande dificuldade era o comportamento inadequado que o aluno apresentava.
A2-SC sobe na mesa, bate nos colegas, quer sair da sala, não respeitas as regras de convivência [...] vivo essa situação: eu tenho que discipliná-lo e ao mesmo tempo continuar a aula e isso vira o caos. Eu fico quebrada [...] pedi socorro. Tentaram me ajudar, mas da forma como eles (coordenação) fizeram não acho certa, pois colocaram cinco estagiárias na minha sala, como se isso fosse resolver o problema [...] foi pior, ele fica mais agitado ainda com tanta gente tentando detê-lo [...] as estagiárias nem sempre sabem como agir! (P2 em entrevista inicial – sobre o comportamento do aluno A2-SC
Durante as primeiras semanas de observação verificou-se que realmente A2-SC tinha um comportamento inadequado: corria pela sala de aula o tempo todo, não realizava as atividades propostas e ainda amassava-as ou rasgava-as, não se concentrava e gostava de chamar atenção: cuspindo nos colegas, rasgando cadernos e livros dos colegas e saindo da sala de aula sem permissão. Ou seja, era um aluno que não internalizava nenhuma das regras da sala e da escola.
Em um desses episódios ao ser repreendido pela P2, A2-SC pegou um pedaço e de giz e começou a comer. Os colegas ficaram agitados, pediram que A2-SC não comesse o giz, a P2 olhava para a professora de educação especial com um olhar de desespero. A2-SC se escondeu embaixo de uma carteira com a boca cheia de giz enquanto todos pediam que ele não engolisse o giz. Nesse momento a professora de educação especial disse: “A2-SC, você colocou o giz na boca? Quer comer giz?” – o aluno balançou a cabeça afirmativamente – “Então, pode engolir o giz!” - disse a PEE/P – ao ouvir isso, A2-SC saiu debaixo da carteira correndo e foi para porta da sala cuspir fora o giz. A P1 disse que jamais teria essa atitude, mas a PEE/P explicou-lhe:
“ [...] o que A2-SC queria era chamar atenção e estava conseguindo, por isso agir assim, ele não queria realmente comer o giz, se não já teria feito [...] nesses dias que estou em sua sala estou percebendo o quanto A2-SC quer chamar sua atenção e a dos colegas com comportamentos inadequados [...] vamos tentar mostrar para ele que vamos lhe dar atenção quando ele fizer um comportamento adequado. (trecho de uma conversa entre P2 e PEE/P sobre o comportamento
inadequado do A2-SC – registrado no diário de campo, 29 de abril de 2011)
Com relação ao comportamento do A2-SC, as professoras P2 e PEE/P buscaram estratégias que pudessem diminuir esse comportamento, tais como: A2-SC, assim, como acontecia com os demais alunos da sala, passou a ser, em um dos dias da semana, o ajudante da turma junto com outro colega. Essa estratégia já era utilizada pela P2 com os alunos da turma, mas não com o A2-SC por conta do seu comportamento. Ao perguntarem para o A2-SC se ele queria ser um dos ajudantes da sala, o aluno correu para o armário e foi pegando os livros para entregar aos colegas.
A2-SC foi chamado pelas professoras que lhe explicaram que teria seu dia de ajudante, mas que teria que dar exemplos aos colegas sobre ir e voltar do banheiro direto para a sala; de sair para beber água apenas quando realmente sentisse necessidade; não cuspir mais nos colegas, realizar as atividades. Uma estratégia simples que deu certo, pois A2-SC passou a se comportar melhor, ainda tinha seus dias de agitação, mas melhorou bastante, inclusive respondendo aos colegas que pediam para ir ao banheiro dizendo: “Não, pode não! Senta!”
Com objetivo de que o A2-SC se concentrasse mais durante as atividades em sala de aula, as professoras buscaram materiais didáticos que chamaram a atenção do aluno: jogos didáticos, alfabeto móvel, material concentro como o material dourado e o ábaco para realizar as atividades de matemática junto com os demais colegas. Conforme ilustração a seguir, a P1 ensinando o A2-SC a usar o ábaco.
A2-SC USANDO OS MESMOS MATERIAIS QUE OS DEMAIS COLEGAS E SENDO ORIENTADO PELA P2
Outro fato que colaborou para diminuição do comportamento inadequado do A2-SC foi o atendimento fonoaudiológico, indicado pela PEE/P, pois A2-SC tinha uma linguagem comprometida, com os atendimentos passou a se comunicar de maneira mais legível, favorecendo com isso dialogo entre os professores e demais colegas. Buscou-se também uma parceria mais efetiva com os familiares do aluno no sentido de realizar atividades didáticas em casa, mas devido A2-SC participar de uma instituição de Educação Especial no turno oposto ao da escola comum não tinha tempo de realizar atividades pedagógicas em sua residência com o auxílio dos pais e ou responsáveis.
A mãe de A2-SC declarou que, além do seu filho não ter tempo para realizar atividades em casa, que o interessante seria que ele [A2-SC] ficasse na instituição o dia todo, pois na visão dessa mãe: [...] na escola ele não aprende nada [...] é só reclamação e, lá na APAE eles não me dão queixa dele [...] aqui na escola sou chamada pelo menos uma vez da semana [...] não tenho tempo para isso! (Relato da mãe do A2-SC registrado em diário de campo da pesquisadora)
As mudanças, em termos pedagógicos, em A2-SC foi lenta, pois primeiro buscou-se melhorar os aspectos do comportamento, para depois intervir no âmbito pedagógico. Com as estratégias para melhoria do comportamento, que teve a colaboração de outros profissionais da escola e de fora da escola, A2-SC melhorou consideravelmente tanto no aspecto acadêmico quanto social.
Os resultados das avaliações do A2-SC refletem esse desenvolvimento, pois o aluno que antes apenas rabiscava passou a escrever com letras do nosso sistema alfabético, escrever seu primeiro nome sem auxílio da ficha de identificação, a respeitar a regras da sala de aula e a se concentrar durante as atividades. A diferença do tempo de duração da primeira avaliação para a avaliação final reflete no comportamento do A2- SC, pois a primeira, durou dois minutos, enquanto a última durou cerca de 20 minutos, o que revelou também o engajamento do aluno na atividade proposta.
O aluno A2-SC chegou ao final do ano letivo sendo também um dos ajudantes da sua turma, assim como os demais alunos; e, saia da sala só quando necessário. Concentrava nas atividades, ampliava e melhorava seu vocabulário dia a dia. Ele já reconhecia todas as letras do alfabeto, fazia cópias contextualizadas, apresentava- se nas festividades da escola. Às vezes voltava a ser aquele menino do início do ano, mas quando era chamado à atenção ria da situação, pois entendia que não precisava
mais “comer giz” ou “cuspir nos colegas” para ter a atenção da suas professoras e dos seus colegas de turma! Sobre o desenvolvimento e a parceria a P2 relatou que:
Não foi fácil chegar com A2-SC até aqui, muitas estratégias foram montadas e desmontadas, pois o aluno ou a turma não se adaptava [...] Aos poucos delegamos responsabilidades ao aluno e, ele sentiu- se parte da turma, [...] os demais alunos também receberam o auxílio da professora de educação especial, isso fez com que eles entendessem que não era o A2-SC que tinha duas professoras, mas a turma [...] se não fosse pela colaboração eu não teria conseguido sozinha, não teria como fazer sem o apoio! (P2 – trecho da entrevista final)
A P2 disponibilizava o planejamento com o conteúdo a ser ministrado durante o bimestre. A partir desse planejamento e com bases nas avaliações realizadas, as atividades para o A2-SC eram elaboradas. De início foram atividades de coordenação motora fina, aos poucos foram introduzidas atividades mais contextualizadas: letra inicial, relação numeral quantidade. A seguir, os exemplos das primeiras atividades pedagógicas realizadas pelo A2-SC.