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A socióloga Irlys Barreira afirma que “os centros urbanos cada vez mais aparecem como expressão de zonas emblemáticas de cidades” e que eles

“evocam o passado”, quando exerciam o “papel de agregar funções administrativas e comerciais” (BARREIRA, 2010. Pág. 255-266)

No caso do centro urbano de Macapá, situado no entorno da FSJM a função administrativa governamental desapareceu, migrando espacialmente para outro ponto da cidade. Mas o centro comercial permaneceu até hoje, embora tivesse sido destruído pelo fogo, como informa a Revista Latitude Zero.

Ainda permanece na lembrança do povo desta cidade de Macapá a catástrofe ocorrida no dia 28 de novembro de 1967. Às 20h30 daquele dia a cidade foi surpreendida pelo alarme de um incêndio, que consumiu toda uma quadra do bairro comercial (Revista Latitude Zero, Nº 01, 1969. Pág. 39).

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A revista informa ainda que o fogo se alastrou porque todas as casas comerciais eram de madeira, mas que dois anos depois a maioria dos comerciantes construiu modernos prédios de alvenaria, modificando a paisagem da cidade (Idem). Em julho de 1975, outro incêndio de grandes proporções destruiu outra parte da área comercial de Macapá.

Mais tarde, a partir da década de 1970 até os meados da seguinte, o Governo do Território, então administrado por oficiais da Marinha, mandou aterrar toda a área de praia que ficava em frente da cidade, a partir de recomendações dos planos diretores encomendados por eles, numa tentativa explícita de intervir na paisagem para recuperar as áreas alagadas que sofriam a influência das marés. Com isso desapareceu a Doca da Fortaleza e os seus barcos foram aportar na enseada do Igarapé das Mulheres, situado ao norte da orla macapaense.

Desse lugar emblemático para o povo macapaense restou apenas a lembrança, expressa em versos e prosa e nas telas de pintores que vivenciaram a sua existência.

A Doca da Fortaleza, área que abrigava as embarcações que chegavam do interior para abastecer a cidade com produtos agrícolas e agropecuários, por ser uma área importante para a cidade e amplamente divulgada por meio de imagens pictóricas, também mereceu o registro de um cronista.

A Doca da Fortaleza, em Macapá, muito se assemelha à Doca de Belém e a de outros portos aonde chegam e saem os pequenos barcos à vela, em nossa costa marítima.

Há sempre o colorido das velas, a poesia dos barcos partindo e a alegria dos barcos voltando, como na canção popular. A Doca da Fortaleza tem muita coisa para se ver, comprar, admirar. É gente passando, é o grito do homem que vende melado ou anuncia a farinha torrada. É o grito do vento e o cheiro do rio, do grande rio-mar.

Também há o cheiro do peixe e da carne salgada, do assado de braza, do barco parado com a quilha na lama, esperando a maré. E enquanto a maré não vem os barcos, como grandes aves aquáticas, estendem suas velas para o vento secar.

O caboclo uma rêde de pesca e outro passa cheio da mutamba, depois de haver gasto o dinheiro apurado com a venda do açaí. Noutra canoa um casal caboclo, queimado de sol, está ternurando no mormaço. A Doca da Fortaleza tem muita coisa para ver e amar. Também pra contar e cantar. É só olhar com olhar de poeta, do poeta das docas, do homem-menino que gosta de mar.

E quando a noite chega do outro lado da baía, surge uma lua imensa e ilumina o silêncio da doca adormecida. As águas ficam prateadas e a sombra dos barcos desenha figuras impressionistas. Pela manhã, o sol acorda o caboclo estremunhado e a vida recomeça. É vaso de barro, é pote de mel, é peixe salgado, é fruta gostosa, é tanta coisa para ver e amar...

A Doca da Fortaleza na realidade é um posto de abastecimento comum nas cidades ribeirinhas da Amazônia. Antes do seu desaparecimento em função do aterro da frente de Macapá, ocorriam ali as transações comerciais e muitas atividades relacionadas à economia. Por ser um porto, havia prostíbulos e bares, o que levou o cronista a falar sobre a mutamba (árvore/ fruta), uma gíria para a cachaça e talvez uma analogia ao óleo dessa fruta, usado para pentear cabelos. Na realidade a Doca era uma espécie de retrato identitário do povo da região que aportava à sombra da FSJM e nela espelhava todos os seus costumes amazônicos interioranos.

Mesmo que os planos urbanísticos dos governos não fossem cumpridos em seu planejamento inicial, a área do entorno da FSJM sofreu sucessivas modificações, principalmente pelos aterros que se prolongaram após a transformação do Território em Estado: o governador Annibal Barcellos, primeiro governador eleito, mas que havia sido governador do Território por seis anos, construiu rampas para atracação de barcos ao sul da FSJM e aterrou toda a extensão do bairro de Santa Inês até o do Araxá que, somado ao aterro do bairro Perpétuo Socorro, espalha-se por 8 km de orla aterrada e urbanizada.

Os incêndios e os aterros da área da Doca da Fortaleza parecem ter exercido um efeito devastador na memória dos habitantes locais. Fora como se

um cataclismo tivesse passado pela cidade num tempo real, diferente daquele do mito de Mairi, dos índios waiãpi. Foi como se toda a memória ficasse soterrada após uma avalanche de terra e piçarra que se espalhou pela borda do rio-mar – O Grande Paraná – para conter as pancadas das ondas trazidas pelo vento forte das manhãs equinociais.

O fato de milhares de habitantes da cidade morarem próximo ao rio, em áreas de risco e quase insalubres, levou os sucessivos governos a melhorar obrigatoriamente as condições de vida dessa população, já que se recusaram sair da área para bairros novos e distantes. Há, ainda hoje, uma hipótese para justificar as constantes invasões que nelas ocorrem, como no bairro Perpétuo Socorro, por exemplo. Dizem que o migrante ribeirinho não quer se separar da beira do rio, o que constitui um modo de afirmar a sua própria identidade amazônica.

Deve ser considerado aqui, também que o poder dos militares foi crucial para que construíssem o Círculo Militar de Macapá, ou melhor que uma invasão consentida da zona oeste da FSJM permitisse a construção de quadras esportivas e a própria sede do Saci Clube antes da fundação do Círculo Militar, em 15 de maio (1969), no mesmo lugar, “com o objetivo de congregar os militares da reserva e da ativa, aqui residentes, bem como civis com participação ativa na

sociedade” (Revista Latitude Zero. Op. Cit.). A agremiação militar foi demolida na década de 2000, quando o IPHAN retirou todos os prédios da área tombada.

Em março de 1982 o Governo promoveu a festa do bicentenário da fortificação, com pompas e tiros de canhões, depois de mais uma reforma. Os jornais da capital traziam discursos, poemas e expressões de autoridades e intelectuais locais sobre a obra. Esses textos eram carregados de sentimentos laudatórios sobre ela, a maioria pregando o valor e o heroísmo dos engenheiros e escravos negros e índios que a construíram.

Mas no poema memorial de Luiz Jorge Ferreira, a Doca da Fortaleza exerce nele uma reação diferente, pelo que sua biografia57, sua trajetória de vida

lhe inspirou, num misto de ficção, romantismo e realidade.

57 Luiz Jorge Ferreira, nascido em Belém, porém desde muito cedo levado a Macapá, onde chegou aos dois anos. Médico, escritor, e membro fundador da Sobrames (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores) Secção São Paulo. Escreveu alguns livros: Berro Verde (Poemas), Tempos do Meu Tempo (Poemas), Beco das Araras (Poemas), Cão Vadio (Poemas), Thybum

PECADO VENIAL... PECADO MORTAL...

Perto de mim, o funcionalismo da União

vendia o salário aos comerciantes da Doca da Fortaleza minha mãe fritava o ovo e punha quente no meu prato misturava farinha, lágrimas e dor de fome,

assim temperado, eu comia, órfão. Perto do pote, ela tomava água com água

subia a rua poeirenta e ia ensinar aos homens do futuro para que eles nunca mais fizessem uma professora brasileira

passar fome.

Muitos dos que se integraram à luta nacional contra a ditadura trazem em seus textos a lembrança do monumento, como esse trecho de uma crônica do ex-exilado, ex-prefeito de Macapá, ex-governador do Amapá e atual senador João Alberto Capiberibe.

Clarões da Alma

A Fortaleza imponente, ao lado, que bela paisagem que a história nos legou e que preencheu meus sonhos por anos e anos...

Cresci íntimo com o rio e suas praias lamacentas. Pescava e perambulava entre a Fortaleza e o Igarapé do Jandiá, território livre da minha segunda infância, que me conservou a cultura ribeirinha do Juruá. Orgulhava-me do trapiche enorme avançando no mar doce, desafiando as marés, apontando, poeticamente, para a lua cheia.

O texto acima reflete basicamente o despertar da memória ribeirinha de quase todos os habitantes de Macapá. O trecho referido pelo escritor João Alberto Capiberibe se refere à orla principal da cidade, em que havia o trapiche e as embarcações, o hotel do Governo e o estaleiro territorial, entre a Doca da Fortaleza e o igarapé do Jandiá.