5.6 Spesielt om fusjonen
5.6.2 Ulike effekter av fusjonen
Antes de iniciarmos as discussões em torno da identidade brasileira e de pensar a identidade em geral no contexto de migração, iremos tecer alguns comentários sobre o conceito de identidade que vem se delineando até aqui.
A concepção de identidade que vem sendo tecida até o momento, e que irá nortear as discussões que serão desenvolvidas ao longo da tese, será a de uma
23 É importante lembrar que, em alguns casos, o processo de hibridização ocorre em condições de
47 identidade em processo. Em outras palavras, não iremos conceber essa identidade de forma essencialista, mas percebê-la como em constante construção, justamente pelo seu caráter relacional e contextual.
A identidade, dessa forma, é compreendida como tendo características que, longe de permanecerem constantes no tempo e no espaço, vão se delineando segundo cada contexto. Se ela é relacional, isso implica dizer que aparece, sobretudo, na relação com o outro. É o que define Claudia Barcellos Rezende (2009, p. 20), ao dizer que a identidade:
Remete a uma relação de unidade e semelhança de um sujeito com um determinado grupo social, por contraste com outros grupos. Definir quem é uma pessoa implica definir quem ela não é. Assim a identidade é sempre relacional e contrastiva. Essa relação simultânea de inclusão e exclusão está atrelada a uma característica básica da vida em sociedade, que é a presença de sistemas de representação de pessoas e grupos sociais. Assim, são essas categorias, que organizam as semelhanças e diferenças entre as pessoas, que formam o alicerce da identidade.
Esses aspectos levantados pela autora são os que irão servir de base para a nossa compreensão da identidade nacional. Ora, estamos falando do contexto em que mais essa identidade nacional é evidenciada, isto é, quando o indivíduo está fora do seu país de origem e se deparando com uma cultura distinta da dele, como é o caso das brasileiras em Pequim. Ao se virem diante do outro, elas se percebem como semelhantes aos seus compatriotas, já que, como Benedict Anderson escreveu, compartilham algumas narrativas com esses.
No contraste com os chineses – para permanecer no nosso caso específico – as brasileiras se veem como não fazendo parte dos sistemas de representação deles e reforçam sua identidade enquanto brasileiras. Isso é enfatizado por um aspecto que já havia sido debatido aqui, o pertencimento social.
O pertencimento é uma questão cara à sociologia e aparece desde os clássicos de forma, ora mais explícita, ora mais velada. Quando Karl Marx (1977) escreve sobre “consciência de classe”, ele está se referindo ao sentimento de pertencimento a uma classe social. A identidade, por sua vez, também implica essa ideia de pertencimento, mas é uma forma de pertencimento que define o indivíduo subjetivamente e, justamente por isso, passa a ser reconhecida pelo indivíduo, pelo grupo social e pelos outros grupos (REZENDE, 2009, p. 20).
48 A identidade, neste rumo, é reconhecida pelo sujeito e pelo grupo social na medida em que define, subjetivamente, algumas características dele. Esse reconhecimento, contudo, é feito tanto pelo indivíduo quanto pelo outro. Nos reconhecemos enquanto brasileiros, tanto com base em aspectos que julgamos definidores dos brasileiros, quanto ao percebermos que os “não-brasileiros” também reconhecem essas características em nós.
Essa identidade, contudo, como já havíamos discutido, guarda um grau de fatalidade, uma vez que o fato de nascermos em determinado país nos coloca em contato com a cultural nacional produzida nessa nação. O grau de fatalidade embutido na identidade será percebido, nesta tese, como uma indicação para o pertencimento a uma identidade, mas não como determinante, sob o risco de cairmos numa noção essencialista de identidade.
A influência do nível de fatalidade existente na identidade nacional para a criação do sentimento de pertencimento a uma identidade fica mais fácil de ser visualizada quando lembramos os casos encontrados em campo dos filhos de brasileiras que nasceram na China e são denominados de “brasileiros de Embaixada”. Algumas dessas crianças, já adolescentes, possuem passaporte brasileiro24, mas a referência que têm de Brasil é proveniente das viagens – em alguns casos nem sempre constantes – que fazem ao Brasil, das informações passadas pela mãe e da convivência junto à comunidade brasileira. O fato de serem filhos de mães brasileiras, muitas vezes filhos de pais de outra nacionalidade, e de terem tido como referência uma babá chinesa, faz com que a identidade brasileira passe a ser um mero detalhe no passaporte.
Ora, se a fatalidade é apenas uma indicação, como pudemos notar nesse exemplo, caberia perguntar aqui, como tem feito Hall (2005) e Giddens (1995), sobre o nível de escolha do indivíduo, ou seja, até que ponto escolhe o sujeito pertencer ou não a uma identidade25.
24 A Lei de Nacionalidade da República Popular da China, adotada em 10 de setembro de 1980, não
reconhece a dupla nacionalidade e só concede cidadania chinesa a filhos de estrangeiros se estes tiverem parentes próximos a cidadãos chineses ou tiverem fixado definitivamente residência na China.
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A maior autonomia em relação ao pertencimento nacional ocorre em filhos de pais com dupla nacionalidade ou filhos de brasileiros morando e se formando no exterior, por exemplo. Para os que permanecem no Brasil, esse grau de autonomia é bem menor; poderíamos falar aqui na incorporação de um “habitus” de brasileiro (BOURDIEU, 1974).
49 Neste ponto podemos remeter mais uma vez ao caráter relacional e contrastivo da identidade para nos aproximar da discussão quanto ao grau de escolha. A escolha, neste sentido, ficaria condicionada ao contexto. Isso porque a identidade nacional, por exemplo, vai ser acionada de forma mais intensa ou não segundo cada contexto. Estando fora do Brasil, é bem mais provável que o indivíduo escolha acionar o pertencimento à identidade brasileira por não encontrar outro grupo social que lhe dê essa mesma sensação de pertencimento. Em suma:
Grupos não são entidades delimitadas, mas processos simbólicos que emergem e se dissolvem em certos contextos de ação. Assim, mais do que pensar grupos étnicos ou nações como dotados de substância, definidos por culturas, línguas, histórias particulares, é preciso tomá- los como formas de organização social, cujas fronteiras e conteúdos variam no tempo e no espaço (REZENDE, 2009, p. 21, apud RANDLER, 1994, p. 29).
Mesmo as identidades nacionais, dessa forma, sendo constituídas por línguas, culturas, tradição, história, elas devem ser percebidas como uma forma de organização social, e, como tal, não essencializadas, vez que variam segundo cada contexto temporal, espacial e histórico.
Embora as identidades nacionais se modifiquem segundo cada contexto, isso não as transforma, como escreveu Bauman (2003, p. 58), numa “questão de escolha e resolução” deliberadas, como uma espécie de “guarda-chuva”, para usar a metáfora desse mesmo autor, sob o qual nos abrigamos temporariamente, na medida em que elas também abarcam outras identidades, o que as coloca numa posição de mais duradoura, ou mais consistente.
Smith (1997) discorre sobre o caráter mais ou menos coesivo das identidades de gênero, de local e região, classe social, religião e etnicidade, cada nível mais inclusivo do que o anterior. Mas nenhuma delas teria o potencial de mobilização coletiva esperado das identidades nacionais, em virtude de sua ancoragem em uma comunidade política mais ampla. Enquanto as outras identidades fragmentariam a coletividade, essa construção identitária reuniria os membros de uma comunidade nacional de forma mais duradoura (REZENDE, 2009, p. 21).
Diferentemente das demais identidades que tenderiam à separação dos indivíduos, a identidade nacional teria um caráter mais coletivo, o que resultaria numa durabilidade maior. Há que se considerar que essa “forma mais duradoura” da
50 identidade nacional se deve também ao fato de ela não poder ser escolhida deliberadamente, como já havíamos discutido, ou seja, ao grau de fatalidade presente nela.
Outro aspecto que contribui para a não efemeridade da identidade nacional é que ela carrega consigo outras identidades. É o que ocorre, por exemplo, no caso do Brasil. Isso porque, embora o discurso nacional enfatize a miscigenação racial e cultural como definidora da cultura brasileira, os principais elementos identificadores da cultura brasileira passam por elementos culturais hibridizados, mas que são, frequentemente, identificados como de origem africana, a saber, a feijoada, o samba e o corpo da mulata. Podemos perceber, neste sentido, que a imagem e também a autoimagem corrente26 da identidade nacional passam pela vinculação entre raça e gênero – como iremos discutir mais a frente – encarnada nos elementos da cultura negra e no corpo da mulata.
Neste rumo, podemos dizer que a identidade nacional, pensada enquanto construção simbólica – que varia segundo os contextos temporal, espacial e histórico e é geradora de pertencimento, que se estabelece, sobretudo, de forma relacional e contrastiva – vem ganhando cada vez mais espaço nas discussões tecidas pelas ciências sociais, dado que, a intensificação das migrações tem colocado ela novamente no centro dos debates.