5.6 H ÅNDTERING AV PROBLEMER
5.6.2 Uforutsette problem
Como foi abordado anteriormente, as crônicas podem ajudar o leitor de Bandeira a iluminar alguns aspectos dos poemas, principalmente quando pertencem a um mesmo contexto sócio histórico e têm uma preocupação com a dimensão do “retrato brasileiro” moderno. As crônicas “Velório” e “Bahia” trazem mais claramente, pela própria natureza da crônica, expedientes cordiais, tanto na temática como na forma.
Mais claramente também as crônicas se aproximam do leitor. Afinal, “esse gênero de literatura ligada ao jornal está entre nós há mais de um século e aclimatou com tão naturalidade, que parece nosso. Despretensiosa, próxima da conversa e da vida de todo o dia, a crônica tem sido (...) companheira quase que diária do leitor brasileiro” (ARRIGUCCI, 1987, p. 51). Como vimos, nas crônicas de Bandeira, o tom coloquial de conversa é adotado e, como nos poemas, serve como caráter de aproximação ao leitor. Isso está presente também nas crônicas “Velório” e “Bahia”.
“Velório” é um texto publicado no Boletim Ariel, um mensário crítico-bibliográfico, em dezembro de 1936. Em um momento de modernização mais intensa, descreve-se um velório no Rio de Janeiro com descrições muito provincianas e cordiais.
Para isso, parte da obra “Velório”, de Rodrigo M. F. de Andrade, e elenca as características cordiais do velório carioca, a “conversa mole”, “a cordialidade efusiva”, a “criada amável” servindo.
Em poema com um tema similar, um enterro, “Momento num café”, já se identificou a cordialidade presente. Jerônimo Teixeira (2005), a partir desse poema, diferencia polidez e cordialidade. No poema, a primeira estrofe retrata homens que “tiram o chapéu maquinalmente” quando o enterro passa, algo mais de um gesto mecânico da vida moderna e obedecendo um código social, mas há um homem que tem um gesto “longo e demorado” em uma expressão espontânea e uma afetividade que transborda, diferente daquele gesto maquinal. Os que fazem o gesto mecânico estão mais próximos da polidez, já o homem com o gesto “longo e demorado” estão mais próximos do conceito em torno do “homem cordial”.
O velório da crônica é, pois, diferente da polidez. Para Sério Buarque, “nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro” (HOLANDA, 1963, p. 137). Na crônica, isso salta aos olhos. Os velórios descritos vão além da convenção social e de um formalismo. Os acontecimentos são muito mais espontâneos do que a ocasião pediria e o que marca é o traço cordial em receber as visitas; tanto que o leitor quase esquece que é para um velório:
Quase sempre é café que vem. Desta vez, foi vinho do Porto e biscoitos Maria. Seu Aderne, que não tinha jantado, gostou do vinho e dos biscoitos, ascendeu em seguida um cigarro, e “insensivelmente”, diz o autor de Velórios, “foi sendo atraído pela conversa” de um certo Vilaça (...) (BANDEIRA, 2006, p. 203).
O próprio texto marca ser uma expressão natural, espontânea, o que se aproxima da cordialidade e se afasta da polidez: “um sujeito – naturalmente com a caridosa intenção de aliviar o meu estado de espírito – tentou envolver-me na sua conversa mole” (BANDEIRA, 2006, p. 203; grifo nosso). Na aparente polidez em aliviar o filho do morto, tem-se, na verdade, “manifestações que são espontâneas no ‘homem cordial’” (HOLANDA, 1963, p. 138).
Assim como as situações descritas da crônica, no texto em si, pouco se fala de morte, mas se faz presente muitas dessas situações tão cordiais e provincianas como o servir o café pela criada amável, que nos remete à hospitalidade, virtude da cordialidade, mas também uma
permanência ativa da “influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal” (HOLANDA, 1963, p.137).
Essa crônica responde ao processo urbanizador com expedientes cordiais, ou seja, com características de uma sociabilidade pautada em um fundo emotivo, herança do nosso passado formado na família patriarcal, opostas, a princípio, a um contexto urbanizado e modernizado. Essas características, entretanto, permanecem como padrão de convívio social. É uma permanência que afeta várias de nossas áreas em que se estabelece um convício social e se evidencia contraditório na passagem de um país mais rural para um país mais urbano.
Tal representação explícita da cordialidade se faz presente também na crônica “Bahia”. O leitor é envolvido em um diálogo com uma linguagem simples, tom de conversa reforçado por comentários próximos a língua falada, como em “Mas nos tais sobradões,que nada!”.
O texto foi publicado em 30 de janeiro de 1927, em uma edição de O Jornal dedicado à Bahia, como está informado em notas de Crônicas da Província do Brasil. Nessa mesma nota, há trechos de cartas de Manuel Bandeira e Mário de Andrade sobre o texto:
O chateaubriand encomendou uma página de O Jornal sobre igrejas e casas da Bahia para o nº de 17 do corrente consagrado à boa terra, eu para ganhar duzentão vou me desunhar nesta fountainpen. Não farei nada que preste. Direi besteiras, farei reportagem. Vou encher linguiça com bosta de boi, conto histórias de carochinha, a guerra dos cem anos e pronto. (BANDEIRA, 2006, p. 270).
Há a intenção da construção textual de uma “conversa fiada”. Que, se considerarmos a caracterização de poeta menor discutido no capítulo 1, fica a serviço de aproximar o leitor. A nota sobre a crônica traz trechos de outra carta sobre visita à Bahia:
Mário, estou apaixonadíssimo pela Bahia! É uma terra estupenda a cidade brasileira. Centenas centenas centenas de baitas sobradões de 4 andares e sotéia. Se eu pudesse levava um pra mim outro pra você. Solares de forte e sóbria linha senhoril com portas de pedra lavrada e brasonadas, batentes de madeira de lei com almofadões – onde moram pretinhas meretrizes e a gente pobre mais pobre deste mundo! Vocês espia por um óculo de porão onde imagina que só vive rato e vê um oratoriozinho com a lamparina de azeite queimado.
O Largo do Pelourinho é a vista urbana que um brasileiro pode mostrar a um francês sem ter nenhuma dor de corno pela perspectiva dos Campos Elíseos ou da Avenida da Ópera. Quanto casa velha bonita! Estes oitões imensos do sobrados de duas águas. A gente não se farta de olhar. Há três dias que ando com um rapaz encantador, Godofredo Filho, fazendo a corte de todas as casas velhas da Bahia. (BANDEIRA, 2006, p. 270).
Ainda, a nota esclarece que Godofredo Filho foi funcionário do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e escreveu trabalhos ligados ao patrimônio histórico.
Esses trechos de carta reforçam e exemplificam o contexto de amizade vivido pelos próprios intelectuais modernistas, analisado no capítulo 2 deste trabalho, o qual influenciou as discussões intelectuais e artísticas do período. As cartas são pautadas por uma informalidade, no tom de conversa e de amizade, palavras e sentenças como “apaixonadíssimo”, o diminutivo – “pretinha”, “oratoriozinho” –, “se eu pudesse levava um pra mim outro pra você” exemplificam esses aspectos. Tal informalidade se estende à crônica, assim como esse encanto pelas casas velhas, associadas à discussão do patrimônio histórico.
Nessa crônica, novamente, percebe-se, a partir dos comentários ao lugar, o apego ao passado e ao provinciano. O texto já se inicia com uma imagem extremamente cordial, referindo-se a Salvador: “A gente mal pisou na cidade baixa e já se sente tão em casa como se ali fosse a grande sala de jantar do Brasil, recesso de intimidade familiar de solar antigo com jacarandás pesados e nobres. ” (BANDEIRA, 2006, p. 33). Nesse trecho, prevalecem palavras que remetem a algo íntimo, familiar, tal como prefere o “homem cordial”: sentir em casa, recesso de intimidade familiar.
No parágrafo seguinte, “ali a gente se sente mais brasileiro. Em mim confesso que, mais forte do que nunca, estremeceram aquelas fundas raízes sociais que nos prendem ao passado extinto, ao presente mais remoto” (BANDEIRA, 2006, p. 33), no contraste posto pelo passado extinto e o presente mais remoto, marca a contradição do passado sempre presente no Brasil.
A contradição do passado e presente e, assim, do moderno e do tradicional, continua em todo texto (“Não lhes dê (aos baianos) luz demais, como fizeram a este Rio de Janeiro, que parece automóvel noturno de novo rico”). Aqui, faz-se também vivo o progresso contraditório brasileiro, desigual em diferentes regiões.
Há, com esse contraste do novo e do antigo: “na Bahia, a tradição está viva, integrada no presente mais atual, dominando estupendamente o progressismo apressado, sovina e tapeador que tem desfigurado as nossas cidades litorâneas, que estragou completamente o meu Recife.” (BANDEIRA,2006, p. 33), além dessa problematização do progresso, tem-se uma identificação com o passado. Mas, mais do que isso, há a tentativa clara da preservação de um passado muito ligado a uma história de colonização, que se faz fortemente presente em toda história brasileira.
Como em outras crônicas, é por meio de comentários a elementos arquitetônicos da cidade que essa preservação é apresentada no texto, e também com o contraste com as
construções mais atuais: “Mas repito: o velho ambiente, pela abundância e força de suas formas, abafa o mau gosto das construções recentes. ” (BANDEIRA, 2006, p. 34).
Os casarões da Bahia chegam a ser personificados: “o espírito das velhas casas brasileiras era bem o contrário disso, caracterizando-se antes pelo ar severo, recatado, verdadeiramente senhoril.” (BANDEIRA, 2006, p. 43). Recebem o ar daqueles senhores de terras do nosso passado colonial. O que, no parágrafo seguinte, é contrastado com a Modernidade, evidenciando outras contradições existentes, como a riqueza, associada ao passado e aos senhores de terra, e a pobreza, associada ao presente e ao meretrício pretinho:
parece que hoje não se gosta mais disso, mesmo na Bahia. Os velhos solares do bairro da Sé estão hoje reduzidos a cortiços de gente pobre, e é mesmo uma impressão curiosa ver o mais reles meretrício da cidade, o meretrício pretinho, aboletado em nobres casarões arruinados. (BANDEIRA, 2006, p.43). Mesmo na crônica, gênero que é normalmente voltado para a atualidade, a voz narrativa parece constantemente abordar mais o passado. Por exemplo, ao descrever as construções das igrejas busca se remeter a um acontecimento antigo (“A dois passos da Sé Velha fica a pequena igreja da Misericórdia, onde tantas vezes pregou o padre Vieira, com claustro revertido de belos azulejos”, entre outros exemplos de histórias de igrejas e construções).
A dialética passado / presente que marca o texto sugere algo que atualize valores do passado colonial em oposição ao processo de modernização, revelando contradições entre o sujeito e o seu meio. Revela ainda a perda e a permanência de lugares simbólicos buscados no espaço literário. Assim, é com essa dialética que a crônica responde criticamente ao processo de modernização brasileiro. E também com essa contradição que o texto se relaciona com a cordialidade, porque o “se sentir em casa” na Bahia se relaciona aos elementos do passado que continuam ali e às “fundas raízes”, ou seja, ao que é familiar. Esse “se sentir em casa” revela como uma sensação de conforto com o mundo passado por meio dessa familiaridade. Novamente, a realidade presente já fornece dados do passado e, no conforto com esses dados, a voz lírica se encontra na contradição.