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De modo geral os informantes trazem um entendimento do momento histórico que vivenciam, e do qual em menor ou maior grau compartilham – uma avaliação da gestão na perspectiva de uma contraposição com o passado

Pegando esse link eu fico assim eu fico assim imaginando como é que era antes a saúde em Fortaleza, porque nós temos várias dificuldades hoje né, e eu fico imaginando como era antes quando não existia médico, dentista, enfermeiro com a quantidade que existe hoje dentro dos postos de saúde e também assim, (...) então eu fico imaginando

essas coisas antes quando não existia a organização que existe hoje.

– GF Regional.

As dificuldades não foram negadas, muitas vezes, estavam destacadas; mas, trouxeram avanços e uma avaliação positiva, principalmente quando se deslocam das dificuldades atuais e recuperam as situações de períodos recentes do Sistema de Saúde de Fortaleza.

Eu tive assim de começar a gestão não só como coordenadora, eu fiz parte da equipe de transição, então eu tive a visualização do que era Fortaleza(...). Realmente dava pra ver um caos. – GF Coordenadores de CSF (centros de Saúde da Família).

Uma gestora regional disse: „fico imaginando essas coisas antes‟, uma coordenadora afirmou ‗dava pra ver o caos‟. Portanto, houve uma referência à situação de saúde no Município com base em uma leitura do antes e do agora. Essas significações, provavelmente, perpassaram pela vivencia e observação de fenômenos que elas identificam como uma problemática do Sistema de Saúde. Ambas fizeram um movimento de historicidade, categoria própria da consciência crítica. Para Freire (1980)

a consciência histórica é a inserção crítica na história implica que os homens assumam o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo. Exige que os homens criem sua existência com um material que a vida lhes oferece. (P.15).

Ser sujeito é conhecer a realidade, ―desvelá-la‖, para recriá-la. A consciência histórica também é condição para a constituição de sujeitos, principalmente quando acompanhada da capacidade de olhar para o futuro e atuar no presente, mesmo nos limites e nas vicissitudes do contexto histórico; ou seja, é preciso pensar sobre o que fazer diante dos condicionamentos históricos culturais10. Como resposta, fiquemos com essas palavras:

Hoje o que a gente vê em grande parte do município e o que a gente

trabalha, o que é que a gente fala, o que é a gente discursa, o que é que a gente lança em todo diálogo nosso? É que o modelo tem que ser de equipe, de protagonização desses trabalhadores todos,

de que não é só o médico com farma, com a química que vai fazer a mudança na vida daquela pessoa, mas em práticas alternativas, práticas integrativas, outras praticas de promoção da saúde e que não só ali dentro do consultório, da clínica, do individual que se vai fazer saúde, ela pode ter acesso a saúde de várias formas e aí os conceitos como de clínica ampliada, de acolhimento, de escuta, de promoção da saúde, de educação permanente, de participação popular tudo que quando nós chegamos na cidade a gente não sentia muito isso, era aquela coisa dentro da prática curativa, individual e dentro do consultório médico. GF Regional

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Para Paulo Freire (1996), o ser é historicamente condicionado, não determinado. O contexto sociocultural cria condições para a existência humana, mas há a ‗vocação ontológica para o ser mais‘, para a criação de atos de superação.

Vejo diferentes expressões de um mesmo fenômeno: O que a gente discursa? O que fala? O que trabalha? No discurso, prevalece uma linguagem coletiva que advém dos lugares determinados na estrutura social (MINAYO, 1993), ou seja, um texto definido dos papéis; a fala parece-me remeter aos sentidos formulados pelo próprio indivíduo, uma linguagem da síntese entre o coletivo e o particular; enquanto o que a gente trabalha é a própria ação, imprescindível para a efetivação do pensamento: ser sujeito.

‗O que a gente lança em todo diálogo nosso?‘ Protagonização, práticas integrativas e complementares, acesso, acolhimento, clínica ampliada, participação popular, educação permanente, dentre outras palavras geradoras, recorrentemente trazidas pelos participantes da pesquisa, as quais demonstram uma direcionalidade político-conceitual na gestão de Fortaleza; isto é, há uma assunção de referenciais teóricos e de proposições que foram internalizadas, no mínimo no discurso de algumas pessoas. Outra informante disse que a gestão ―deu uma mexida boa mesmo, a gente estimula os profissionais e acho que nós somos outra Fortaleza do início‖. Quando

indagada o que era uma ‗mexida boa‘, acrescenta:

Eu acho que é sair daquele tradicional do trabalho, do queixa conduta né, pra gente falar bem claro. Eu acho que a gente ta estimulando o trabalho em equipe, o trabalho interdisciplinar, a intersetorialidade a

gente estimula, ainda falta muito? Falta. – GF Regional

“Falta muito? Falta”; suponho que, tanto para a reorganização do sistema de saúde, como para o fortalecimento dos sujeitos, mas, o leitor haverá de concordar com a ideia de que ‗o que se lança‟, ‗o que se mexe‟ são políticas, estratégias, conceitos e atitudes que, indiscutivelmente, propõem ‗o sujeito no centro‘. É evidente, contudo, que há situações-limite11 que precisam de superação para conseguir uma aproximação da utopia de sistemas de saúde democráticos e de sujeitos históricos.

Em Fortaleza, provavelmente para atender a intencionalidade de transpor as barreiras sócio-históricas que dificultam a efetivação do SUS, criou-se um desenho de atenção e gestão que deveria orientar a reconstrução – uma proposta de organização do

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Situações-limite são obstáculos, barreiras da vida social e da existência humana, que precisam ser transpostos para a superação das condições de vida que limitam o sujeito e a justiça social. É conceito encontrado no decorrer da obra de Paulo Freire.

sistema de saúde em redes que agrega conceitos e políticas trazidos pelos informantes da pesquisa, e que buscaria responder o dito pela coordenadora: Fortaleza, realmente, estava sendo entregue né, pra ser reconstruída.