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U BÅTKRIGFØRING

Provavelmente eis a intervenção mais aprofundada e original de GR na série de textos que publicou na RSP. Neste artigo, Guerreiro Ramos aprofundou um debate, chegando a defender, de maneira explícita, argumentos próprios. Mais do que simplesmente apresentar um tema, um autor, ou uma obra, existe então uma defesa de entendimento.

Apresentou-se uma visão de intelectual em Guerreiro Ramos. Como veremos, este tema é recorrente em sua produção. Aqui, além da visão de intelectual formulada por Guerreiro Ramos, ele ofereceu um entendimento sobre como o intelectual pode contribuir para o desenvolvimento de um país. A planificação não é coisa de diletantes, mas requer conhecimentos em níveis profundos. Segundo Guerreiro Ramos,

podemos deixar de compreender um assunto ou por não possuirmos o equipamento científico que para tanto é requerido ou, ainda que tenhamos, por não assimilarmos as categorias científicas adequadas para pensá-lo. É desta última espécie a deficiência de muitos economistas, sociólogos, administradores quer reagem supersticiosamente diante da possibilidade das planificações (RAMOS, 1946b, p. 1).

Em sua crítica ao modelo fascista e comunista, ele parece, à primeira vista, demonstrar equivocada apropriação do modelo marxista – se é que ele teria se disposto a isso. Embora para ele, os dois modelos são analisados enquanto ideologias, sua análise recaiu sobre a prática vigente à época70.

Vejamos, por exemplo, a citação:

(...) tanto a planificação fascista como a comunista padecem de tendências de índole reacionárias muito fortes, pois ambas pretendem impor uma unidade cultural à sociedade, sem compreender a estrutura fundamental de nossa época (Idem, p. 5).

De algum modo, parece que Guerreiro Ramos, teria abandonado alguma perspectiva dialética de transformação social – no caso específico do comunismo.

70 Entendo que não será fora de propósito aludir à distinção entre prática e teoria no pensamento de Guerreiro Ramos. Embora ele reconheça esta distinção, as duas dimensões compõem a existência. Neste sentido é que ele recusou a taxação de fenomenólogo, posto que a suspensão das teorias e modelos de entendimento em absoluto não seria possível ao mundo social. É perceptível que seu entendimento sobre o marxismo e sobre o fascismo passou pela indissociabilidade entre prática e teoria.

Outro ponto de aparente inconsistência de Guerreiro Ramos é quando ele afirmou que seria “necessário, portanto, colocar o problema de um modo não ideológico, isto é, em termos da estrutura fundamental de nossa época e não de arquétipos” (Idem, ibidem).

É possível enveredar pelo debate acerca da (in)existência de ideologias nos modelos de compreensão. Em certo sentido, ou seja, entendendo por ideologia qualquer sistema de ideias, seria possível considerar a crítica de Guerreiro Ramos infundada, até mesmo imatura, visto que as ideologias podem ser entendidas como sistemas de ideias situado no espaço-tempo e que informam as crenças, valores de quaisquer sociedades, logo não é universal ao mesmo tempo em que é inevitável. Entretanto, outras acepções do termo ideologia são também aceitas por suas respectivas coerências internas.

A dimensão ideológica é entendida por ele como uma dimensão que impõe barreiras ao entendimento, que polui a compreensão da realidade, pois constituiria uma forma idealizada e cheia de incoerências. Ou ainda em tempo, ela se configura numa peça de encaixe fundamental pra que as identificações binárias (negro/branco, norte/sul, homem/mulher, etc.) tornem-se inteligíveis e aceitáveis. Assim, a ideologia seria o véu que impediria o(a) intelectual de construir modelos objetivos71.

Adiante, seu texto permite a identificação da coerência interna de seu pensamento, fazendo ruir as aparentes inconsistências citadas acima. Seu princípio fundamental é o da democracia. Não daquela afirmada no liberalismo. Mas uma percepção de democracia que implica na assunção de valores

71 O “objetivo” em Guerreiro Ramos não é muito diferente daquele em Weber. Trata-se de um pressuposto do saber científico, na medida em que ele demonstra a validade das coerências, ainda que sejam apenas coerências internas. É num sentido muito próximo a este que Guerreiro Ramos veio a defender a redução sociológica.

individuais e comunitários simultaneamente; numa espécie de multiculturalismo ou pós-colonialismo. Decorre daqui a crítica de GR ao fascismo, ao comunismo e ao capitalismo espontaneamente planificado72.

Neste sentido, GR defende a importância de o intelectual captar rigorosamente o que ele chamou de principia media. Sobre os principia media GR escreve

(...) esta rápida transformação da consciência coletiva não ocorreu em virtude de um ato voluntário dos indivíduos, mas, é claro, em virtude de uma nova combinação de forças atuantes na sociedade. Estas forças são precisamente os principia media (Idem, ibidem).

Mais abaixo:

Em toda época, o homem comum só compreende o mundo, aplicando inconscientemente estes principia

media. (...) Com fundamento no conhecimento dos principia media é que podemos perceber o elemento

ideológico ou utópico dos movimentos sociais (Idem, ibidem).

GR identificou dois principia media à época. Lembremos que estes não são exclusivos da sociedade brasileira, mas compõem a civilização ocidental. Disse-nos que

Em primeiro lugar, a democracia econômica deixou de ser um ideal apenas e, cada vez mais, se torna um estado efetivo de consciência individual. (...) Assim, a chamada questão social é, eminentemente uma questão de desconcentração da riqueza, de redistribuição de riqueza, de modo a assegurar a cada indivíduo uma capacidade aquisitiva compatível com as suas necessidades. (...) Em segundo lugar, a fase atual da sociedade ocidental requer o desenvolvimento de um tipo de ético inteiramente distinto do das épocas dotadas de unidade espiritual. Nestas a ética em vigência tende a ser

72 A expressão “espontaneamente planificado” merece explicação aqui. Entendo que o desenvolvimento capitalista – assim como de outros modos de produção – ocorrem no plano cultural (antropúrgico) de maneira tão naturalizada por muitos indivíduos que seus procedimentos ocorrem sem grandes reflexões, ou seja, espontaneamente. É como se as ações culturais, mesmo aquelas que passam pela planificação, ocorressem sem a sensação de intervenção de outrem ou de coação.

uma ética de valores absolutos, que se acredita sempre uma ética natural do gênero humano, assumindo, por conseguinte, posições de intolerância. Em épocas como a nossa, a multiplicidade de formas de vida espiritual e insanável e crônica, e o controle social só poderá ser mantido, sem a violência policial dos regimes totalitários de direita e de esquerda, se se desenvolver nos indivíduos uma ética da responsabilidade, à qual se tornem legítimas, do ponto de vista funcional em que se colocam seus concidadãos, as outras variedades de tipos de vida moral (Idem, ibidem).