Na tentativa de responder à principal questão desta dissertação: “Que criança está sendo construída como objeto de investigação?”, faremos uma análise qualitativa dos 23 trabalhos selecionados para esta sub-etapa. Para isso, iremos nos basear nos grupos temáticos estabelecidos na tabela 11.
Os trabalhos desta sub-etapa têm o foco nos seguintes aspectos: interação, desenvolvimento cognitivo/desempenho, distúrbios na infância, brinquedos infantis e infância e os processos de escolarização (a criança no papel de aluno).
Pesquisas sobre interação infantil
Quanto aos trabalhos que pesquisaram sobre a interação, temos o seguinte quadro: Duas pesquisas sobre a interação em creche, sendo uma com pares precoces (7 meses) e outra com dois grupos de crianças, sendo um de 18 a 23 meses e o outro de 24 a 28 meses.
Na pesquisa que discutiu sobre interação entre pares precoces, a autora entende que a interação:
é a menor unidade social. Uma série de interações em seqüência no tempo formariam uma relação. A partir da identificação das interações poder-se-iam analisar as dimensões das interações específicas: sua diversidade, o contexto em que ocorrem, a reciprocidade e a complementaridade das interações, suas qualidades. Com isso, se teria a descrição e classificação das interações sociais necessárias para entender este fenômeno (41).
Partindo deste conceito de interação, Perosa (1990) questiona em sua pesquisa as teorias do desenvolvimento que afirmavam que o melhor para a criança seria o cuidado materno. Assim, a autora apresenta uma breve análise histórica da creche, apresentando que, com a inserção da mulher no mercado de trabalho e a conseqüente necessidade da separação mãe - bebê em idade muito precoce, outras correntes teóricas surgem evidenciando dois lados da nova situação: uma que chamava a atenção para bebês ativos,
com necessidade de convívios múltiplos desde os primeiros dias de vida, e a outra que
apresenta a angústia da separação e a perda da individualidade, e que recolocam uma
forma de educação familiarista como sendo a ideal. (p.18).
No entanto, a pesquisa que estuda a interação com crianças de 18 a 28 meses (Bastos:1995), se baseando em Wallon, constatou diferentes tipos de interação entre as crianças, sendo mais ou menos presente em decorrência da idade. Neste sentido, a autora afirma em seu trabalho que:
a intensa e precoce convivência com outras crianças é um dos fatores responsáveis pelo desenvolvimento da independência e pela mobilização de recursos para suas interações, quer no sentido de se defender ou de investir naquilo que tem vontade. A constante participação num mesmo grupo de crianças faz com que elas possam ir se conhecendo melhor, aprendendo juntas a se observar e a se relacionar (p. 65). Outro aspecto pesquisado sobre a interação criança–criança foi a relação entre desenvolvimento e interação. (Murad: 2001, Racy: 1995, Franciscato: 2003 e Stoltz:2001).
Assim, temos quatro trabalhos, sendo que três deles se basearam na psicologia sócio-histórica (Murad: 2001, Racy: 1995 e Franciscato: 2003), enquanto o último teve como referência as contribuições de Piaget (Stoltz:2001).
Entre os autores que se basearam em Vygotsky, o primeiro abordou a questão da formação de díades, se baseando na Zona de Desenvolvimento Proximal (Murad: 2001). O outro trabalho pesquisado estudou os efeitos da tutoria na interação criança–criança (Franciscato: 2003), e o terceiro deu destaque à socialização primária e secundária. (Racy: 1995). O trabalho que teve como base os estudos de Piaget, investigou a influência do tipo de interação social na tomada de consciência da criança de 4,6 a 5,10 anos na noção de conservação da substância e do peso (Stoltz:2001).
Na pesquisa que discutiu sobre a Zona de Desenvolvimento Proximal proposta por Vygotsky, o foco privilegiado pela autora foi exatamente direcionado às distinções entre níveis de desenvolvimento infantil:
as possibilidades do ensino não devem ser definidas a partir das funções já consolidadas na criança, das condições de aprendizagem que ela já apresenta e daquilo que ela já é capaz de realizar sozinha. Deve-se considerar um outro nível de desenvolvimento: aquele que se caracteriza pelo que a criança pode fazer com a ajuda do parceiro mais experiente, que lhe oferece pistas, informações e orientações, fazendo com que a criança solucione, em cooperação, um problema que não conseguiria resolver sozinha (Murad: 2001: 17).
A dissertação que estudou os efeitos da tutoria com crianças parte de um ponto similar ao da pesquisa anterior: o trabalho em díades. No entanto, Franciscato (2003) vai enfatizar a contribuição que a relação entre crianças com níveis de desenvolvimento diferentes oferece:
quando a criança, mais capaz, mais experiente ou mais adiantada num dado campo do seu desenvolvimento e em um dado momento de sua trajetória, torna-se orientadora de uma outra criança, sua parceira, que por sua vez, menos capaz, menos experiente, menos adiantada num dado momento num dado campo do conhecimento (41).
O foco do terceiro trabalho foi o da distinção entre socialização primária e secundária como aspectos significativos para a compreensão do psiquismo infantil:
a criança utiliza, inicialmente, as mesmas formas de comportamento que outros utilizam com ela, vê o outro como complemento de si mesma e a partir daí surgem os comportamentos de imitação, medo, ansiedade, entre outros, que vão se desenvolvendo a princípio, com base num referencial: os membros do ambiente familiar. Quando a criança começa a freqüentar a escola inicia-se a socialização secundária, (...). A criança passa a conhecer mundos diferentes daquele interiorizado na socialização primária (Racy: 1995: 10).
Stoltz (2001) foi a única entre os autores selecionados que se baseou em Piaget para a realização de sua pesquisa, buscando verificar a influência do tipo de interação social na tomada de consciência na noção de conservação da substância e do peso, entendendo como noção de conservação a capacidade de reconhecer que determinados atributos de um
objeto se mantêm a despeito das transformações em sua forma. (p. 3)
A autora conclui em seu trabalho que não há uma relação direta entre o desenvolvimento moral e social e o desenvolvimento cognitivo. O que são indicativos de que
o maior ou menor desenvolvimento em um ou outro domínio esteja relacionado aos questionamentos e desafios que o meio realiza sobre os atos da criança, seja no domínio moral ou intelectual, promovendo sucessivas tomadas de consciência. (p. 158)
Quanto aos trabalhos que pesquisaram a interação infantil, pode-se verificar que, apesar do número reduzido de trabalhos, o referencial mais utilizado foi o da psicologia sócio-histórica, com base em Wallon e Vygotsky, com estudos que procuraram investigar
diferentes aspectos nela envolvidos. O trabalho com base em Piaget parece ter se centrado muito mais na noção de conservação do que em aspectos específicos das interações.
Pesquisas sobre desenvolvimento infantil
Sobre os estudos que pesquisaram o desenvolvimento, foi possível verificar dois enfoques principais. Parte dos trabalhos está mais voltada para o desempenho das crianças nas atividades, enquanto a outra está mais centrada na questão do desenvolvimento cognitivo, ou seja, as pesquisas tiveram por objetivo investigar a memória, a correlação entre pensamento e fala e a formação do pensamento da criança.
A pesquisa realizada sobre a memória (Mozzer: 1994) foi parcialmente uma replicação da pesquisa realizada por Leontiev e teve como objetivo verificar se crianças em idade pré-escolar (entre cinco e sete anos de idade) são capazes de utilizar instrumentos e signos da cultura para lhes ajudarem na lembrança de fatos.
Assim, a investigação sobre a memória da criança privilegiou o uso dos signos e
instrumentos, culturalmente transmitidos, no processo de formação das funções psicológicas superiores. (Mozzer:1994: 18)
Desta forma, Mozzer (1994) enfatiza tanto o uso de instrumentos (funções que se
desenvolvem no decorrer da vida do indivíduo, sendo que a característica fundamental nas formas superiores de comportamento se encontra na função humana que manipula instrumentos para alcançar determinados fins) (p: 20) quanto o de signos (sistemas criados pela cultura que medeiam a relação do homem com os demais e consigo mesmo, ou seja, ‘ os signos são na sua origem, mediações para regular a conduta dos outros. Com eles os demais regulam a conduta das crianças e estas a conduta dos outros). (p: 31)
A segunda pesquisa sobre o desenvolvimento cognitivo (Fagotti: 1994) privilegiou a correlação entre pensamento e fala de crianças entre 2 e 6 anos, se baseando na teoria de Wallon e envolvendo três blocos temáticos: o mundo natural, o mundo sócio cultural e o mundo pessoal.
A partir dos blocos temáticos, a autora deu ênfase aos processos e mecanismos pelos quais se dá a construção conceitual do pensamento das crianças, tendo como principal objetivo captar a movimentação do pensamento da criança revelada em sua fala
cheia de flutuações, interrupções, intercalações de temas alheios ao tema proposto, na forma de desvios ou digressões. (p. 49)
O último trabalho relacionado à formação do pensamento da criança parece estar inserido no contexto mais amplo das pesquisas sobre a cognição social, tendo como principal objetivo contribuir para a compreensão da mente infantil, utilizando-se da Teoria da
Mente. Sobre a teoria da mente, a autora afirma que a pergunta central não é se a criança
teria uma teoria da mente, mas quando ela adquiria uma teoria da mente.
Mais adiante, na tentativa de explicar o que seria a teoria da mente a autora afirma que:
para atribuir um estado mental a uma outra pessoa, é necessário que a criança compreenda que o outro tem uma mente que independe da dela, que ele tem crenças e desejos, que pensa, sabe esperar, ... Enquanto a criança ainda não constitui essa compreensão sobre a mente do outro, ela não se dá conta de que um mesmo evento pode ter diversas interpretações, e que estas interpretações servem para orientar os comportamentos, inclusive os seus. Ser capaz de atribuir um estado mental é uma habilidade, e essa habilidade tem sido chama de teoria da mente. (p.04).
Outro ponto importante que a autora ressalta é sobre a importância do estudo a teoria da mente para a criança:
Defendemos a importância do estudo da teoria do desenvolvimento de uma teoria da mente, por ser a habilidade de atribuir estados mentais aos outros e a si mesmo, uma condição fundamental para a interação social e para a socialização da criança, sendo, portanto, indispensável também para a sua escolarização, tendo-se em vista as relações entre a socialização e os processos de aprendizagem” (08).
Para a realização da pesquisa, a autora aplicou quatro tipos de tarefas a serem executadas pelas crianças, e também foram utilizadas as provas disponíveis na literatura da área, conhecida como Tarefa de Sally6.
Pesquisas sobre desempenho infantil
Os trabalhos que tiveram como foco o desempenho das crianças nas atividades foram em número de dois, apresentando enfoques bastante diversos.
Gonzalez (1980) teve como objetivo verificar os efeitos da auto-verbalização e do
feedback no desempenho de crianças na tarefa de classificação livre, com base nas
contribuições de Piaget e utilizando-se de abordagem de tipo experimental.
6
Esta tarefa necessita de duas boneca, duas caixinhas com tampa e duas bolinhas. O experimentador mostra a criança uma boneca chamada ‘Lica’ que tem 1 bolinha e uma caixinha vermelha. O experimentador, então, diz a criança que Lica precisa sair para ajudar o irmão e guarda a bolinha dentro da caixa. O experimentador tira a boneca da vista da criança, deixando a caixinha na mesa junto a ela, e apresenta outra boneca chamada Nana. Nana também tem sua bolinha e uma caixinha, que é azul. Com a saída de Lica, Nana abre a caixa da amiga e troca sua bolinha de lugar, colocando a bolinha de Lica dentro da caixinha azul. O experimentador diz que a Lica esta voltando e, então, pergunta a criança: Qual o primeiro lugar em que Lica vai procurar sua bolinha assim que voltar? Pedia a criança que justificasse a resposta. Esta tarefa tinha como objetivo avaliar a capacidade de atribuição de falsa crença da criança.
Sua ênfase, portanto, foi sobre as características da cognição infantil na etapa das operações concretas, pois sabemos afinal, de acordo com Piaget, que a partir dos 07 anos
as crianças já atingiram a fase de classificação operatória. (p. 25).
A ênfase dada por Pinto (1985) foi a inter-relação entre os papéis sexuais e a cognição, cotejando resultados alcançados entre crianças ditas “normais” e com deficiência mental, utilizando como embasamento teórico Piaget e Kohlberg (teoria da tipificação sexual), ou seja, o foco foi sobre as figuras parentais e fraternas introjetadas (...), os perfis
comparativos dos diferentes membros da família nuclear, conforme percebido pelos sujeitos, verificando como estas percepções se modificam em função da idade e do nível intelectual,
concluindo que a percepção das crianças quanto aos papéis de pai, mãe e auto conceito
podem variar em função do sexo, da idade e do nível intelectual. (p. 174).
Diferentemente das pesquisas sobre desenvolvimento infantil, a referência teórica mais utilizada em relação ao desempenho infantil foi Piaget, que serviu de base para investigações sobre aspectos diferenciados.
Pesquisas sobre problemas/distúrbios infantis
Quanto às pesquisas sobre problemas\distúrbios na infância, constatamos enfoques e temas específicos bem distintos.
Entre os sete trabalhos voltados a esta temática, três deles investigaram a questão da obesidade infantil, outros dois, distúrbios psicológicos, e mais outros dois cujo enfoque recai sobre conseqüências de doenças infantis.
Entre os que analisam a questão da obesidade infantil (Carvalho:2004, Silva:1993 e Gomes:1996), todos procuram ultrapassar a perspectiva meramente biológica (decorrentes de problemas genéticos, endocrinológicos ou neurológicos), que restringiria a perspectiva somente no excesso de gordura, mas procurando entendê-la por uma multiplicidade de fatores: psicológicos, sócio-ambientais, domésticos, culturais, familiares, entre outros.
Duas delas deram ênfase à relação do desenvolvimento da obesidade infantil com o contexto familiar e outra destacou a forma como a criança obesa se vê no mundo, como ela se percebe.
Entre as duas primeiras, Carvalho (2004) destaca a:
necessidade de compreender a criança obesa, nos sistemas de que faz parte e identificar não só os desequilíbrios que podem estar sendo manifestos em seu corpo, como também os desequilíbrios que ocorrem nas interações com os sistemas mais amplos: família, escola, bairro, comunidade, serviços de saúde e outros. Ao mesmo tempo, devem ser consideradas as repercussões dos desequilíbrios dos sistemas mais amplos na criança e no seu organismo (62).
Quanto à segunda pesquisa, que também estudou a relação entre a criança obesa e a família, Gomes (1996) também destaca a importância da criança no contexto familiar. Assim, a autora afirma que:
A obesidade infantil, como todo fenômeno, inscreve-se no curso da existência do ser humano e deve ser vista como um sinal da relação da criança com o mundo e consigo mesma (38).
Na pesquisa desenvolvida por Silva (1993) sobre a maneira como a criança obesa se percebe, a autora afirma que a obesidade infantil, além dos aspectos fisiológicos, pode trazer sérios efeitos na forma da criança sentir-se. O que a autora ressalta é que esta forma negativa de se perceber permanecerá presente em sua vida mesmo que a criança consiga reduzir o peso.
Assim, Silva (1992) afirma que:
o que deve levar em conta para a criança obesa, não será o índice de pessoas que a rejeitam, o evento que vai marcá-la, mas sim o fato de uma pessoa qualquer, de forma agressiva, colocá-la diante de uma realidade que ela não consegue esconder, a sua obesidade vista como aspecto negativo para a sociedade (29).
Os dois trabalhos que pesquisaram distúrbios psicológicos presentes na criança também dão ênfase ao contexto familiar.
Em um dos trabalhos sobre os distúrbios na infância, Henckel (2002), com base na Teoria Freudiana, enfoca, especialmente, a inibição para investigar o mecanismo de funcionamento do aparelho psíquico infantil, inibição esta expressa pelo não falar, não olhar, não brincar, não aprender.
A autora ainda chama a atenção para a diferença entre sintoma e inibição quando afirma que a inibição e o sintoma estão intrinsecamente relacionados nas neuroses, não implicando com isso, que a primeira fique subsumida no segundo, quando cada qual ganha um estatuto particular. (p. 106).
Quanto à outra pesquisa sobre os distúrbios infantis, Chui (2001) dá destaque ao sintoma relacionado aos problemas de aprendizagem, baseada na teoria psicanalítica com uma abordagem freudiana.
De acordo com a abordagem utilizada, o sintoma é entendido como expressão de
uma disfunção familia , em que todos os membros encontram-se envolvidos (05).
Neste sentido, o foco da pesquisa foi o de verificar como os processos do ambiente
humano com seus valores culturais interferem na realização de potenciais intrínsecos ao indivíduo(03).
Como se pode verificar, os dois trabalhos acima centralizam suas atenções sobre a estrutura familiar na investigação de distúrbios psicológicos, bem como ambos se utilizam da abordagem freudiana como referencial teórico básico.
Entre as pesquisas com foco nas doenças infantis, ambas investigaram suas conseqüências psicológicas: uma enfocando a artrite reumatóide e a outra a doença oncológica.
A pesquisa que discutiu as conseqüências psicológicas em crianças com artrite reumatóide (Tosta: 2001) fundamentou-se na teoria de Winnicott, por meio de cinco eixos: cuidado materno, dependência, identidade pessoal, transicionalidade, integração social e dissociação psicossomática.
O eixo da pesquisa foi a personalização da criança e, assim, a autora deu ênfase à
sensação que a pessoa tem de viver no próprio corpo, o sentimento de ser uma unidade de funcionamento da psique e do corpo. (p. 27).
Quanto ao trabalho realizado sobre os aspectos psicológicos do paciente da pediatria oncológica (Kato:1986), a autora utilizou como referencial teórico a Teoria do Apego dos autores Jonh Bowldy e J.P. Feigener.
Quanto à Teoria do Apego, a autora afirma que o apego pode ser observado nas
várias formas de comportamento assumido pela criança com o intuito de obter ou manter a proximidade desejada com a figura do apego. Tais comportamentos podem estar presentes ou ausentes e dependem em alto grau das condições do momento (9).
Kato (1986) constata em sua pesquisa um desconhecimento das crianças sobre a doença, sendo que a maioria constata a gravidade da doença apenas quando ocorre uma recaída. Outro ponto de destaque na pesquisa é a presença do Luto Antecipatório dos pais, por terem uma representação da doença como fatal, enquanto que nas crianças a visão do Luto Antecipatório aparece apenas quando ocorre um piora da doença.
Quanto à estruturação psicológica da criança, Kato (1986) afirma que esta condição da mesma acarreta modificações que se dão de modo mais ou menos adaptativo, existindo a possibilidade de que as alterações detectadas a nível cognitivo, afetivo persistam a ponto de afetar de modo permanente a personalidade em desenvolvimento.
As pesquisas da criança na condição de aluno
Um quarto grupo de trabalhos teve como objetivo pesquisar as diferentes perspectivas da criança no papel de aluno, envolvendo quatro produções.
Desta forma, Masini (1994) pesquisou a condição do aluno de pré-escola com base na teoria de Piaget, analisando os dados numa perspectiva fenomenológica, por meio de oito categorias: o brincar, brincando; o brincar permitido; o brincar não permitido; a liberdade de desenhar; o desenho direcionado; o manifestar da escrita; o expressar da afetividade; e o conviver da obediência.
A autora dá ênfase ao fato de que as crianças apreendem-se como pré-escolar por
meio de um fazer. Este fazer nos remete à percepção de valores que são cultivados pela instituição e trabalhos no cotidiano da sala de aula (p. 119), sendo imersas em um mundo
de obediências, regras, normas, que devem ser cumpridas, pois assim serão aceitas pela professora e colegas (...). (p. 120).
Sousa (2001) discute em sua pesquisa a dor da exclusão de crianças que nunca freqüentaram a escola. Para isso, a autora utiliza-se do conceito de identidade, questionando a forma como essas crianças se percebem, na medida em que não representam o papel de estudante que lhe é destinado.
Para tanto, privilegia o conceito de identidade social (Ciampa: 2001)
como a articulação de várias personagens, articulação de igualdades e diferenças, constituindo e constituída por, uma história pessoal. Identidade é história. Isto nos permite afirmar que não há personagens fora de uma história, assim como não há história sem personagem. ..., os personagens são vividos pelos autores que as encarnam e que se transformam, à medida que vivem sua personagem.
Silva (1999) realizou em sua pesquisa uma comparação quanto ao desempenho, comportamento e aprendizagem dos alunos de 2ª e 3ª série do Ensino Fundamental que freqüentavam a creche e a escola e os que freqüentavam apenas a escola.
Assim, a ênfase dada por este autor se voltou para as diferenças de desempenho entre alunos com inserção institucional diferentes, concluindo que os alunos que tiveram
acesso, no contraturno, à creche, conseguiram melhor desempenho nas provas de português, foram mais assíduos às aulas, além de desenvolverem maior interação com os professores e com os outros colegas. (p. 146).
Pires (1996) privilegiou em sua pesquisa a concepção que as crianças entre 8 e 10