A expressão quality television apareceu pela primeira vez na década de 1980 no contexto intelectual britânico, o que levou pesquisadores de todo o mundo a adotar o termo para designar uma nova maneira de se pensar a televisão. Nesse cenário, as discussões remetiam tanto a aspectos éticos quanto estéticos. De modo geral, os critérios de qualidade associados mais diretamente ao campo ético privilegiavam o papel social da TV, assim como sua função educativa.
A primeira publicação que veio a oficializar o termo foi o livro M.T.M: Quality television, publicado em 1984 pelo British Film Institute sobre a contribuição dada à televisão pela
53 M.T.M. Enterprises pela produção de alta qualidade estética do seriado Hill Street Blues. Este seriado se destacou porque, mesmo produzido em escala industrial, condicionado à audiência, apresentou cuidado e inovação estética, o que chamou a atenção dos críticos e estudiosos da TV. Pouco antes disso, uma pesquisa também financiada pelo B.F.I. resultou em uma virada na produção dos media studies sobre televisão. Everyday television, Nationwide (1978), de Charlotte Brundson e David Morley, analisou o programa Nationwide, voltado para um público mais vasto e heterogêneo. O livro põe em cena a vontade de explorar a maneira pela qual esses programas de diversão de massa tratam as condições de vida e a experiência de homens e mulheres de diversas camadas sociais, e participam da construção de um senso comum popular. Para Mattelart e Mattelart (1995), esse estudo marca o ponto de partida de uma investigação sobre os gêneros populares.
Segundo Feuer (2007), mesmo antes da noção de everyday television se fixar, a ideia de quality drama existia na forma de teleteatros ―antológicos‖ nos anos 1950. De escritores do teatro nova-iorquino, voltados a uma audiência elitizada e financiados por patrocinadores como produções de prestígio, esses dramas televisivos carregavam o selo de teatro ‗legítimo‘ (2007: 146).
Por um lado, eles se definiam como programas de qualidade porque exploravam uma característica essencial de suas mídias: a habilidade da televisão de transmitir ao vivo quando os filmes não o faziam. Por outro lado, o prestígio veio de uma associação com uma forma de arte ―maior‖: o teatro, visto pelos intelectuais como forma de arte superior ao cinema. Assim, no cenário britânico, a TV passou a ser mais bem vista que o cinema, pois por ser ao vivo, se aproximava mais do teatro.
Não é de se estranhar que a discussão tenha sido originada na Grã-Bretanha, cuja estrutura televisiva é referência de muitos estudos ainda hoje. Laurindo Leal Filho publicou no Brasil o livro ―A melhor TV do Mundo: o modelo britânico de televisão‖, cujo título reflete sutilmente o impacto positivo do modelo na visão do autor. Para Leal Filho (1997), um dos fatores de destaque da programação no sistema de televisão britânico resulta do rigoroso controle de qualidade do conteúdo televisivo. Em 1954, o governo britânico criou a Lei da Televisão, a fim de controlar a televisão comercial. Essa Lei foi substituída dez anos depois pelo relatório ―White Paper‖, escrito por uma comissão criada para analisar o futuro das transmissões no
54 Reino Unido. A lei estabelecia regras para a programação e publicidade na televisão comercial. Essas regras foram revistas ao longo dos anos e outros documentos de regulação foram criados, até o BroadCastingAct 90. Estes documentos apresentavam uma série de normas a serem seguidas, com a finalidade de manter uma programação de TV com qualidade. No BroadcastingAct 90 a questão da qualidade foi enfrentada com a busca de conceitos capazes de dar ao termo algum entendimento comum, por meio do uso de expressões referentes aos programas que os classificavam por serem, por exemplo, inovadores, criativos ou desenvolvidos com altos custos de produção. Essa classificação valeria não só para a programação dirigida a públicos restritos como também para as grandes audiências. (LEAL FILHO, 1997: 55)
Na televisão britânica, todo esse processo de regulamentação da teledifusão foi acompanhado e orientado por relatórios, comissões e comitês formados por intelectuais, empresários e representantes de instituições públicas e governamentais. As discussões criaram um contexto de diálogo e debate sobre a qualidade na televisão, que ganhou espaço em núcleos intelectuais e culturais na Europa e Estados Unidos, onde ainda hoje se concentra a maior profundidade de discussão sobre o fenômeno, até ganhar força no Brasil e na América Latina desde a década de 1990.
Na mesma década, Robert J. Thompson conseguiu argumentar que ―quality drama‖ se tornou um gênero em si, completo com seu conjunto próprio de características (FEUER, 2007: 148). A partir de então surge uma vasta gama de definições e conceitos para fundamentar o discurso da qualidade. Esse conjunto de regras, no Brasil, é usualmente referido como ―TV de qualidade‖.
Apesar da costumeira tradução, Machado (2005) aponta que a expressão ―TV de qualidade‖ produz uma discriminação nociva à ideia que se quer defender, pois tratar a qualidade em televisão como um acréscimo, um desvio da norma, apenas reforça o equívoco de que ela não possui qualidades. Esses termos dão a impressão de que aquele conteúdo que apresenta alguma qualidade existe isolado em meio a um mar de mediocridade, quando a ideia é que a qualidade atinja todos os processos da TV, desde a produção à recepção, para que o discurso seja amplo, e não segregador.
55 Buonanno (2004) distingue as duas expressões, ―ficção de qualidade‖ e ―qualidade da ficção‖. Entende que a primeira constitui a abordagem mais tradicional e se aplica a um produto específico e exige uma definição prévia de critérios objetivos: artísticos, técnicos, temáticos, de popularidade, etc. Sendo assim, a ―TV de qualidade‖ seria qualquer programa que cumprisse os critérios estabelecidos. Apesar de admitir a relevância deste tipo de abordagem, a autora acredita que esses fatores se deparam com impasses como declarações de puro senso comum e consenso generalizado, que se tornam matéria de opinião, de interesse ou de imposição de poder. A segunda prerrogativa já não é atributo de um programa particular, mas uma perspectiva construída sobre toda a variedade da grade de programação em determinado período de tempo. Assim, a qualidade refere-se ao ambiente produtivo e às propriedades culturais presentes na diversidade da programação, pois aí se identifica o grau de evolução de uma indústria e se constroi a sua competitividade. O panorama da ficção representaria um pedaço do país que foi caracterizado e apresentado ao público, e perpassa a noção de uma comunidade imaginada criada pela TV e suas representações. Neste capítulo trataremos das duas formulações a respeito da qualidade e seus critérios distintos. No entanto, pelas razões apresentadas pelos autores acima referidos, a partir de agora a expressão ―TV de Qualidade‖ aparecerá entre aspas.