Adotando a concepção de Iamamoto, (2003) o Serviço Social enquanto profissão particulariza-se nas relações sociais de produção e reprodução da vida social como uma profissão interventiva, alterando e transformando-se de acordo com as mudanças que ocorrem nas questões sociais e nos processos de exclusão.
O objeto de trabalho do assistente social é a questão social em suas múltiplas expressões. Sendo assim, dependendo da área de atuação do assistente social o objeto se modifica. O objeto, que também pode ser entendido como aquilo sobre o qual recai a ação profissional seria sempre a situação em que o usuário está inserido e não o próprio indivíduo, mas seu sistema de relações sociais.
O Serviço Social da SERTE, precisamente o que atua na frente de trabalho do Lar dos Velhinhos Irmão Erasto, tem como meta conjugar pessoas e esforços com vistas a garantir o acesso dos idosos a todos os seus direitos, ao atendimento de todas as necessidades biopsicossociais e espirituais, bem como construir um conhecimento científico, formando indicadores que permitam uma análise mais ampla das instituições de longa permanência. Seu papel também está na problemática que a questão do idoso hoje representa para a sociedade e, principalmente, ser o facilitador e fomentador de políticas públicas que contemplem o cidadão idoso e também o desafio de melhor aproveitar o tempo que o idoso ainda tem para viver de uma maneira saudável, independente e até produtiva, elevando sua qualidade de vida e sua auto-estima.
O Serviço Social atua no sentido de propiciar aos idosos assistidos todo atendimento necessário ao seu bem estar psicossocial e evolução espiritual buscando o resgate da alegria de viver, da dignidade como ser humano e, principalmente, da sua condição de cidadão enquanto sujeito de direitos e deveres.
O Serviço Social da SERTE, no Lar dos Velhinhos Irmão Erasto, atua de forma a garantir aos idosos: acesso aos benefícios da Previdência e Assistência Social; Acesso aos Serviços de Saúde; Representação legal, através dos Processos de Curatela aos idosos que não têm condições físicas e mentais; Possibilidade de contribuir com seu benefício nos gastos da instituição; Administrar com autonomia parte de seu benefício.
Assistente Social representando a SERTE nos Conselhos de Direitos como: Conselheira Titular do Conselho Estadual do Idoso; Conselheira Titular do Conselho Municipal do idoso; Membro da Comissão de Assistência Social da OAB; a elaboração de Pareceres Técnicos, para verificar denúncias de maus tratos a idosos.
Faz parte do cotidiano de atividades do Serviço Social: o planejamento de ações voltadas para o bem estar da população alvo: os idosos; a elaboração de projetos de melhorias; os fóruns internos; as avaliações de resultados; a elaboração de relatórios e as reuniões interdisciplinares; abordagem junto ao idoso; Atendimento à família; Atendimento à comunidade; Atendimento aos voluntários; Grupo de Convivência; Atividades burocráticas; Contatos e reuniões com a rede de apoio; Reuniões técnicas; Eventos; Solicitações de Vaga; Providências na ocorrência de óbitos; Administração de conflitos; Utilização do espaço físico; Visitas domiciliares; Entrada; Óbitos.
Na SERTE, através do Serviço Social os idosos são estimulados à buscarem sua independência e sua autonomia. Através de projetos e do próprio dia a dia, eles são levados a repensarem sua condição, sua velhice e se adaptarem de forma conviver com a situação e tirar proveito da idade avançada. Com o repasse de 30% do benefício para os idosos, conforme previsto em lei18, eles são estimulados a saírem para fazer compras pessoais no comércio local, acompanhados de voluntários, visando sua autonomia e o exercício de atividades funcionais.
Nos grupos de convivência são debatidos temas atuais e condizentes com a situação da instituição, da vida dos idosos e outros que levam à reflexão, ao debate e trazem à tona experiências em comum, com o propósito de desmistificar a institucionalização como algo ruim e a velhice como o fim de tudo e como etapa da vida em que chega a enfermidade. Trabalhando com estes temas, a assistente social e a psicóloga, que são quem elaboram e executam o grupo de convivência e o grupo de estimulação cognitiva19, levam o idoso à adaptação ao dia a dia da instituição, construindo uma representação da velhice como uma passagem comum a todos moradores da SERTE, através de suas experiências comuns, e uma etapa do ciclo de vida em que necessitam de cuidados específicos, como todas as demais etapas da vida, infância, adolescência e fase adulta. Isso impede casos de depressão, de
18 Art. 35. § 1º No caso de entidades filantrópicas, ou casa-lar, é facultada a cobrança de participação do idoso
no custeio da entidade.
§ 2º O Conselho Municipal do Idoso ou o Conselho Municipal de Assistência Social estabelecerá a forma de participação prevista no § 1º, que não poderá exceder a 70% (setenta por cento) de qualquer benefício previdenciário ou de assistência social percebido pelo idoso.
19 Os grupos de convivência e de estimulação cognitiva são projetos elaborados e realizados em parceria do
serviço social com a psicologia, a fim de trabalhar com os idosos, semanalmente, a memória, a participação, a socialização e a integração.
enfermidades mentais e auxilia o idoso a adaptação à velhice.
A seguir o quadro de atividades diárias dos idosos elaborado pelas assistentes sociais em parceria com os demais profissionais que trabalham nos cuidados com os idosos, assim como psicóloga, enfermeiros, médicos, técnicos, funcionários em geral e voluntariado.
O quadro de atividades diárias foi elaborado pelas assistentes sociais, psicóloga, voluntários e profissionais da saúde, com o objetivo de criar uma rotina organizada.
HORÁRIO SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO
08:00 Café da manhã Café da manhã Café da manhã Café da manhã Café da manhã Café da manhã Café da manhã 09:00 Tempo livre Grupo de convivência Palestra Profº Ademar Grupo de dança “As Margaridas” e integração com dança de todos os idosos. Grupo de estimulação cognitiva Tempo livre Tempo livre 10:00 Tempo livre Grupo de convivência Grupo mediúnico Tempo livre Grupo de estimulação cognitiva Tempo livre Tempo livre
11:00 Almoço Almoço Almoço Almoço Almoço Almoço Almoço
12:00 Tempo livre Tempo livre Tempo livre
Tempo livre Tempo livre Tempo
livre
Tempo livre
13:00 Tempo livre Tempo livre Tempo livre
Tempo livre Tempo livre Tempo
livre Tempo livre 14:00 Mexa‐se Tempo livre Tempo livre
Mexa‐se Tempo livre Tempo
livre Tempo livre 15:00 Café da tarde Café da tarde Café da tarde Café da tarde Café da tarde Café da tarde Café da tarde
16:00 Tempo livre Tempo livre Evangelho nos quartos Quinzenalmente Estudo do evangelho Tempo livre Tempo livre Tempo livre
17:00 Tempo livre Tempo livre Tempo livre
Tempo livre Tempo livre Tempo
livre
Tempo livre
18:00 Jantar Jantar Jantar Jantar Jantar Jantar Jantar
QUADRO 1 - Quadro de atividades dos idosos no Lar dos Velhinhos Irmão Erasto.
Com o objetivo de criar uma vida social e comunitária, os profissionais que elaboraram o quadro de atividades diárias, criaram-nas para que preenchessem os dias dos idosos, mas para que também pudessem ter um tempo livre para utilizarem como quisessem, preservando assim sua autonomia e liberdade. Refeições à parte, as atividades visam unir o maior número possível de moradores do lar e, com isso, criar uma rotina comum, evitando assim o isolamento e a depressão. Algumas atividades são executadas pelos voluntários como, por exemplo, as palestras e encontros religiosos e as atividades físicas, já os trabalhos técnicos são realizados por assistentes sociais, psicólogos e médicos, auxiliando no tratamento físico e mental dos idosos. O quadro é organizado de forma a evitar choque de atividades e sobrecarga de tarefas aos idosos, e também preservar seu tempo livre.
No trabalho de Elaboração de projetos de melhorias na qualidade de vida dos idosos e no dia a dia da instituição é competência do serviço social o estudo e a intervenção dos estagiários. O aprendizado da prática do fazer profissional, do aprender a fazer serviço social, inclui a participação nas tarefas do dia a dia, nas atividades do cotidiano da instituição e da elaboração de plano de estágio, um projeto feito no âmbito da instituição visando à intervenção do estagiário.
A partir das nossas próprias dúvidas, e observando dentro da instituição a falta de um maior conhecimento em relação à institucionalização, desenvolvemos nosso plano de estágio, para, com base nas informações coletadas traçar propostas de intervenção junto às famílias, aos idosos e à instituição, a fim de conhecer os motivos reais de uma institucionalização e das necessidades das famílias envolvidas. Tais propostas de intervenção pautaram-se nas necessidades e dificuldades das famílias em manter o vínculo com o idoso, e na falta de informações acerca do assunto: institucionalização.
O plano de estágio que desenvolvemos foi elaborado para suprir algumas necessidades da Instituição e do seu público alvo: os idosos. Consistiu em uma coleta e tabulação de dados para traçar o perfil dos idosos institucionalizados e das suas famílias, a fim de traçar propostas de intervenção a partir das necessidades, dificuldades, sentimentos, angústias e subjetividades em comum para o resgate e o fortalecimento dos vínculos afetivos, para proporcionar ao idoso o apoio e o carinho que só a família pode dar e para proporcionar à família possibilidades de apoio para que possa participar da vida dos seus idosos. Enfim, tinha por objetivo fazer um trabalho de conscientização, reflexão e conhecimento da institucionalização e, a partir daí, possibilitar a aproximação das famílias, mesmo depois da internação, chamando a atenção para suas responsabilidades.
atividades realizadas pelo serviço social, pudemos assistir abordagens realizadas pelas assistentes sociais junto aos idosos, referentes a problemas pessoais, de relacionamento comunitário e familiar, assim como abordagem junto às famílias, solicitação de vagas e abordagem junto aos funcionários. Também conhecemos os idosos, individualmente, seus nomes e um pouco de suas histórias. Durante as abordagens aos idosos observamos que todos são protagonistas de histórias, diferentes umas das outras, mas que levaram à institucionalização na SERTE.
Começamos então a observar que nem todos os idosos foram abandonados pela família, pensamento que até então nos acompanhava, juntamente com julgamentos e preconceitos a respeito de instituições asilares e de idosos institucionalizados. Notamos os diferentes tratamentos dispensados aos idosos, pelos funcionários, assistentes sociais, técnicos e pelos demais profissionais da saúde. Cada segmento populacional, funcionários, comunidade, familiares e profissionais, dá um tratamento aos idosos dando, a partir daí, parâmetro para seu comportamento. Por exemplo, alguns funcionários, como recepcionistas e técnicos tratam os idosos, mesmo sem o consentimento das assistentes sociais, como “vôzinho”, ou “tio”, “pobrezinho”, fazendo com que os idosos possam incorporar essas rotulações em suas representações sobre a velhice e em seu próprio comportamento. Comportam-se como crianças, desobedientes e impacientes, e isso interfere em todo o trabalho que o assistente social faz para reforçar a autonomia e a independência, assim como o trabalho em estabelecer regras para todos, como horário de refeição, banho e descanso que regem a organização da instituição.
Já as assistentes sociais tratam os idosos como cidadãos de direito, que fazem parte de um segmento da sociedade, que estão em uma determinada fase do ciclo vital, mas que têm necessidades específicas. Tratam-os com respeito, mas cobram dos idosos algumas responsabilidade que lhes cabem. Por exemplo, os idosos independentes têm funções específicas no dia a dia da instituição, de acordo com suas limitações, e se essas responsabilidades não são cumpridas, sua atenção é chamada. Isso faz com que o modo como os idosos se comportem junto à assistente social seja um comportamento adulto, regrado, procurando mostrar que são capazes de exercer atividades funcionais e mentais e que são responsáveis por seus atos.
A falta de informações e a concepção de senso comum que tínhamos acerca do idoso institucionalizado, é que nos fez notar a necessidade de aprofundar nosso conhecimento com o intuito de aprimorar o entendimento de todas as categorias envolvidas no nosso trabalho: família, idosos, institucionalização e com isso desmistificar nossos próprios preconceitos e
dúvidas.
As casas asilares, assim como a SERTE, estão diretamente ligadas ao idoso carente sem família ou abandonado. Dentro das instituições que abrigam idosos, existem todos os tipos de famílias de diferentes classes sociais, nacionalidades, localidade, com diversos motivos de internação. O que em geral causa estranhamento é o fato de uma família ter boa situação financeira e internar um idoso, logo formando-se uma concepção tomada de preconceitos. Esse fato nos chamou atenção durante o período de estagio na SERTE, revelando como as pessoas formam opiniões com base nas aparências e rotulam as outras pelo que julgam.
O trabalho de coleta de dados, realizado no período de estágio, quando traçamos o perfil dos idosos e familiares, foi pensado de forma a conhecer as famílias, os idosos e trazer ao conhecimento da instituição como um todo, informações que ainda não lhes eram conhecidas, para entender melhor a situação do idoso institucionalizado assim como sua família. Conhecer a família, suas angústias e necessidades ainda traria a possibilidade de reforçar os vínculos familiares e aproximação com a instituição, fatos esse que com o tempo acabam enfraquecidos e até sendo esquecidos.
Como metodologia para a realização da coleta de dados foi utilizada técnica de: identificação e conhecimento dos idosos a serem entrevistados assim como suas famílias; consulta aos prontuários e documentos da instituição e no livro de visitas; consulta aos demais profissionais que fazem um trabalho interdisciplinar junto ao idoso; acompanhamento das atividades diárias dos idosos; elaboração de um formulário de entrevista; visitas domiciliares; coleta de dados e tabulação e leituras e análise bibliográfica de acordo com as categorias analisadas: famílias, entrevistas, idoso, envelhecimento, instituição, Leis, Legislação e Estatutos, etc.
Com a conclusão do trabalho pudemos conhecer o perfil dos idosos institucionalizados na SERTE, assim como o perfil das famílias desses idosos, seus motivos, angústias, concepções e perspectivas. Pudemos conhecer a realidade sobre esse segmento da população, além do conhecimento e a representação sobre a institucionalização, famílias e idosos. Ao produzir e aprofundar o conhecimento que já tínhamos, pudemos traçar dentro da instituição algumas intervenções com base nas dificuldades apontadas, como por exemplo: aumentar a assiduidade nos eventos proporcionados pela instituição; encaminhar cartas e telefonemas às famílias antes dos eventos. Outras propostas de intervenção20 foram traçadas através do
20 Ver Apêndice A. Percebemos que antes de assumirmos nosso estágio as famílias pouco compareciam aos
conhecimento produzido, assim como o repasse de informações aos funcionários da instituição. A seguir será apresentada a coleta de dados e o que se observou a partir dela.