Na atualidade, quando falamos de clínica, falamos de um método clínico, uma forma de conhecer o problema, que marca a Medicina moderna com/em todas as suas especialidades. “A noção de clínica não decorre de uma teoria particular, mas antes de um método”66
e, como tal, método clínico não é exclusivo da Medicina e, embora tenha sua origem nesse ramo do conhecimento, não se limita ao setor médico ou terapêutico67. Este campo também será apropriado e incorporado a outras áreas, como a Psicologia, mais especificamente a Psicologia Clínica, a Psicanálise - que inaugura transformações bastante particulares nesse modo de olhar/escutar, a Nutrição, a Fisioterapia e, mais recentemente, a Filosofia e a Sociologia.
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SÉVIGNY, R. Abordagem clínica nas ciências humanas. In: ARAÚJO, J. N. G.; CARRETEIRO, T. C. (org.)
Cenários sociais e abordagem clínica. São Paulo: Escuta, 2001, p.17.
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O método clínico é utilizado na prática médica na construção do diagnóstico individual e passa por várias etapas: a formulação do problema pelo paciente, a busca de informações pelo médico através da realização de interrogatórios e exames físicos, a construção de hipóteses diagnósticas e a comprovação final do diagnóstico.
Pensa-se aqui, também, que seguir determinado método implica em seguir uma direção e nortear a pesquisa e seu trabalho a partir de alguns aspectos éticos.
Dessa forma, o método clínico implica em seguir certas condutas na prática da abordagem do doente a partir de critérios que regem a observação dos sintomas. Talvez o passo mais importante a guiar todos os outros seja o diagnóstico, sendo que no processo de elaboração do diagnóstico a entrevista, as conversas, a história clínica, enfim, constituem ferramentas importantes.
Na prática médica ocidental, o método clínico é o instrumento que permite estabelecer a ligação entre teoria e prática. (...) O método é, portanto, o recurso cognitivo ordenador do conhecimento. (...) Todavia, reiteramos que o método de observação clínica é uma criação genuína da Medicina grega clássica.68
Primeiro e antes de tudo, é necessário esclarecer que clínica não remete a um lugar. Este termo cunha uma prática que se dá para além de um lugar particular típico, caracterizando-se não pelo lócus prático, mas antes pela ação, ou melhor, pelo modo de ação.
O termo “clínica” remete à observação direta que se faz junto ao leito do paciente, sendo esta sistematizada, e obedecendo a certas regras e princípios, formulando hipóteses e buscando comprová-las69. Ela difere, em sua essência, do método experimental, este reconhecidamente se impondo como método científico privilegiado.
Se por método experimental entendemos o modo de investigação que se processa a partir de experimentos e realizam a verificação de fenômenos concretos, corremos um risco
68
FRIAS, op. cit., p.16.
69
AGUIAR, F. Método Clínico: Método Clínico? Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, UFRGS, v.14, n.3, p. 609-616. 2001; SÉVIGNY, op. cit.
grave de desconsiderar o que não se produz a partir deste modo como resultado sem validade e pouco científico. Chamamos atenção para as diferenças entre os métodos, o que é muito diferente de reduzir ambos a uma relação de oposição, o que poderia levar a um raciocínio errôneo de que o método clínico se oporia ao método científico.
Sévigny70 faz uma analogia do método clínico - “junto ao leito” - com o trabalho em campo, diferenciando-o assim do método experimental, que abarcaria o trabalho em laboratório. Enquanto o primeiro busca compreender o doente, o segundo buscaria compreender a doença. Esta simples analogia demonstra ao menos um aspecto que difere os métodos: a dimensão do controle.
A pesquisa em laboratório supõe um trabalho de controle do objeto de estudo, o que se dá através do conhecimento e manipulação das variáveis envolvidas. Já a pesquisa em campo, ou “junto ao leito” não permitiria a mesma atitude, uma vez que “perto de” ou “em face” do objeto, ainda mais quando este objeto se assemelha ao pesquisador, o controle de todas as variáveis envolvidas parece quase impossível.
O método clínico, onde praticado – seja no espaço da consulta clínica individual ou numa intervenção em dada instituição – norteia-se sobre o ângulo da singularidade e da especificidade, numa perspectiva que se pretende dialógica e dialética, em que a própria análise já pode ser considerada, em si, uma ação (clínica).
A abordagem clínica implica, assim, uma certa constatação de impotência, de ausência de controle diante de seu objeto de estudo, mas ela implica uma outra forma de controle: aquele que se faz por um processo de integração sintética de dados, em vez de um processo de redução analítica.71
Esta dimensão do controle, por fim, nos leva à dimensão de criação e de abertura ao novo e ao desconhecido, que encontramos na clínica de forma privilegiada, considerando, inclusive, a dimensão intersubjetiva que envolve investigador e objeto de investigação.
70
SÉVIGNY, op. cit.
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Podemos perceber isso tanto na clínica médica como na clínica psicanalítica.
Na clínica médica, quando o médico se coloca frente a seu paciente, o que este traz para o espaço da consulta não se reduz às notas do Black Book, seu guia quase espiritual, mas extrapola a teoria e, muitas vezes, transcende o terreno individual para ser reconhecido como da esfera pública. Na clínica psicanalítica talvez o melhor exemplo seja o da histeria que, não “cabendo” em nenhuma teoria pronta, nem por isso será desprezada.
Outro ponto que queremos destacar é a dimensão técnica e singular presente na concepção de clínica, seja a clínica na Medicina, na Psicologia ou na Psicanálise. Nas três áreas citadas, reconhecemos que cada uma possui um universo de conceitos, teorias e técnicas singulares, no entanto existem elementos que as aproximam e unificam. De tal modo, a clínica, por um lado está centrada na técnica, por outro se funda nos processos de subjetivação e intersubjetividade, seja na Medicina ou em outras disciplinas.
Por dimensão técnica reconhecemos a necessidade da presença de alguns elementos estruturantes, como etiologia, semiologia, diagnóstica e terapêutica. Seguindo cada uma das disciplinas um código particular, bem construído e articulado (no sentido de estabelecer relações internas entre seus diversos elementos), encontramos, respeitando suas particularidades, a presença destes elementos. É esta dimensão, que denominamos técnica, que fornece o rigor e sistematização a todo trabalho clínico.
Por dimensão de “arte de curar”72 ou “curandeira”73
nos referimos à necessidade da presença de relação intersubjetiva, assim como ao reconhecimento e valorização da subjetividade na prática clínica. Estes aspectos podem ser lidos como a perspectiva de criação tão particular a este método, pela sua característica de ausência de controle do objeto e olhar interessado ao que se apresenta como novidade. No encontro com o objeto-sujeito o
72
Conforme adotada por CAMARGO JR., op. cit.
73
Conforme nomeada por BORGES, S. M. N. Por uma clínica que a Psicanálise nos ensina. In: TUNDIS, S. A.; COSTA, N. R. (orgs.) Cidadania e Loucura: Políticas de saúde mental no Brasil. Petrópolis: Vozes/ABRASCO, 1987.
reconhecimento da alteridade fundamenta o trabalho clínico e o aproxima de um encontro que se processa como experiência e, como tal, se realiza como processo em construção e não como mera reprodução.