2. Bracteates
2.3 Typology (techniques, shapes, compositions)
Para Loureda Lamas (2007), Coseriu destacou-se por ser um dos últimos teóricos que conseguiu dominar, com propriedade, todos os campos dos estudos linguísticos em evidência à sua época de atuação, tendo contribuído de modo especial para a análise filológica de diversas línguas naturais e tendo se dedicado a uma vasta produção bibliográfica, não totalmente publicada, sobre Filosofia da Linguagem, Sociolinguística, Estilística, Linguística de Texto, dentre outras áreas dos estudos linguísticos que lhe foram contemporâneos.
Segundo Kabatek (2006), Eugenio Coseriu não adota de modo integral, para seus estudos, a concepção saussuriana de língua como único e verdadeiro objeto de estudo da Linguística, adotando de Saussure (2006) tão somente a perspectiva metodológica estruturalista de abordagem sistemática dos fatos linguísticos, a fim de ampliá-la para os estudos de uma semântica léxica, em sua fase inicial (ao contrário do que afirmam muitos estudiosos subsequentes a Coseriu, que veem em sua metodologia ecos estruturalistas.
Por outro lado, praticamente não há dúvidas entre os linguistas de que a maior contribuição do legado coseriano foi a proposição de uma abordagem dos fatos linguísticos segundo níveis, o universal, o histórico e o individual (o estruturalismo saussuriano tratou de modo muito específico sobre o nível histórico, com primazia do sincrônico sobre o diacrônico). Levando em conta que os textos são o único nível linguístico verdadeiramente concreto a que temos acesso, Kabatek (2006) afirma que a ciência praticada por Eugenio Coseriu é a linguística do sentido, que prioriza a análise dos textos mediante a observação de seus elementos linguísticos ao longo do tempo.
Concebendo a Linguística de Texto como a “hermenêutica do sentido”, Coseriu (LOUREDA LAMAS; COSERIU, 2006, p. 59, tradução nossa30) destaca que:
O discurso é um ato de fala. Mas o falar é uma atividade complexa que vai além do linguístico em sentido estrito; não se fala só com signos linguísticos (pertencentes a uma língua determinada), mas também mediante atividades expressivas complementárias, de acordo com determinados princípios gerais do pensar e de acordo com o conhecimento das ‘coisas’, ou, melhor dizendo, de ideias e crenças sobre as ‘coisas’, de uma determinada ideologia (estratificada em uma série de ‘ideologias’ de alcance mais ou menos amplo), o que contribui para o conteúdo dos discursos.
Para Coseriu (2006), a linguagem nasce de uma capacidade geral dos seres humanos de se expressarem, sendo esta capacidade comum a todos eles. A linguagem é, por assim dizer, uma atividade humana universal, executada individualmente pelos falantes, mas que é realizada em situações determinadas e em comunidades linguísticas caracterizadas por tradições específicas do falar, que se realiza em três níveis, a saber:
(i) nível universal, comum a todos os falantes, em todas as línguas; (ii) nível histórico, acessado pelos falantes no uso de uma língua própria;
(iii) nível individual, acessado pelos falantes em dado contexto, caracterizado pelo conjunto de circunstâncias que determinam o falar.
Cada um destes três níveis, na proposta coseriana, relaciona-se a um tipo de saber, ou seja, a um conjunto de capacidades/competências que respondem pela dimensão sócio- cognitiva dos falantes na realização dos atos de linguagem. São as referidas capacidades:
30 Tradução nossa de: “un discurso es un hecho de hablar. Pero el hablar es una actividad compleja que va más allá de lo lingüístico en sentido estricto, no se habla sólo con signos lingüísticos (pertenecientes a una lengua determinada), sino también mediante actividades expresivas complementarias, de acuerdo con determinados principios generales del pensar y de acuerdo con el conocimiento de las ‘cosas’, mejor dicho, de ideas y creencias acerca de ‘cosas’, de una determinada ‘ideología’ (estratificada en una serie de ‘ideologías’ de alcance más o menos amplio), todo lo cual contribuye al contenido de los discursos”.
(i) saber elocucional, no nível universal, relacionado ao saber falar;
(ii) saber idiomático, no nível histórico, relacionado ao saber exprimir algo segundo as possibilidades de uma língua;
(iii) saber expressivo, no nível individual, relacionado ao saber construir textos adequados a determinados temas, situações e/ou interlocutores.
O nível universal refere-se à capacidade integradora de falar, ou seja, está relacionado à competência de produzir linguagem que apresentam os sujeitos de um modo geral, em qualquer língua (o saber elocucional). Os textos, nesta perspectiva, podem ser entendidos como atos de fala individuais, mas não exclusivamente no plano dos indivíduos, pois apresentam uma dimensão universal, ou seja, características comuns a todos os falares. No entanto, é no fato de os textos apresentarem uma dimensão tradicional, no que se refere ao compartilhamento de modos de dizer no curso da história, que se faz necessário pensar a linguagem também em outros níveis.
O nível histórico, por sua vez, “diz respeito à língua concreta, porque ao falar emprega-se obrigatoriamente uma língua natural – o português, o inglês, o espanhol etc.” (SILVA, 2012, p. 93). A língua, neste nível, é compreendida como o saber tradicional de dada comunidade linguística (saber idiomático), que reflete a capacidade humana de manejar as especificidades de cada idioma para a expressão de proposição de algo em função das possibilidades que cada idioma oferece. Koch (1997), tomando como referência os achados de Coseriu (2006, 2007), rediscutidos por Schlieben-Lange (1983), circunscreve neste nível as tradições discursivas.
O terceiro dos níveis, o individual, refere-se à competência dos indivíduos em produzir textos reconhecendo suas especificidades segundo temas, situações e/ou interlocutores pré-concebidos no ato de falar (saber expressivo). Este nível tem como “produto” os mais diversos textos/discursos, nas modalidades oral e/ou escrita, que podem vir a ser produzidos pelos falantes, condicionados a um contexto de produção situado (ZAVAM, 2009). Para Kabatek (2001b), o tradicional dos discursos reside entre o histórico e o expressivo e está relacionado ao nível de realização dos textos/discursos.
Loureda Lamas (2007), com base nos postulados coserianos, argumenta que o nível tradicional dos textos possibilita vários tipos de estudos, desde os filológicos aos linguístico-textuais, todos eles com base na análise de TD. Concordamos com o autor neste pensamento, uma vez que acreditamos ser possível uma abordagem dos fenômenos discursivos orientada pelo exame dos índices pelos quais se expressam na história.
Devemos ressaltar ainda que, mesmo que segmentados na proposta coseriana para fins de análise e descrição linguísticas no que diz respeito aos traços que lhe dão autonomia (atividade, tipo de saber e produto), estes três níveis atuam de modo integrado sempre que os indivíduos realizam atos de linguagem, desde os mais complexos aos mais simples, em qualquer esfera da atividade humana. Coseriu (2006, 2007) oferece-nos uma representação que põe em destaque as especificidades de cada um dos planos, como se pode ver a seguir:
Quadro 1- Níveis de linguagem, segundo Coseriu (1980)
NÍVEIS ATIVIDADE SABER (TIPO) PRODUTO
Universal O falar em geral Elocucional Totalidade do falar
Histórico O uso de uma língua particular Idiomático Língua abstrata
Individual O discurso em dado contexto Expressivo Texto
Fonte: Coseriu (1980, p. 72).
Após se dedicar ao estabelecimento dos três níveis, como exposto no quadro, Coseriu (1980) postula que os textos podem ter suas próprias tradições, independente dos idiomas31. Deste modo, Coseriu (2007, p. 137-139, tradução nossa32) afirma que:
Os textos têm também suas tradições particulares, independentes das línguas. Pode- se falar de tradições textuais em duplo sentido: (a) no caso dos textos incorporados à tradição linguística em si, no que se refere a comprovar simplesmente se existem ou não. Mediante ‘textos incorporados à tradição linguística em si’ se designam as fórmulas fixas de interpelação, as saudações e outras fórmulas análogas. [...] (b) no caso de certos textos incorporados à tradição linguística em si, mas ainda muito além no caso dos textos supraidiomáticos33.
O pensamento de Coseriu (1980, 2007) foi basilar para a compreensão do conceito de TD que chega até nós hoje como um valioso requisito para o estudo diacrônico da língua e de fenômenos relacionados. Posterior ao teórico, estudiosos como Brigitte Schlieben- Lange, Peter Koch, Wulf Oesterreicher e Johannes Kabatek, da romanística alemã, deram seguimento ao estudo do fenômeno tradicional no discurso, discutido a seguir.
31 A proposta do teórico leva em conta ainda que os textos são produto das línguas e que, como tal, para uma análise de um fato tradicional, devem-se considerar os elementos discursivos das línguas em geral.
32 Tradução nossa de: "los textos tienen también sus tradiciones particulares, independientes de las lenguas. Se puede hablar de tradiciones textuales en un doble sentido: (a) en el caso de los textos incorporados a la tradición lingüística misma, de lo que se trata es de comprobar simplemente si existen o no. Mediante ‘textos incorporados a la tradición lingüística misma’ se designan las formulas fijas de interpelación, saludos y otras análogas. [...] (b) en el caso de ciertos textos incorporados a la tradición lingüística misma, pero aún mucho más en el caso de los textos supraidiomáticos, lo que importa no es su existencia o no, sino, más allá de esto, las modalidades de su configuración”.
33 Segundo Melo (2011, p. 13), “no que tange aos textos supraidiomáticos, ilustrados por Coseriu pelos gêneros literários (novamente outro exemplo de TD dado por Koch), fica manifesto que ‘texto’ não indica apenas o ‘discurso individual’, mas também os textos, na mesma acepção com que as TD entendem ‘texto’ (atos de fala, expressões, gêneros etc) quando propõem uma ‘história dos textos’”.
2.3.2 Dos níveis de linguagem às tradições discursivas: as visões de Schlieben-Lange, Koch