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Insânia: era em mim próprio que eu cantava, E era em mim próprio ainda que eu gemia,

Aquelas vozes todas que se harpiam. (LIMA, Jorge. Poema XXIV do Canto IV As Aparições In: Invenção de Orfeu, p.99).

Descrito muitas vezes como o romance do filho pródigo, conhecida parábola bíblica, presente em Lucas, cap. 14, vers. 11-32, Lavoura Arcaica não é uma referência direta à procedência, tampouco à obra de André Gide, em A volta do filho pródigo (1984). Em ambas, a intertextualidade é fortemente marcada pela temática, contudo o retorno de André ao seio da família não se restabelece como nos outros textos. A esse respeito confirma Renata Teixeira (2002):

No romance, André não resolve retornar ao seio familiar, nem arrependido nem para pedir auxílio. O irmão primogênito, Pedro, é encarregado (pelo pai) de buscá-lo de volta, numa tentativa de restabelecer a ordem antiga. Porém, o retorno ao lar (mesmo festejado) não significa paz e, sim, o contrário: são desmascaradas todas as verdades encobertas pela hipocrisia de uma convivência velada e o desenlace trágico se faz inevitável27.

Raduan Nassar relê clássicos da literatura universal como As mil e uma noites, ao trazer a Parábola do Faminto, textos sagrados como a Bíblia e o Alcorão e a presença da poesia de Jorge de Lima ―que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância‖? (2005: p.129); ao tratar da questão do adolescente encontra-se na obra trechos de Walt Whitman ―tenho dezessete anos e minha saúde é perfeita, (NASSAR, 2005, p. 87), também está presente a musicalidade do simbolismo na sua poesia em prosa‖.

Relações de intertextos em que muitos estudiosos já se debruçaram. No entanto, nosso dispositivo de leitura encontra-se especificamente nas imagens que traduzidas pelo trabalho com a linguagem compõem o dialogismo poético de Lavoura28. Imagem e dialogismo compõem então a trilha poemática do romance.

Para André, protagonista da obras citada acima, as palavras do pai estiveram sempre carregadas de uma sabedoria que vinha dos ancestrais, porém que não era sábia em sua liberdade,

27 TEIXEIRA, Renata Pimentel.Uma lavoura de insuspeitos frutos. São Paulo: Annablume, 2002, p 60 28 Retirado de N. do A. na primeira edição de Lavoura arcaica, publicada pela Livraria José Olympio Editora, em

mas se encerrava nos limites mesmo da fazenda e das próprias palavras, sem espaço, contudo, para discussão dos seus problemas.

- Já disse que não acredito na discussão dos meus problemas, estou convencido também de que é muito perigoso quebrar a intimidade, a larva só me parece sábia enquanto se guarda no seu núcleo, e não descubro de onde tira a sua força quando rompe a resistência do casulo; contorce-se com certeza, passa por metamorfoses, e tanto esforço só para expor ao mundo sua fragilidade (NASSAR, 2005, p.164).

André não encontra espaço para discussão dos conflitos dentro da família, frágeis são os fios de solidariedade e compreensão para com seus questionamentos sobre as contradições das imposições feitas pelo pai, compostas de reprimendas na criação e tradição. Questionamentos que não alcançam profundidade entre o pai e o filho pródigo, cujo retorno para casa se revela indolente, levando-o a resignar-se no momento de reencontro com o pai. André volta ao local onde lhe provinham os frutos, em A volta do filho pródigo (1984) encontra-se:

- Pai, já vos disse, jamais voz amei tanto quanto no deserto. Mas estava cansado, cada manhã, de prover minha subsistência. Em casa, pelo menos, se come bem.(GIDE, 1984, P. 152-153)

O narrador de Lavoura, em contrapartida, é exaltado e contundente em suas perturbações, e, por isso, discute até a exaustão as indagações do pai, ansioso pelo momento em que sua confusão pudesse se aproximar da clareza que o pai exigia, mas não compreendia. O personagem levado ao limite testa todas as fronteiras que o território subjetivo e também os concretos e viáveis lhe permitem visitar. Ao final, depois do exercício da oralidade sempre presente nos textos de Nassar, em oposição àquele que detém a última palavra, supostamente se resigna

exangue ao afeto da mãe (grifos meus):

- Estou cansado, pai, me perdoe. Reconheço minha confusão, reconheço que não me fiz entender, mas agora serei claro no que vou dizer: não trago o coração cheio de orgulho como o senhor pensa, volto para casa humilde e submisso, não tenho mais ilusões (...) E o meu suposto recuo na discussão com o pai logo recebia uma segunda recompensa: minha cabeça foi de repente tomada pelas mãos da mãe... (NASSAR, 2005, p. 168-169)

O ponto de recuo está no espaço limítrofe do delírio vitalizado pelo discurso quase intransponível. È no exercício dialógico que se encontra a força da escrita convocada a uma abertura de proposta contemporânea, ou seja, consideramos que é no diálogo que o desejo de infinitude se realiza de forma a fundir-se com o outro a própria voz monológica que já não cabe mais consigo. Segundo o filósofo Emmanuel Lévinas (1982), pensador da alteridade levada ao

infinito, a subjetividade não é para si: ela é, mais uma vez, inicialmente para outro29. Para ele a exposição ao outro permite a movimentação de subjetividade e o reconhecimento de si mesmo. O outro que se é sempre na dimensão discursiva dialógica essencial ao ser. Em Emmanuel Lévinas:

Ensaios e Entrevistas, François Poirié (2007) cita uma passagem de Outramente que Ser ou Além da Essência:

O sujeito de-posto, como se diz de um tirano, se encontra exposto ao Outro, notadamente na linguagem e no Desejo que é preciso entender como [uma série de] movimentos em direção a outrem que ele efetua a despeito de si pelo outro: a afetividade. ―A subjetividade do sujeito é a vulnerabilidade, exposição à afeição, sensibilidade, passividade mais passiva do que a passividade...‖ 30.

O filósofo Emmanuel Lévinas destaca que na relação com o outro ser, ou seja, na sociabilidade que existe necessariamente numa relação de alteridade, encontramos uma ideia de infinito, pautada numa promoção da relação intersocial através do ato da linguagem. A ideia de infinitude revela uma existência ilimitada do ser, donde a presença de um histórico de origem acarreta também o conhecimento de um deus para além-ser.

Para Lévinas (1980), ―Ser no infinito – a infinição – significa existir sem limites e, por

conseqüência, sob o aspecto de uma origem, de um começo, ou seja, ainda como um ente” 31.

Dado que podemos retirar dos protagonistas considerando suas características. Em Lavoura

Arcaica observamos uma família de origem cristã, um pai que educa seus filhos sob o jugo dos

sermões e parábolas bíblicas e o próprio narrador em diversos momentos invoca ritos de sua formação cristã, a fim de justificar seus acessos.

Volte agora e você verá que as portas e janelas lá de casa hão de bater com essa ventania ao se fecharem e que vocês, homens da família, carregando a pesada caixa de ferramentas do pai e circundarão por fora a casa encapuçados, martelando e pregando com violência as tábuas em cruz contra as folhas das janelas, e que nossas irmãs de temperamento mediterrâneo hão de correr (...) ‗ nosso irmão é um epilético, um convulso, um possesso‘ e pergunte com furor, mas como quem puxa um terço ‗ o que faz dele um diferente?‘ e você ouvirá, comprimido assim num canto, o coro sombrio e rouco que essa massa amorfa te fará ‗ traz o demônio no corpo‘(NASSAR, 2005, p. 39-40)

O narrador-protagonista é um sujeito que no discurso está no limiar de sua própria situação. Sua danação se manifesta através de palavras autodestrutivas, ou melhor, através de um discurso que almeja a todo o momento expressar sua subjetividade. O delírio que o assola faz

29 LÉVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito: diálogos com Philippe Nemo – Lisboa – Portugal: Edições 70, 1982, p.

88

30 POIRIÉ, François. Emmanuel Lévinas: ensaios e entrevistas [tradução]. Guinsburg, Marcio Honório de Godoy e

Thiago Blumenthal – São Paulo: Perspectiva, 2007 – (Debates; 309/ Dirigida por J. Guinsburg), p. 21

dele um excluído do dado, cristalizado e recomendado pela família, ou fora da normalidade não desvelada, ―nosso irmão é um epilético, um convulso, um possesso” (NASSAR, 2005, p. 39),

com a qual ele rompe almejando uma cumplicidade que não alcança. Bakhtin (1997:138), ao tratar do jornalista-narrador do conto ―Bobok‖, de Dostoievski, define esse tipo de narrador como ―uma pessoa‖ – que se encontra no limiar da loucura (delirium-tremens). Afora isto, porém ele

não é um homem como todos, isto é, que se desviou da norma geral, do curso normal da vida, ou melhor, temos diante de nós uma nova variedade do “homem do subsolo”. Na obra de Nassar

encontramos no narrador a necessidade de interlocução para seus tormentos e questionamentos. Viver em constante busca das fronteiras possíveis para a manifestação da voz própria não é a principal característica desse narrador, como também não o é do narrador de Um copo de

cólera, porém ambos compartilham de uma necessidade de esgarçar a situação que os aflige, a

fim de explorar na própria linguagem enquanto percebem-na sua dificuldade mesma de apreensão. Na maior parte do tempo, é sempre através do discurso dialogado que expõem suas indignações e muitas vezes suas ―verdades‖ são interpretadas como algo que foge muito à ordem contínua do mundo da obra.

Já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder, contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‗ordem‘(NASSAR, 1992, p. 54).

Contudo, é justamente aí que se instala o que se pode dizer de ruptura, ou dos protagonistas romper com o estabelecido lhes apresentado desde sempre. Os discursos são impregnados de injustiça para com a realidade que vivem ou viveram. A infância e o tempo da memória é uma recorrência dentro das narrativas. Observa-se um paralelismo de época a despeito da temática de ruptura. As obras publicadas na década de 70 se inserem num contexto em que até mesmo o discurso histórico e os veículos de comunicação eram incapazes de serem completamente transparentes. Neste ponto, o projeto literário encabeça a função de revelar memórias ocultas e ―verdades‖ injustiçadas.

Como relata Süssekind (1984):

Nas décadas de 70 e 80, há uma profusão de memórias políticas (Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis entre outros); de narrativas autobiográficas (Marcelo Rubens Paiva e Eliane Maciel) e de romances de cunho jornalístico (José Louzeiro). Essas obras atingiram estrondoso sucesso de público. Certamente isso se deu em função de uma

necessidade de conhecer ―a verdade‖, de fazer justiça, há muito sufocada por um regime autoritário32.

Apesar de não se tratar de romances políticos, não se pode desconhecer a ligação eminente com o momento de sua publicação. Há no ―Brasil real‖ 33 que circunscreve os textos de

Nassar uma atmosfera conjuntural dos anos 70 que nos permite cotejar com as narrativas uma historicidade presente, no sentido da aproximação temática das obras, como por exemplo, o autoritarismo do pai, a sociedade patriarcal da época, em Lavoura, e uma espécie de cesura a certas ordens pré-estabelecidas, revelam uma obra contextualizada à crítica cultural que se estabelecia à época – a chamada contra cultura trazia em suas propostas o rompimento, principalmente, com a modernização da sociedade brasileira imposta pelo golpe de 64. O questionamento contracultural trazia a tona discussões sobre o autoritarismo ou racionalização da vida social, como comenta Cláudio N. P. Coelho (2006) 34:

O questionamento contracultural da racionalidade incidia nas mais diferentes dimensões da vida cotidiana. O caráter pluridimensional dessa prática aparecia nas suas principais características: a ênfase na subjetividade em oposição ao caráter objetivo/ racional do mundo exterior, a aproximação com a ―loucura‖ e a marginalidade, a construção de comunidades alternativas (COELHO, 2006, p. 36).

O discurso agressivo do chacareiro de Um copo não é diferente do tom autoritário que encontramos no outro romance. O narrador se vê atacado pelos torneios de raciocínios de sua interlocutora, quando decide definir os motivos da dificuldade de aceitar as divergências discursivas ―num mundo estapafúrdio – definitivamente fora de foco – cedo ou tarde tudo acaba

se reduzindo a um ponto de vista‖ (NASSAR, 1992, p. 54) Defende, desta maneira, uma prática discursiva como elemento fundamental para apresentação de valores, ideias e relações sociais e individuais.

32 SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance?- Rio de Janeiro: Achiamé, 1984

33 Termo cunhado por. Maurício Salles Vasconcelos no prefácio do estudo Ao lado esquerdo do pai, de Sabrina

Sedlmayer, no qual afirma a ruptura presente em dois autores da literatura nacional em épocas de repressão política no país. Afirma, ―Ao dar destaque às rupturas de Graciliano e Raduan com o primado do naturalismo em suas respectivas épocas (30 e 70), o ensaio de Sabrina Sedlmayer mostra-se eficaz em valorizar esta via de corte na escrita de ficção. Pois demonstra como nassar desfaz o discurso identitário (noção de eu e de lugar), dissolvendo a busca originária do nome em voz narrativa impulsionada pelo ritmo/música da fala e não pelo alinhamento restituidor da História, pronta para ser documentada juntamente com seus discursos acabados, seus protótipos. Por meio da voz (no que tem de ―imprópria‖ e de violentada, violada por um dizer desmedido) processa-se a auto-iniciação do sujeito em suas próprias urdiduras micropolíticas, contingenciais, dentro de uma compreensão litúrgica, ritualística, sacrificial mesmo da escritas, do romance, muito próxima, aliás, da de Clarice Lispector, por exemplo‖. SEDLMAYER, Sabrina. Ao lado esquerdo do pai – Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997, p. 15.

34 COELHO, Cláudio Novaes Pinto. A contracultura: o outro lado da modernização autoritária (In: RISÉRIO,

Conhecido como o ermitão, que vive isolado do mundo urbano e do cotidiano das grandes cidades, este narrador se apoia na estrutura narrativa de ruptura, proposta por Nassar, para além de quebrar com os paradigmas de uma relação de casal, também investe contra o externo aumentando a ação no plano interno ou subjetivo. Neste ponto, o autor aproxima o texto do leitor tornando-o espectador do universo privado ou íntimo demais, como retratou Süssekind (1993) 35.

Desse modo,verificamos que ambos os textos propõem um engajamento com a época, assim comenta outros críticos (PELEGRINI, 1997 e SEDLMAYER, 1999) 36, o que as leva tomar como repertório o direito de ultrapassar o campo do racional em busca do subjetivo e lírico de André de Lavoura ―e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que era tudo só

uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu e só o meu ponto de vista‖ (NASSAR, 2005, p.109) e das verdades injustiçadas e a sonegação a refletir sobre a própria organização social do chacareiro, ninguém arruma a casa do capeta; recuso-me, pois a pensar naquilo em que não

mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso!(NASSAR, 1992, p. 55).

Ambas as obras compartilham do que parece ser o cerne de suas narrativas: uma reflexão acerca do embate discursivo e das relações tramadas para uma atmosfera que por contraste está privilegiando a objetividade e o racionalismo da sociedade moderna. A despeito da proposta de

Lavoura, Nassar revela:

Nos anos 60, eu andava entusiasmado com o behaviorismo, por conta de um dos cursos de psicologia que eu fazia. Daí que tentava um romance numa linha bem objetiva. Só que em certo capítulo um dos personagens começou a falar em primeira pessoa, numa linguagem atropelada, meio delirante, e onde a família se insinuava como tema. Tudo isso implodia com o meu esqueminha de romance objetivo (CADERNOS, 1996, P. 29).

Em contrapartida, seus narradores acumulam indignações diante do processo de suas narrativas, observando em vários momentos que podiam romper com o esquema ou mesmo irromper diferentes facetas para ele. Enquanto narra memórias, André reafirma suas conclusões num quarto de pensão preparando-se para o retorno e descobre na alteridade a possibilidade de

35Na vitrine que parece se mover a prosa literária brasileira na década de 80(...) mesmo quando o assunto em questão

parece íntimo demais, mesmo aí há visitação pública. SÜSSEKIND, F. Ficção 80 . dobradiças e vitrines. In: Éis colados. Rio de Janeiro:Editora UFRJ, 1993. p. 239-252.

36 PELEGRINI, Tânia. Raduan Nassar: masculino e feminino, contemporâneo. Brasil/Brazil. Revista de

Literatura Brasileira, Porto Alegre, n. 17, ano 10, p. 9-26, 1997 e SEDLMAYER, Sabrina. Lavoura Arcaica: um palimpsesto.São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 1999.

mudar seu destino ―Maktub‖ implantado por várias gerações37. Já o chacareiro anônimo

movimenta-se num jogo de narração e reflexão interior frente ao embate com o outro apresentando, em perspectiva de narrador off, as contestações de sua interlocutora, para ao cabo de toda discussão acalorada retornarem ao ponto inicial tornando a narrativa quase circular.

Em ambas as obras de Nassar, Lavoura Arcaica (1975) e Um copo de cólera (1978) verificamos em sua estrutura a formação dialógica como protagonista da narração, na voz do narrador em 1º pessoa, no caso de André, ―E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões

do pai que os olhos são a candeia do corpo..”. (NASSAR, 2005, p.13). E a presença de 1ª

pessoas diferentes, uma na voz do chacareiro ―E quando cheguei à tarde na minha casa lá no

27...‖(1992;09) e por fim na voz da mulher ―E quando cheguei na casa dele lá no 27...‖(1992; 82)

As classificações de narrador em 1ª pessoa não são fixas para André de Lavoura, por exemplo, segundo Leite (2005) O ―eu‖ como testemunha é um “eu” já interno à narrativa, que

vive os acontecimentos aí descritos como personagem secundária que pode observar, desde dentro, os acontecimentos, e portanto, dá-los ao leitor de modo mais direto, mais verossímel38. A descrição é compatível com o papel do narrador de Lavoura, pois este presente nos acontecimentos pode narrá-los por observação e vivência, garantindo a verossimilhança.

Entretanto, sendo André protagonista da narrativa e por estar narrando suas memórias, a subjetividade sobressai ao enunciado, revelando na enunciação leituras sobre os acontecimentos que não se limitam apenas à voz do narrador, mas, sobretudo, a um olhar sobre a própria matéria narrada, ou seja, a composição intertextual, literária e poética elaborada que comporta a obra.

A voz do narrador é de extrema importância para as narrativas, pois sinaliza os meandros que adentram as personagens e baliza para o narrador qual o espaço inexplorado que deverá participar de sua narrativa, a ponto de não perder de vista a própria tessitura. Neste processo de retomada da voz do ―eu‖ narrador como senhor da enunciação resulta no projeto literário de Nassar.

37 Em Ritos da Paixão em Lavoura Arcaica, André L. Rodrigues(2006), analisa a personagem do avô como um

espectro que ronda a família impondo-lha a presença da tradição e das relações na família a se cumprir. Assim, descreve ― A expressão(maktub) é usada na Bíblia numa espécie de duelo verbal entre Jesus e o diabo, como o mais eficaz dos argumentos, aquele que finalmente vencerá e convencerá o diáboa a deixar de tentar o Filho de Deus. Por três vezes Jesus é tentado e nas três ele se utiliza da mesma expressão, seguida de diferentes citações dos textos sagrados, até a vitória contra as tentações. Percebemos assim a força da palavra: está escrito. O que quer que o diabo faça ou diga , ele será sempre derrotado

38 LEITE, Ligia Chiappini M. A tipologia de Norman Friedman (In: O foco narrativo) – São Paulo: Ática, 2005,

Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem [...] Do meu lado, aprendi bem cedo que é difícil determinar onde acaba nossa resistência, e também muito cedo aprendi a ver nela o traço mais forte do homem (NASSAR, 2005, P. 171-72).

O verbo ou a linguagem como tentativa de transposição do pensamento para a fala levam os narradores-personagens à exaustão do ato do encontro. Aquele que permanece em estado de comunicação aproxima-se de outrem absolutamente sem jamais alcançá-lo verdadeiramente, a

linguagem, diz Poirié (2007), seria uma modalidade do Desejo e complementa, a linguagem não é nem uma experiência nem um meio de conhecimento de outrem, mas o local de Encontro com o Outro, com o estrangeiro e o desconhecido do outro39

Então, qual é a matéria que compõe o desejo dos narradores? A fala de André e do chacareiro traduzem em linguagem as angustias e desejos que compartilham com seus interlocutores – sendo eles próprios ouvintes de si mesmos – durante toda a narrativa. A linguagem não é fala, mas processo rítmico e inventivo que põe em destaque o projeto narrativo de Nassar.

Em Lavoura, André em diálogo com o pai esclarece sua dedução das palavras e ensinamentos do pai:

- O amor que aprendemos aqui, pai, só muito tarde fui descobrir que ele não sabe o que quer; essa indecisão fez dele um valor ambíguo, não passando hoje de uma pedra de tropeço; ao contrário do que se supõe, o amor nem sempre aproxima, o amor