Enquanto as zonas rurais da serra, dominadas pelos gamonales, se enredavam num adormecimento social e económico onde o passado não dava lugar ao presente, na costa, e sobretudo em Lima, ia surgindo um novo grupo dentro da classe burguesa, já não baseado na posse de terra, mas na exploração de recursos naturais. A descoberta por 1840 do grande poder dum fertilizante fóssil conhecido como guano, resultante dos depósitos seculares de aves marinhas nos ilhéus frente à costa, tinha originado grande procura numa Europa e nuns Estados Unidos a braços com o crescimento industrial, com o aumento demográfico e com a necessidade de alimentar cada vez mais braços operários.
Esta descoberta e a necessidade de extrair o guano reproduziu na costa os modelos servilismo gamonal da serra, contribuindo assim para um acordo tácito entre a burguesia urbana e a rural. Diz-nos Shane Hunt (citado por: KLARÉN, 201552):
Os conhecimentos e habilidades empresariais não se desenvolveram e ficaram atrofiados porque uma economia como esta produz riquezas, não graças ao esforço individual, mas simplesmente por ter a propriedade e a exploração dos recursos por parte duma força laboral cativa. Desta forma o exemplo da prata colonial e dos trabalhadores índios repetiu-se no século XIX com o guano e os culís chineses53 (p.204).
Seguir-se-ia uma humilhante derrota na Guerra do Pacífico (1879-1883), consubstanciada no economicamente desastroso acordo de paz assinado em Ancón, onde o país porções de território na fronteira com o chile. A
51 “En países que se han configurado en territorios que han sido objeto de colonización histórica, uno de los resultados es que la dimensión de la división social y
política entre las sociedades conquistadas y las conquistadoras se convierte en un elemento constante en la configuración de las estructuras de desigualdad”. (Tradução minha)
Tapia refere-se ao caso da América Latina, onde a independência foi o resultado duma emancipação das elites colonizadoras e não dos povos originais. Se, neste caso, a constatação me parece adequada, talvez seja abusiva quando generalizada a outros casos, nomeadamente a África ou à Ásia.
52 HUNT, Shane. Growth and Guano in Nineteenth-Century Peru, in The Latin American Economies: Growth and the Export Sector, 1830-1930, Ed. Roberto Cortés
Conde – Shane Hunt, New York, 1985, pp. 255-319.
53 “Los conocimientos y habilidades empresariales no se desarrollaron y quedaron atrofiados por que una economía como esta produce riquezas, pero no gracias al
esfuerzo individual, sino simplemente por tener la propiedad y la explotación de los recursos por parte de una fuerza laboral cautiva. De esta manera, el ejemplo de la plata colonial y los trabajadores indios se repitió en el siglo XIX con el guano y los culís chinos contratados”. (Tradução minha)
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posse das ilhas guaneiras foi também temporariamente transferida para soberania chilena, até as quantidades extraídas serem suficientes para pagar uma avultada indeminização de guerra. Subitamente, o Peru perdia a sua maior fonte de exportações e de ingressos.
As consequências desta guerra levaram o país a uma profunda reflexão sobre as causas do descalabro e, por norma, a demograficamente dominante cultura indígena foi apontada como fonte da debilidade nacional. Alguns intelectuais questionaram “uma república constituída à custa da população indígena, sem lhes ter reconhecido uma verdadeira cidadania”, mas
Em muitos outros escritores o efeito foi inverso: imputaram o fracasso e a frustração à inferioridade do índio, ao lastro que constituía para o desenvolvimento nacional. O Chile venceu porque tinha menos índios e mais europeus do que o Peru. Inclusive o seu exército tinha-se antes treinado na guerra durante o extermínio dos mapuches (CONTRERAS e CUETO, 2017, p.252)
Em 1881, em plena guerra, um professor da Universidade de Arequipa atribuía a causa das derrotas consecutivas à mestiçagem entre espanhóis e índios. Já depois do confronto, em 1894, outro intelectual, Javier Prado, falaria na “influência perniciosa que as raças inferiores exerceram no Peru”, três anos depois Garcia Calderón elogiou o Chile e a Argentina por estarem livres de “raças esgotadas” e, em 1897, o escritor Clemente Palma defendia que “a raça índia é um ramo degenerado e velho do tronco étnico de que surgiram todas as raças inferiores”54 (p.252). Numa conclusão óbvia, estava armada toda a argumentação necessária a legitimar, manter e até intensificar a exploração dos “índios”.
1.5.A “República Aristocrática”
Depois do desastre da Guerra do Pacífico, o Peru entra numa fase de reorganização política e económica. O historiador Jorge Basadre chamou “República Aristocrática” a este período que situou entre 1899 e 1919. O conceito foi abraçado pela historiografia e é hoje comummente utilizado. Politicamente foi um período dominado pelo partido civilista que, segundo Carmen Mc Evay procurou criar um Estado de cidadãos que funcionasse sob os conceitos de respeito pela lei, ordem, paz e progresso económico (citado por, CONTRERAS e CUETO, 2013, p.15755).
Se este período foi de alguma pacificação e crescimento económico,
Para outros autores foi o início da consolidação duma oligarquia plutocrata fechada, unida por laços de parentesco, que praticava o nepotismo no seu monopólio do poder, marginalizando e neutralizando as
54 Palma, Clemente. “El Porvenir de las Razas en el Perú”. Lima: Torres Aguirre, 1897, p 15. Cit. por: Flores Galindo, 2015, p. 252.
“la raza india es una rama degenerada y vieja del tronco étnico del que surgieron todas las razas inferiores”
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camadas médias e populares, que abriu as portas ao capital estrangeiro a que terminou subordinada e que esteve aliada com os gamonales da serra. Estes últimos dominavam haciendas de baixíssima produtividade e eram os responsáveis pela exploração, a ignorância e a miséria abjecta em que se mantinha a população indígena56 (CONTRERAS e CUETO, 2013, p.205).
O crescimento alcançado foi essencialmente urbano e costeiro, acentuando a periferização da serra rural e, dentro desta, do indígena camponês que passou por duas fases de coação social e económica. Na primeira dessas fases, segundo Rosemary Thorpe e Maritza Paredes (2011), entre 1890 e 1910 a procura internacional de lã gerou alguma riqueza nas zonas rurais andinas. Contudo, este incremento gerou maior pressão sobre a terra e a mão-de-obra, resultando num aumento dos abusos por parte dos proprietários. Assistiu-se então a um movimento semelhante às enclousures do Reino Unido à custa de terrenos até aí de usufruto coletivo (CONTRERAS, 2013, p. 252), provocando uma série de revoltas de indígenas entre 1900 e 1920, reduzidas pela força (p.234).
Depois da chamada sublevação de Rumi-Maqui, na qual se combinou a luta contra os gamonales com um desejo de recuperar o Tahuantinsuyo, entre 1919 e 1923 os Andes do sul do Peru foram sacudidos por uma sucessão de rebeliões camponesas (…). Os levantamentos não só repetem a clássica contradição hacienda-comunidade, se não que, de maneira até então inédita na história andina, ocorrem também no interior das haciendas: os colonos ocupam as suas parcelas e em muitos lugares (…) os proprietários refugiam-se nas cidades e abandonam temporariamente as suas propriedades57 (FLORES GALINDO, 1988, p.54).
Numa fase seguinte, o aparecimento de fibras sintéticas, com a consequente diminuição na procura das naturais, criou uma estagnação económica nas haciendas da serra, diminuindo o poder económico dos gamonales, levando-os a transferir o mais possível desta crise para os seus yanaconas.
A perda de peso económico dos proprietários e a limitação do voto aos alfabetizados desde a constituição de 1895, contribuiu decididamente para uma subalternização das zonas rurais serranas e, claro, do seu escalão mais baixo: os índios, já antes submetidos a uma situação de puro servilismo. As tentativas políticas de melhorar a sua condição, levadas a cabo durante as presidências de Augusto Leguía (1919-1930), foram infrutíferas e não resistiram às manobras dos proprietários (THORPE e PAREDES, 2011).
56 “Para otros autores fue el comienzo de la consolidación de una oligarquía o plutocracia cerrada, unida por lazos de parentesco, que praticaba el nepotismo en su
monopolio del poder, marginando o neutralizando a las capas medias y populares, que abrió las puertas al capital extranjero, al que terminó subordinado y que estuvo aliada con los gamonales de la sierra. Estos últimos dominaban haciendas de bajísima productividad y eran los responsables de la explotación, la ignorancia y la miseria abeyecta en que se mantenía a la población indígena” (tradução minha)
57 “Después de la llamada sublevación de Rumi maqui, en la que se combinó la lucha contra los gamonales con el anhelo de recuperar el Tahuantinsuyo, entre 1910 y
1923 los Andes del sur del Perú se vieron sacudidos por una sucesión de rebeliones campesinas (…). Los levantamientos no solo reproducen la clásica contradicción entre hacienda-comunidad, sino que, de manera hasta entonces inédita en la historia andina, ocurren también en el interior de las haciendas: los colonos ocupan sus parcelas y en muchos lugares (…), los terratenientes se refugian en las ciudades y abandonan temporalmente sus propiedades.” (Tradução minha)
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Entretanto a economia era cada vez mais costeira e baseada em exportações de capital intensivo, mas também de mão-de-obra intensiva, sendo necessário alimentar uma crescente população proletarizada.
Desde meados do século XX os principais produtos que impulsionavam o crescimento tiveram o seu centro na – ou frente à – costa, sendo as minas de metais a única exceção importante. Deste modo, o algodão, o açucar e a farinha de peixe, sucessivamente, levaram crescimento e prosperidade à zona costeira58 (THORPE e PAREDES, 2011, p.141)
Em situação precária, muitos proprietários rurais optaram por migrar para a costa, onde alguns se reconverteram à nova economia exportadora de matérias-primas, vendendo as suas terras a uma nova elite mestiza, que em nada diminuiu a exploração sobre os camponeses, apesar destes já não lhe reconhecerem a mesma legitimidade.
No romance “Todas las Sangres”, publicado em 1964, o escritor José Maria Arguedas (1973) ilustra bem este movimento. O personagem Fermin de Aragon Peralta, pertencente à casta dos gamonales, mas reconverte-se em investidor numa indústria costeira de farinha de peixe, depois de ter vendido a contragosto o filão de prata descoberto nas suas terras, por não ter capacidade financeira para o explorar directamente, nem peso político para se contrapor à multinacional compradora. Toda a obra é a ilustração dum mundo rural serrano em convulsão, onde surgem figuras como a haciendado mestizo Adalberto Cisneros, um novo-rico comprador de terras que procura aumentar a repressão sobre os índios, sem ter a sua legitimidade reconhecida por estes. Outra característica da primeira metade do século XX e que Arguedas retrata bem na obra, é a do índio migrante para Lima, recebendo aí novas experiências políticas e alguma ilustração. Esta figura é a do personagem Rendón Willca, regressado à serra já alfabetizado, dotado de consciência política e que irá liderar uma revolta dos camponeses contra a prepotência da mineira estrangeira, capaz de sacrificar toda a comunidade para se apropriar das águas necessárias ao desenvolvimento da sua actividade.
Esta é uma obra escrita quase em simultâneo com os acontecimentos. Enquanto Arguedas escrevia “Todas las Sangres”, os haciendados já tinham perdido muita da sua força económica e prestígio social, fruto da quebra nunca compensada dos rendimentos quando terminou o ciclo da lã e fruto também da sua incapacidade para renovar um modelo económico exclusivamente assente na exploração da mão-de-obra indígena. Politicamente os votos concentravam-se na costa, depois da constituição de 1895 condicionar a capacidade eleitoral a alfabetizados59, retirando aos gamonales o papel de “caciques” e, portanto, a sua importância política.
58 “Desde mediados del siglo XX, los principales productos que impulsaban el crecimiento tuvieron su centro en – o frente a – la costa, siendo la minería de metales la
única excepción importante. De este modo, el petróleo, el algodón, el azúcar y la harina de pescado, sucesivamente, llevaron expansión y prosperidad a la costa.” (tradução minha)
59 A constituição de 1895 reduziu o universo eleitoral a 108.507 cidadãos, ou seja, menos de 3% da população. Nas eleições de 1896, por exemplo, apenas votaram
58.285 cidadãos, 56.000 dos quais em Lopez de Romaña, o candidato eleito. Institucionalizava-se assim um Estado puramente oligárquico (CONTRERAS e CUETO, 2013, p.196). Em 1945 Bustamante Ribero seria eleito com 67% dos votos, ou seja, com 305.570 (p.299).
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Um reflexo da mudança dos tempos foi a reação de Lima à sindicalização e revoltas dos camponeses: os proprietários queixaram-se para a capital… mas desta vez o poder político mostrou como os tempos começavam a mudar e, “Em vez de enviar um destacamento do exército para manter a ordem, que era o que esta elite esperava e usualmente acontecia antes, o presidente Prado enviou uma comissão investigadora” (THORPE e PAREDES, 2011, p.164).