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Turistes indígenes i usos del patrimoni inca a Cusco 1

A melancolia fazia-se mais uma vez presente nos artigos dos periódicos. Dessa vez tratava-se de um caso relatado em uma matéria294 traduzida do periódico El

Universal, de Montevidéu, que era sobre um rapaz que sofria de alucinações, em cuja porta uma feiticeira batia todos os dias para conversar com ele, sendo impossível compreender o que ela falava, dada a rapidez com que dizia as coisas. Mais adiante, o paciente explicava os seus sintomas: “Minhas visões, disse o enfermo quando veio a si, começaram, ha dois ou três anos: no principio era um gato grande, cuja presença me atormentava: vinha e desaparecia sem saber por onde, nem como”295. Depois, o homem

percebia que a visão de um gato era somente uma alteração em algo no seu corpo. Posteriormente, o gato foi substituído por um fantasma, o qual toda vez que aparecia sempre ameaçava o homem de morte. Relatava que “depois de alguns meses de existência, o fantasma se retirou, para ceder seu lugar a outro não menos horrível à vista, como ao pensamento; esta é a imagem da mesma mulher, num esqueleto”296.

Desta maneira o paciente já em estado de desespero afirmava:

A ciência, a filosofia, e ainda a religião, são impotentes para curar uma enfermidade semelhante; e por mais que não cria na realidade deste fantasma, que me persegue, não poderei deixar de sucumbir às

emoções, que sua vista me causa297.

Após esta declaração do paciente, o médico, então, utilizando os preceitos do alienismo, tentava fazer com que o paciente entrasse em contradição:298

O Dr. reconheceu com dor que a imaginação de seu enfermo estava cruelmente afetada. Mandou-o pôr-se de cama, e começou à dirigir- lhe diferentes perguntas sobre as circunstancias da aparição, esperando fazer-lhe cair em tantas contradições e incoerências que ao final seus sentidos naturais chegariam à tocar o erro, e poderia então

294 O vizionário de Londres. (Extrahido d´El Universal de Monte-Vidéo). Revista Médica Fluminense,

Rio de Janeiro, ano 1, n.9, dezembro de 1835, pp. 53-56.

295 Idem, ibidem, p.54. 296 Idem, ibidem. p. 54. 297 Idem, ibidem. pp. 53-6.

298 De acordo com Pinel: O princípio da filosofia moral que ensina e não destruir as paixões humanas,

mas opô-las umas com as outras, aplica-se igualmente a medicina com a política [...] A diferença mesma, se aí há uma, transforma-se em vantagem para a medicina, que se coloca do ponto de vista mais elevado, considerando o homem em si [...] As vezes uma circunstancia favorável faz surgir uma nova paixão e a melancolia é curada. Para mais informações ver: PINEL. Tratado médico-filosófico sobre a alienação

por si mesmo combater com mais esperanças de sucesso as impressões

fantásticas, que obravam tão poderosamente em seu cérebro299.

Todavia, os sintomas não cessavam, a melancolia aumentava e o paciente acabou por falecer. Ao final, o autor afirmou: “Este é um triste exemplo da mortal influência, que a imaginação pode exercer sobre a saúde do corpo, ainda quando os terrores fantásticos não possam alucinar ao que os padece”300. Tratava-se, então, do caso

de um paciente que não conseguia ter sua razão restituída, apesar de um tratamento terapêutico pautado na questão moral colocado em prática.

Além do cólera, de problemas no parto, e das febres, entre outras moléstias, o alienismo aparecia referido em casos de caquexia301 nos negros, principalmente os escravos, sendo mais comum nas crianças e nos idosos. O principal sintoma que eles sentiam era a vontade de ingestão de terra, mesmo após terem realizado refeições. No estudo302 de J. L. Dors303, de Saint Thomas, traduzido e publicado na Revista Medica

Fluminense, em 1839, apareciam referências a algumas moléstias que acompanhavam estes sintomas como o aborto, a hidrofobia e a nostalgia. Em relação especificamente à nostalgia, o autor do artigo afirmava o seguinte:

A nostalgia é uma das principais causas [...], os negros despatriados, fazem-se estúpidos, indóceis e melancólicos, apetecem a solidão e emagrecem de dia a dia. O mesmo acontece muitas vezes quando são separados de pessoas que lhe eram afetivas, ou quando são maltratados além das marcas. O amor também lhes não é inteiramente estranho304.

Segundo o texto de Dros, as condições adversas a que muitos escravos eram submetidos ao serem obrigados a sair de sua pátria poderiam ocasionar a caquexia e, consequentemente, transtornos mentais graves, entre eles a melancolia. E caso esta se agravasse, poderia levar o escravo a tentar o suicídio como única maneira de se livrar da

299 O vizionário de Londres. (Extrahido d´El Universal de Monte-Vidéo). op.cit. pp. 53-6. 300 Idem, ibidem. pp. 53-6.

301 De acordo com Chernoviz (1890) a caquexia era caracterizada principalmente “por um estado mórbido

que se observa nos indivíduos exaustos, sobretudo, depois de longas moléstias e quase sempre é o presságio da morte”. Para mais informações consultar: CHERNOVIZ, Luis Pedro Napoleão. Diccionario

de Medicina Popular. v.1. Paris, 1890. pp.391-392.

302 DROS, J.L. [Dors] Observações sobre a cachexia Africana, ou cihthonophagia, por J.L.Dros, Medico

em S. Thomaz, índias occidentaes. Traduzido do Jornal des Connaissances Medico-Chirurgicales.

Revista Medica Fluminense, Rio de Janeiro, ano 5, n.2, maio de 1839, pp.76-79.

303 J. L. Dors, médico em Saint Thomas (atualmente United States Virgin Islands, nas Antilhas), e autor

de “Recherches sur la cachexie africaine”, publicado na Gazette Médicale de Pari (n.19, tome VI, 12 mai. 1838).

dor que o afligia por estar longe dos seus pares. Um método muito comum era o de afogamento, já que havia a crença de que ao se afogar, a alma do indivíduo chegaria livre à África para se reencontrar com os entes queridos.

A relação dos problemas puerperais com as moléstias mentais reapareceu nas revistas, especificamente no estudo do médico brasileiro José Pereira Rego (1816- 1892)305, publicado na Revista Medica Fluminense, que o caso “de uma mulher que começa a ter transtornos após o parto, no qual apesar de a criança ter nascido a princípio sem nenhum problema faleceu pouco tempo depois”306. Relatou detalhadamente o caso:

A paciente caiu em prostração [...] e apareceram logo depois

convulsões307”. Assustada pelas crises convulsionárias que não

cessam, a família pede a visita do Dr. Rego para avaliar a paciente. Chegando a sua residência, ele faz a seguinte análise: “dirigindo-me logo a casa da doente, achei-a no seguinte estado: convulsões tão fortes a ponto de serem necessárias duas ou três pessoas para susterem-na em seu leito [...] perda dos sentidos e das faculdades intelectuais [...] pupilas dilatadas308.

Para fazer com que as convulsões e os delírios cessassem, o médico recomendara o tratamento com sangrias juntamente com laxativos. Horas depois, a paciente encontrava-se no mesmo estado que antes, apenas com a diminuição do número de convulsões. O médico manteve o mesmo tratamento para que se pudesse acabar com as convulsões, fato este que realmente ocorreu após a segunda sangria, mas acabou gerando algumas complicações para a paciente, como a “a perda das faculdades intelectuais”309, inclusive da fala. Posteriormente, “a doente principiou a falar, mas

muito pouco, suas respostas eram incoerentes e existia delírio, contudo nos intervalos lúcidos queixava-se de dor no peito”310. Por fim, a paciente se recuperou após um longo

período de tratamento com várias complicações como delírios e fala incoerente. Mais uma vez, como ocorrera em casos relatados anteriormente, temos a presença do uso das

305 Para mais informações sobre José Pereira Rego consultar anexo I p. 160-163.

306 REGO, José Pereira. Convulsões puerperaes resultantes d´hum parto laborioso, e seguidas de

derramamento cerebral, hemeplegia do lado direito, estado commatoso durante cinco dias, perda da falla por nove dias, delírio sucedendo a estes fenômenos, diarrea ao depois, ulceração na região sacra, seguida de gancrena em grande extensão, febres intermitentes quotidiannas, erysipela geral dos membros inferiores, reapparecimento da diarrhéa, symptomas de colite ligeira, terminado tudo pela cura; pelo Dr. J. P. Rego. Revista Médica Fluminense, Rio de Janeiro, v. 6, n.5, agosto de 1840, pp. 192-202.

307 Idem, ibidem. p 193. 308 Idem, ibidem. p 194. 309 Idem, ibidem. p 196. 310 Idem, ibidem. p 196.

sangrias especificamente para acabar com as convulsões, buscando promover a recuperação da paciente com o passar do tempo311.