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Neste capítulo, apresentamos os principais pressupostos teórico-metodológicos da Gramática Funcional de Simon Dik (GF - 1989, 1997) e da Gramática Discursivo- Funcional de Hengeveld; Mackenzie (GDF - 2008). De modo geral, sob tais perspectivas funcionalistas, a análise linguística é orientada para a correlação entre estrutura linguística e aspectos cognitivo-discursivos.

Mostramos que, embora tais propostas compartilhem alguns aspectos teóricos importantes, a GF e a GDF são modelos de gramática independentes. Podemos afirmar que a GDF representa um avanço significativo em relação à GF, uma vez que considera o discurso na gramática da língua, englobando, na análise, tanto as unidades menores quanto as unidades maiores que a oração.

Frisamos, também, que a GDF, por ser um modelo tipológico-funcional, procura desenvolver uma análise linguística baseada em um quadro mais amplo de interação verbal. Isso fica evidente na correlação que os autores fazem entre o Componente

Gramatical e os componentes Conceitual (cognitivo) e Contextual.

Vimos que esse modelo não propõe apenas adicionar a suas reflexões sobre a linguagem aspectos relativas à situação de comunicação. Como esclarece Neves (2012, p. 69), não se trata, apenas, de banalmente conferir relevância ao contexto comunicativo, e com isso, marcar a ligação do enunciado com os enunciadores. Na verdade, a GDF, ao propor um modelo top-down de organização dos enunciados, conferindo ao Componente Conceitual uma especial relevância (“força motriz que está por trás do Componente Gramatical como um todo” (p. 5)), revela que o Ato Discursivo nasce motivado por esse componente, ou seja, deve sua origem ao componente cognitivo-perceptual.

Na exposição, verificamos, também, que o Componente Gramatical organiza-se em quatro níveis interdependentes (cada qual estruturado em suas próprias camadas de representação), a saber: o Nível Interpessoal, o Representacional, o Morfossintático e o Fonológico.

O Nível Interpessoal diz respeito aos aspectos formais de uma unidade linguística que reflete as intenções comunicativas do Falante. A camada mais alta desse nível é o Move, definido como uma “unidade livre de discurso”. O Nível Representacional está relacionado às categorias semânticas que as unidades linguísticas designam. A camada mais alta desse nível é o Conteúdo Proposicional, que corresponde a conhecimentos e crenças do Falante, podendo ser avaliado em termos de seu valor de verdade. O Nível Morfossintático recebe, por sua vez, input dos níveis Interpessoal e Representacional, fazendo emergir, em sua estrutura, tais representações pragmáticas e semânticas. O Nível fonológico, finalmente, é responsável por converte a estrutura morfossintática em estrutura fonológica, a qual será articulada no Componente de Saída.

No capítulo seguinte, tratamos da evidencialidade, abordando-a sob uma perspectiva mais ampla: como um domínio conceptual-funcional. Além de discutirmos questões sobre o estatuto linguístico da evidencialidade e seus critérios de delimitação, apresentamos, também, estudos desenvolvidos sobre a evidencialidade em várias línguas, bem como em língua portuguesa. Nesse capítulo, resenhamos, também, a tipologia da GDF para o estudo da evidencialidade.

Frisamos, no entanto, que tal condução textual não reflete, obviamente, uma hierarquização dos conteúdos apresentados nesta Tese: na verdade, representa apenas uma tentativa de distribuir as informações neste trabalho de modo mais didático,

partindo de uma visão mais geral dos pressupostos teórico-metodológicos que norteiam esta investigação para, em fim, discutir o objeto de estudo o qual visamos descrever e analisar: a evidencialidade em língua portuguesa.

CAPÍTULO 3 A EVIDENCIALIDADE

“Every language has some way of making reference to the source of information” (AIKHENVALD, 2004, p. 10).

Conversamos diariamente sobre o que presenciamos, ouvimos e percebemos. Tais ações com a linguagem são comuns em nossa vida. No entanto, a maior parte das pessoas não se dá conta de como essas práticas são complexas do ponto de vista cognitivo e discursivo. Na verdade, enunciados do tipo Vi João jogando futebol, Ouço João jogar futebol, Parece que João jogou futebol, Maria disse-me que João jogou futebol, Disseram-nos que João jogou futebol revelam a fonte da informação que está por trás do conteúdo veiculado na proposição, demonstrando, consequentemente, o modo como essa informação foi obtida.

Ao manifestar essas marcas de indicação da fonte do conhecimento, o falante está recorrendo ao que, na Linguística, denomina-se evidencialidade. Esse termo é definido como um domínio funcional responsável pela origem da informação, permitindo a explicitação não apenas da fonte do conteúdo informado e do modo de obtenção desse conteúdo, mas também do grau de comprometimento do falante em relação a tal informação.

A evidencialidade é um dos fenômenos linguísticos mais estudados do ponto de vista tipológico, o que leva a maior parte dos pesquisadores afirmar que a “fonte da informação”, ou “fonte de evidências”, ou “fonte de justificativas” constitui um domínio cognitivo universal, manifestado, nas línguas naturais, por meio de itens gramaticais ou lexicais.

O termo evidencialidade tornou-se usual na Linguística em 1957, com a publicação do trabalho Shifters, verbal categories, and the Russian verb, de Jakobson. Esse autor foi, segundo Aikhenvald (2004), o primeiro a estabelecer uma distinção entre modo e evidencialidade como categorias independentes. Na década de 1980, ganhou atenção especial dos linguistas quando se tornou assunto de uma conferência realizada em Berkeley (EUA), em 1981. Os trabalhos apresentados nesta ocasião foram, então,

reunidos e publicados por Chafe; Nichols (1986) sob o título Evidentiality: the linguistic coding of epistemology. Depois disso, outros eventos sobre esse tema ocorreram, como, por exemplo, o Colóquio Internacional de Pragmática, em 1998, em que várias discussões intituladas Débat’s sur l’Evidentielité foram realizadas sob a coordenação de Patrick Dendale e Liliane Tasmowski.

No presente capítulo, objetivamos definir a evidencialidade enquanto domínio funcional, buscando apresentar argumentos que sustentem o ponto de vista segundo o qual a evidencialidade é um fenômeno que marca, além da origem da informação, o nível de comprometimento do falante em relação ao conteúdo apresentado na proposição. Visamos, também, a demonstrar que, embora em língua portuguesa a evidencialidade se manifeste primordialmente por itens lexicais ou itens em estágios mais iniciais de gramaticalização, ela pode ser descrita em termos das tipologias evidenciais gramaticalizadas, constituindo importante estratégia textual-discursiva na construção do texto/discurso.

Este capítulo se organiza em quatro seções, em que apresentamos, na sequência, os seguintes subtemas: na seção 3.1, discutimos o estatuto linguístico da evidencialidade. Na seção 3.2, resenhamos as principais tipologias que contribuem para a descrição da evidencialidade em diferentes línguas. Na seção 3.3, apresentamos a proposta da Gramática Discursivo-Funcional para o estudo tipológico da evidencialidade. Na seção 3.4, relatamos os principais estudos sobre a evidencialidade em língua portuguesa. E, finalmente, na seção 3.5, apresentamos a síntese conclusiva do capítulo.