2.5.1. Apresentação do corpus e seleção dos excertos para análise
A apresentação do corpus, de onde foram retirados os excertos para a análise posterior, inicia o capítulo dedicado à análise dos dados. Primeiramente, encontra-se reproduzido o texto em hebraico que se encontra na edição eletrônica The Soncino Talmud (1991/2004). Na linha imediatamente a seguir, se encontra uma transcrição em caracteres latinos das palavras hebraicas. Nesta transcrição das palavras hebraicas, procurou-se utilizar uma grafia bastante simplificada. Para casos especiais devem ser considerados os seguintes critérios:
h antes de vogal, aspirado como o “h” em inglês; em final de palavra, mudo; ’ mostra a existência de um ayin (ע) ou alef (א), pronunciados como uma vogal; ch som aspirado como o “j” espanhol;
sh reproduz o som de “x” como em “chuva”.
Abaixo da transcrição, temos uma tradução interlinear do texto hebraico em inglês, a partir das entradas correspondentes do dicionário talmúdico Jastrow (s.d.) e uma outra em português como tradução do inglês. Para que cada palavra da transcrição e da tradução interlinear fique simetricamente disposta abaixo de seu correspondente hebraico, foi alterado o espaçamento padrão entre as palavras, assim como o tamanho das letras. Como o hebraico é uma língua que se escreve da direita para a esquerda, deve-se também, consequentemente, assim ler a transcrição e a tradução interlinear. Apenas quando a palavra hebraica se compõe de sufixos e prefixos ou forma uma unidade com uma outra, deve se ler o grupo como um todo, o que está facilmente identificável na tradução interlinear a partir do espaçamento utilizado entre as palavras.
Em primeiro lugar, têm-se as 06 linhas da Mishná e, logo a seguir, as 21 linhas da Guemará, todas devidamente numeradas. Este processo facilitará, posteriormente, a análise dos dados quando se fizer referência ao local onde a expressão ou a palavra se encontram. Para tanto, utilizou-se um procedimento bem simples, qual seja, o uso de abreviaturas. Assim, “M1” significa “Texto da Mishná, linha 01”, “M5” é o equivalente para “texto da Mishná, linha 05” e assim por diante. O mesmo vai ocorrer para referências à Guemará: “G1” corresponde, então, a “texto da Guemará, linha 01”.
Quando da análise, não mais será reproduzida, via de regra, a linha em que o trecho a ser analisado ocorre. Para tanto, deve-se sempre recorrer ao corpus da Mishná e da Guemará transcrito na abertura do capítulo da análise.
No que tange à seleção para análise e discussão de alguns excertos do Tratado de Bava Metsia, cap. 4, p. 58b, vale dizer que a escolha pautou-se por critérios referentes a elementos da cultura e tradição judaicas presentes no texto talmúdico. Para a identificação desses elementos, tomaram-se como auxílio os comentários do rabino Leonardo Alanati da Congregação Israelita Mineira103. Para tanto, foram identificados termos técnicos, específicos do hebraico talmúdico (onaah e sheneemar), expressões tipicamente conhecidas por um judeu (baal teshuvá, ben guerim, neveilot/tereifot/shequetsim/remassim) e linguagem metafórica judaica (hadavar massur lalev), totalizando seis trechos codificados linguisticamente no TF.
Sua tradução para o português apresenta desafios que serão objeto de estudo após a análise contextualizada de cada excerto do TF. Além desses argumentos, foi possível, a partir da seleção levada a cabo, identificar, nestes excertos, elementos codificados tanto conceitual quanto procedimentalmente. A existência desses dois tipos de codificação nos trechos selecionados é de fundamental importância para a análise.
2.5.2. Análise dos excertos em seus aspectos linguísticos e contextualização
Cada excerto será analisado separadamente. Apresentam-se, primeiramente, os locais da Mishná e da Guemará onde surgem. Em segundo lugar, será fornecido um esclarecimento vocabular, acompanhado da devida contextualização do trecho. Por fim, procede-se a uma análise das explicaturas e implicaturas em jogo.
No que tange ao esclarecimento vocabular, após a menção das respectivas linhas onde o termo a ser analisado consta no TF, foi elaborado um esclarecimento vocabular contendo os significados dicionarizados dos termos em hebraico, sobre os quais recai a análise. Do esclarecimento vocabular constam apenas as palavras-chave importantes para o estudo. Não estão incluídas as demais palavras da oração em estudo, por entender-se ser a tradução interlinear suficiente para a compreensão.
Para a elucidação dos vocábulos hebraicos, serão tomados os seguintes dicionários: (I) dicionário monolíngue hebraico Even-Shoshan (2004); (II) dicionário Jastrow (s.d.; hebraico-inglês); (III) dicionário Kirst et al. (2000; hebraico-português e
103
Encontro realizado na sede da Congregação Israelita Mineira, situada na rua Rio Grande do Norte, Belo Horizonte, em 16 de julho de 2008.
aramaico-português); (IV) dicionário Larousse (2000; hebraico-francês); e (V) dicionário Hatzamri & More-Hatzamri (1995; hebraico-português-hebraico), (de agora em diante, ES, J, K, L e H respectivamente), a não ser que a palavra não ocorra em um deles. Nesse caso, será mostrada apenas a entrada existente nos demais. As entradas dos dicionários de Even-Shoshan, Jastrow e Larousse serão transcritas em português, já traduzidas pelo pesquisador. O significado das palavras em português, quando da análise dos TAs, será extraído do dicionário eletrônico de Houaiss (2001).
A escolha dos dicionários de hebraico listados acima se deve ao fato de que abrangem diversos estratos do hebraico: J é um dicionário de hebraico talmúdico (ou mishnaico); K, um dicionário de hebraico bíblico; L, um dicionário de hebraico moderno e bíblico; H, de hebraico moderno. O dicionário ES, enquanto dicionário monolíngue hebraico, mostra, outrossim, os diferentes significados do termo localizados no tempo. Entende-se que a variedade usada ajudará em muito na compreensão dos termos hebraicos, localizando-os dentro dos respectivos estratos da língua (sobre os diferentes períodos de estratificação da língua hebraica, cf. LANGER, 2004).
Na tentativa de reconstituição do suposto contexto do TF, foi elaborada uma contextualização da passagem em análise. Nesta contextualização foram colocados comentários retirados de interpretações rabínicas, tanto mais antigas como a de Rashi, quanto comentários rabínicos mais atuais, como Tobin (1989), entre outros.
Na continuação, será discutido o tipo de codificação que os excertos selecionados apresentam, seguindo-se as explicaturas e implicaturas geradas a partir da contextualização mostrada anteriormente.