As pessoas experimentam expressões emocionais que não ocorrem de forma automática, ou seja, tentam compreender o que estão a sentir e antecipam as reacções das outras pessoas. Logo, os processos de regulação servem para promover as emoções desejáveis, suprimir ou lidar com as emoções indesejáveis e disfarça-las quando ameaçam ou prejudicam os seus objectivos (Dix, 1991). Neste sentido, o impacto das emoções no comportamento parental está dependente dos processos de regulação emocional. Assim, uma regulação pobre pode levar os pais a experimentarem uma emoção a um nível insuficiente ou excessivo ou a experimentarem as emoções de forma a comprometerem a resposta racional. Sabemos que de um modo geral, as emoções fazem parte integrante da nossa vida diária nos diversos contextos. Por exemplo, para os pais é muito importante que os seus filhos sejam bons alunos e bem comportados. Pois, quando isso não acontece, por vezes as emoções vêm ao de cima de uma forma descontrolada, o que, faz com que muitos pais “percam a cabeça”. Estas emoções negativas, levam frequentemente aos gritos até se ouvir no vizinho do lado, à ameaça, ao ralhar, aos nomes menos adequados, aos bates das portas, aos empurrões, entre outros actos descontrolados. Neste sentido, quantas vezes sentimos o terrível pesadelo da culpa? Quando nos arrependemos, pensamos que nunca mais nos vamos descontrolar daquela maneira, contudo, depois, noutro momento de frustração ou conflito, não somos capazes de cumprir o que prometemos a nós próprios, ou seja, não somos capazes de nos controlar e agir de forma ponderada e adequada com os nossos filhos. Desta forma, o autocontrolo é assim, uma das mais importantes qualidades de pais e educadores. Pois
um adulto descontrolado pode representar perigo e/ou assustar uma criança ou adolescente, pode mesmo vir a magoar ou a violentar, física ou psicologicamente. Por outro lado, os filhos podem representar uma fonte constante para desencadear um descontrolo no adulto. Da desobediência ou da actividade descontrolada vai apenas um segundo até ao grito ou à palmada (Marujo; Neto & Perloiro, 2002).
De acordo com Cruz (2005), a regulação emocional é composta por três elementos: conhecimento e compreensão das suas próprias emoções, que implica uma capacidade de introspecção que varia de indivíduo para indivíduo; a avaliação das consequências da manifestação das emoções, pois, nem todos os pais conseguem funcionar a este nível, antecipando a forma como os filhos se vão sentir, sobretudo quando os seus objectivos não estão centrados na criança. Assim, alguns pais conseguem controlar a manifestação das suas emoções negativas de forma deliberada, porque consideram que tal manifestação seria prejudicial para a criança ou para a sua relação com ela. Já outros pais inibem mesmo a manifestação de emoções positivas porque acham que isso seria um factor facilitador do comportamento inadequado; a regulação emocional envolve também estratégias de autocontrolo de carácter cognitivo, comportamental e emocional. Ao utilizar estratégias cognitivas, o indivíduo procede a uma reavaliação positiva dos acontecimentos que estimulam as emoções negativas fortes numa tentativa de objectivar e despersonalizar esses acontecimentos, utilizando por exemplo, o diálogo interno. As estratégias comportamentais incluem o recurso a acções contrárias às expressões emocionais negativas, como sendo, delegar noutra pessoa a resposta à criança ou adiá-la no tempo. As estratégias emocionais envolvem a substituição de emoções, como substituir o sentimento de irritação pelo de empatia. Relativamente à capacidade de empatia Neto & Marujo (2002) referem que esta capacidade, de compreensão do ponto de vista dos outros, não é um compreender meramente intelectual, pois integra uma forte dimensão afectiva e sentimental. Os autores salientam mesmo que esta capacidade pode ser desenvolvida em situações reais, tal como, fazem notar Elias, Tobias & Friedlander (1999), que defendem que esta compreensão daquilo que os outros podem estar a pensar, sentir, como é que eles definem a situação e o que poderão decidir fazer, depende naturalmente das capacidades
cognitivas, bem como, da experiência vivida pela criança ou adolescente e não da sua exposição à televisão e aos jogos electrónicos.
Para Marujo, Neto & Perloiro (2002: pp. 89 e 90) lidar com as emoções, irritações ou zangas não é uma tarefa fácil. Contudo, estes autores sugerem algumas indicações que poderão contribuir para a regulação das emoções:
“1- Perceber os sinais de descontrolo em si mesmo: A nível fisiológico, sentir a respiração a acelerar, a boca a ficar seca, o coração a bater mais depressa, a temperatura a subir, os músculos a aumentarem a tensão; a nível da comunicação, a intensidade da voz a crescer, as palavras a saírem sem freio, as mãos a gesticular de forma agressiva e os dedos a apontar; a nível emocional, a irritação e a raiva a aumentarem; a nível do pensamento, as ideias cada vez mais a terem conteúdos violentos («O meu filho é insuportável! Nunca faz o que lhe mando. Vou-lhe mostrar quem manda aqui! Estou capaz de o engolir! Há-de ficar-lhe de exemplo…Vai arrepender-se»).
2- Identificar as situações em que se descontrola mais e com quem (se é nos TPC, se é com o filho mais velho, etc.).
3-Reconhecer no seu filho sinais de que se está a descontrolar. (...)
4- Evitar entrar em luta de poder. Tente pensar que não se trata de ver quem ganha ou quem perde, nem de testar quem manda lá em casa. Pergunte-se o que pode fazer para se acalmar e evitar entrar numa escalada, em que cada um põe mais achas na fogueira”. Estes autores reforçam ainda que, cada vez que perdemos a paciência estamos a ser modelos de descontrolo e a ensinar aos nossos filhos e educandos que quando as pessoas se irritam o “normal” é gritar, bater com as portas, ou chamar nomes incorrectos. Salientam também que cada vez que os pais “perdem a cabeça” assustam os jovens, ao passo que estes devem ser a mais importante fonte de segurança dos filhos. Contudo, se os pais não conseguem controlar-se, mais tarde, devem ser capazes de pedir desculpa aos filhos por terem “perdido a cabeça”. Desta forma, os jovens aprenderão o que é ser humilde e o que é perdoar, saberão que não é preciso ser perfeito para se merecer o amor de outrem. Por fim, os autores explicam que se os pais se descontrolam com frequência (mais do que uma vez por
semana) e se as estratégias não são satisfatórias, o melhor será recorrer à ajuda dos técnicos desta área, mais especificamente aos psicólogos, para poderem adoptar atitudes e comportamentos favoráveis ao desenvolvimento saudável dos filhos. Assim, percebemos que a forma controlada como lidamos com os filhos sem agredir ou magoar, sem violência nem desrespeito, sem fazer coisas de que nos arrependamos a seguir, deverá efectivamente ser alvo de intervenção, pois se as famílias não o conseguirem fazer por si mesmas, caberá aos técnicos intervir neste sentido, promovendo o autocontrolo parental.