5. Metode
5.4 Avhandlingens kvalitet
5.4.3 Troverdighet (begrepsvaliditet)
A aludida implosão-explosão da cidade consiste exatamente na perda da cidade como unidade referencial da práxis urbana. As concentrações foram gigantescas, ocorreram acréscimos populacionais internos e externos à área que correspondeu à cidade. As pessoas passaram a se amontoar atingindo densidade jamais experimentada em qualquer cidade do país, e pode-se dizer que São Paulo inaugurou, com algumas outras metrópoles, ainda que de maneira ímpar, esta complexa experiência urbana42.
40 SEABRA, 2004, p.273. 41 Ibidem, p.273.
42 Ressalta Fernandes que São Paulo, assim como as cidades mais importantes, só emerge
enquanto tal quando se produz um padrão populacional que permitia preservar e não desarticular o modelo altamente concentrador de renda. Como diz o autor: “Em menos de três quartos de século, a partir da extinção do tráfico (como se apreende da evolução da população de São Paulo), emerge e se propaga o novo padrão demográfico, requerido por um sistema econômico fundado sobre o trabalho livre. [...] Alterado o padrão demográfico de composição e de equilíbrio da população, alteram-se concomitantemente as disposições de identificação ou de conflito diante da ordem social escravocrata e senhorial. [...] A fome geral de braços na lavoura e nos centros urbanos das áreas em crescimento econômico facilita a transição, retira dela qualquer significado catastrófico e orienta a recomposição dos quadros demográficos e econômicos da sociedade burguesa.” FERNANDES, 2006, p. 229.
Esta massa de pessoas, na grande maioria migrantes nacionais, moveu-se do campo, de áreas semiurbanas, de outras cidades, ocupando os interstícios da cidade. Ocupa, sobretudo, longínquas localidades, empurrando a mancha urbana, incorporando novas áreas ao espaço urbano da metrópole. Kowarick, baseando-se numa clara divisão centro – periferia, interpreta o fenômeno expansivo da metrópole como “padrão periférico de crescimento urbano”. Interpreta o mesmo autor a condição social e espacial dos seus moradores como de “espoliação urbana”:
Somatória de extorsões que se opera pela inexistência ou precariedade de serviços de consumo coletivo, que justamente ao acesso à terra e à moradia apresentam-se como socialmente necessários para a reprodução dos trabalhadores e aguçam ainda a dilapidação decorrente da exploração do trabalho ou, o que é pior, da falta deste.43
Nestas localidades das periferias urbanas, experimenta-se um tipo de pobreza que não permite ser confundida com a pobreza da cidade. Seabra havia formulado esta hipótese, para o tempo em que a forma urbana era da cidade de bairros44. Como se verá mais adiante, em outro capítulo, tal hipótese pode ser
formulada também para o presente, já que muitas pesquisas sobre a segregação socioespacial têm demonstrado, através de vários indicadores quantitativos, que os pobres da cidade são relativamente menos excluídos que os pobres das periferias da metrópole de São Paulo.
A implosão das áreas internas da cidade e a explosão periférica, englobando novas áreas, eram portadoras de novas centralidades. De maneira que a centralidade da cidade, que se manifestou hegemonicamente por meio do seu núcleo inicial até meados do século XX, passa na década seguinte a concorrer, e mais tarde, se não se subordina, pelo menos divide poder com o novo centro, localizado na Avenida Paulista.
A centralidade econômica e financeira da Avenida Paulista decorre, historicamente, da transformação de um lugar de palacetes, reservado para as elites de cafeicultores e industriais, em uma área edificada por altos prédios, reservada
43 KOWARICK, Lucio. Escritos urbanos. São Paulo: Editora 34, 2000, p. 22. 44 SEABRA, 2004.
aos bancos e às sedes das grandes empresas, sobretudo industriais45. Escritórios e
estabelecimentos comerciais substituem as residências do centro antigo, que passa também a ser reocupado por camadas populares de moradores. Mas, nesta redefinição da centralidade, ou da extensão da centralidade metropolitana, subdividida com a Avenida Paulista, o velho centro se degrada, tornando-se, desde então, em palco de sucessivos conflitos pelo direito à cidade46.
A produção da nova centralidade urbana a partir da Avenida Paulista foi, além disso, o indicador da direção que tomaria a urbanização de São Paulo. Principalmente do seu setor moderno e financeiro, que veio a se configurar no entorno da Região Oeste, através da submersão dos antigos núcleos urbanos de Pinheiros e Santo Amaro, dos bairros jardins, assim como da incorporação de novas áreas ao espaço interno e renovado da metrópole.
O suporte da nova centralidade, definida pela circulação de dinheiro, de objetos, de informação e de pessoas, veio a ser montado a partir de uma obra de infraestrutura física e urbana, entre os anos 1930 e 1970, com o processo de retificação do Rio Pinheiros e da extensão do sistema ferroviário e rodoviário ao longo e nas margens retificadas do Rio. Além disso, toda esta infraestrutura física esteve, desde o início, vinculada à produção de energia elétrica e reserva de água, nas Represas Billings e Guarapiranga47.
A pesquisa de Seabra teve o mérito de revelar como se deu a produção desta infraestrutura, como ela esteve articulada à produção do espaço interno
45 FRÚGOLI Jr., Heitor. Centralidade em São Paulo: trajetórias, conflitos e negociações na metrópole.
São Paulo: Edusp, 2006, p. 39-41.
46 A expulsão e o retorno dos trabalhadores e dos pobres da cidade têm sido um movimento lógico da
urbanização capitalista. Por isso mesmo mereceu estudos, verdadeiros clássicos do pensamento social, tais como a obra de Friedrich Engels na qual aborda a condição urbana e desumana dos trabalhadores, nas duas maiores cidades industriais Inglesas, em A situação da classe operária na
Inglaterra. Walter Benjamin, em Paris, capital do século XIX, aborda o fluxo de camponeses
desenraizados, que passaram, com a industrialização, a morar na cidade. Acrescenta ao assunto da concentração, abordado por Engels, o tema da expulsão dos próprios moradores da cidade de Paris, realizada de maneira paradigmática através da intervenção planejada, com seus boulevards, conduzida pelo barão de Haussmann. Henri Lefebvre retomou os temas dos dois autores e realizou a primeira abordagem urbana e teórica deste processo de concentração e expulsão dos trabalhadores em O direito à cidade. São Paulo, Centauro, 2001, p. 10. Segundo o autor, Haussmann “substitui as ruas tortuosas, mas vivas, por longas avenidas, os bairros sórdidos, mas animados, por bairros aburguesados. [...]. Deve-se notar que Haussmann não alcançou seu objetivo. Um dos sentidos da comuna de Paris (1871) foi o forçoso retorno para o centro urbano dos operários relegados para os subúrbios e periferias, a sua reconquista da Cidade, este bem entre os bens, este valor, esta obra que lhes tinha sido arrancada” (2001, p.16).
metropolitano, incorporando e valorizando novas terras, enquanto se legitimava no progresso e no imperativo do crescimento de São Paulo. Além disso, a autora revela os meandros do poder, visto na maneira como a Light and Power, uma corporação internacional, negociava diretamente com o Estado Brasileiro, deixando muitas vezes os próprios órgãos municipais e estaduais perdidos e atônitos perante tanto poder e informação. Nesta avassaladora incorporação de novas áreas ao espaço interno metropolitano, a Light fez sucumbir moradores, bairros e o modo de vida destas localidades urbanas e semiurbanizadas.
Por isso, a implosão da cidade foi, de certa maneira, o extravasamento da cidade inteira com seus antigos bairros. Ao expandir o centro e seus arredores para atender um fluxo mais intenso de circulação de dinheiro, de mercadorias e de pessoas, espalhou-se, nesta porção Oeste da Capital, uma nova dinâmica de valorização do espaço, na medida em que o centro tradicional e outros bairros antigos desvalorizavam-se, degradavam-se e repovoavam-se.
Por isso, como será discutido em outro capítulo, este processo pode ser entendido através das mudanças profundas na estrutura dessas localidades, que ficaram fragmentadas em meio à evolução dos centros hegemônicos. As possibilidades de circulação, de trabalho, de habitação e de reprodução nestas localidades aceleraram ao mesmo tempo a classificação social de seus habitantes. Um processo de segregação espacial, acompanhado de mudanças demográficas, seguiu-se nos anos posteriores, a ponto de colocar em questão a funcionalidade de antigos estabelecimentos escolares, que até anos atrás atuavam nas reproduções sociais e na articulação comunitária de seus moradores.
A forma urbana da cidade com seus bairros e a forma metropolitana corresponderam a conteúdos diferenciados, que seus moradores experimentaram a partir da sua posição social e da sua localização no espaço urbano. Sendo as escolas um ponto particular destas experiências urbanas, nexo entre a urbanização e as políticas educacionais. Além do que, a metropolização foi também o impulso de redefinições das necessidades reprodutivas, que as instituições estatistas procuraram satisfazer e reproduzir, como imperativo do crescimento e desenvolvimento das próprias relações capitalistas de produção.