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Apesquisaqualitativaobtémdadosemateriais/artefatosempíricosemvárias fontes, e a partir de diferentes métodos de coleta de dados. Na prática, a pesquisa qualitativaédesenvolvidanocampodetensãoentreacriatividade150 (metodológica, teórica, conceitual e prática) e o rigor (metodológico) no estudo dos fenômenos, dos processos, das pessoas e das instituições (Flick, 2009a, p. 91). As várias fontes e os diferentes métodos de coleta de dados devem ser aplicados conforme o princípio da adequação, levando em conta, em algumas situações, as estratégias de “atalho” (ou seja, métodos adequados ao tempo disponível) (Flick, 2009a; Gibbs, 2009). A ideia é, através da coleta de dados, construir um corpus de materiais/artefatos empíricos sobre o(s) território(s) em estudo (Atkinson, 2005).

Para coletar os dados das experiências de indivíduos, grupos de indivíduos e/ou instituições (ou seja, indivíduos e/ou grupos de indivíduos que agem em nome das instituições) recomenda-se o uso de entrevistas e/ou grupos focais. Ambos os métodos podem ser combinados com o intuito de produzir uma “fala privada” e uma “fala pública” em conjunto (Barbour, 2009, p. 74). Em geral, as entrevistas produzem uma “visão privada”, sendo um dos métodos de coleta de dados mais predominantes na pesquisa qualitativa. Neste contexto, as entrevistas podem ser: entrevistas únicas baseadasemumroteiroestruturadoousemiestruturado151;entrevistasrepetidasou

150 Emoutraspalavras,criatividadeparausarosmétodos,paraexploraroscampos,paraassumir

novas ideias e perspectivas e para adaptar os métodos e/ou planos (Flick, 2009a, p. 90-91).

151 O roteiro estruturado é mais rígido e sistemático que o roteiro semiestruturado. No caso do roteiro

semiestruturado, os pesquisadores têm maior flexibilidade para se ajustarem às dinâmicas concretas e às necessidades metodológicas da pesquisa (Angrosino, 2009, p. 61-67).

contínuas(estudoslongitudinais);entrevistasemgrupo152;ouentrevistasnarrativas (estudos biográficos)153 (Flick, 2009a, p. 106-107; Merton e Kendall, 1946)154.

Já os grupos focais produzem uma “visão pública”, derivada da discussão e da interação entre o(s) grupo(s) e o(s) pesquisador(es). Assim, os dados gerados pelos grupos focais refletem a dinâmica deste, em vez de proporcionarem um registro fiel das visões dos participantes individuais (Barbour, 2009, p. 116). Ou seja, o propósito é obter materiais/artefatos empíricos a partir dos “discursos compartilhados”, e não dos“comentáriosprivados”(comofazemasentrevistas).Nestesentido,odesenhoda pesquisa qualitativa deve refletir nos grupos focais a diversidade da amostragem, e nãoarepresentatividadedaamostragem155.Paraisso,ospesquisadoresprecisam ser observadores, ouvintes e participantes dos contextos em estudo, captando assim as diversidades, as nuanças e as sensibilidades sociais (Barbour, 2009, p. 21-87).

Para coletar os dados dos lugares e/ou eventos específicos recomenda-se o uso da etnografia156 ou observação157 (Angrosino, 2009). Ambos os métodos podem também ser usados para coletar dados em instituições (ver Figura 7) (Flick, 2009a, p. 121-122). A ideia da etnografia e/ou da observação é descrever “as dinâmicas dos grupos organizados em comunidades ou sociedades” – analisando “suas instituições, seus comportamentos, suas produções materiais e suas crenças” (Angrosino, 2009, p. 16-31). A diferença em relação aos grupos focais, é que a etnografia e a observação produzem uma “visão pública” in loco, a partir de comportamentos vividos e de uma “imersão”totalnoobjetodeestudo158 (Angrosino,2009,p.16-17).Éimportantefrisar que os grupos focais ocorrem em ambientes relativamente controlados.

152 São entrevistas individuais em conjunto, e não uma discussão em grupo como no grupo focal. Ver

também Flick (2009a, 2009b), Gibbs (2009) e Merton e Kendall (1946).

153 As histórias narrativas podem ser contadas de modo realístico, de modo confessional, e de modo

impressionista (flashback ou flashfoward) (Flick, 2009a, p. 32). Sobre a análise narrativa, ver Gibbs (2009, p. 79-103).

154 Paraentrevistas,“[...]aamostrageméorientada para encontrar as pessoas certas [...]”. Geralmente,

se utiliza a amostragem intencional – a amostragem aleatória ou formal costuma ser exceção (Flick, 2009a, p. 50, 108-112).

155 Aquestãonãoéonúmerodeindivíduos na população como um todo (representatividade), mas

sim os insights que podem ser obtidos a partir da amostragem (diversidade) (Barbour, 2009, p. 86).

156 A etnografia significa literalmente a descrição de um povo (Angrosino, 2009; Knoblauch, 2005). 157 A observação pode ser, por exemplo, descritiva (do campo em estudo), direcionada ou seletiva.

Ver Flick (2009b, p. 109-110).

158 Issosignifica“[...]analisaraformaçãodesituaçõessociais participando dos processos relevantes

A etnografia e a observação podem incluir lugares e/ou eventos formais e/ou informais, e em estudos de casos comparativos podem incluir multissítios. Além do mais, a etnografia e a observação podem ser “participantes” ou “não-participantes”. SegundoAngrosino(2009, p. 73-76),opesquisadorpodeassumir,pelomenos,quatro posturas/papéisdiantedoobjetodeestudo:(1)observadorinvisível; (2) observador como participante; (3) participante como observador; e (4) participante totalmente envolvido. Em geral, as posturas/papéis “não-participantes” são mais aconselhadas nos estudos científicos – evitando “juízos de valor”, e julgamentos parciais acerca do objetodeestudo(Angrosino,2009, p. 33-34). Ou seja, os pesquisadores devem evitar que suas emoções e opiniões pessoais permeiem a pesquisa qualitativa159.

Figura 7 – Corpus de Materiais/Artefatos Empíricos na Pesquisa Qualitativa

Fonte: Elaboração Própria.

Além disso, os estudos qualitativos podem ser completados com documentos, notas de campo, apresentações, conversas informais, estágios institucionais, dados visuais (pinturas, fotografias, filmes, vídeos, desenhos, diagramas e outras imagens),

159 Como destaca Flick (2009a, p. 135), o ideal é uma “análise justa”, sem constrangimentos e magoas.

Já Gibbs (2009, p. 119) confirma que a boa pesquisa qualitativa é objetiva, precisa e não-tendenciosa. Ver também Flick (2009b, p. 31-35).

viagens exploratórias, gravações, entre outros (ver Quadro 3) (Banks, 2009, p. 17; Gibbs, 2009, p. 17). Esses diversos métodos de coleta de dados podem ser mesclados com as entrevistas, os grupos focais, a etnografia e a observação – transformando qualquer forma (escrita, auditiva e/ou visual) de comunicação humana em dados qualitativos (ver Figura 7) (Flick, 2009a, p. 106; Gibbs, 2009, p. 17). Neste sentido, quanto mais métodos de coleta de dados forem utilizados maior será a “densidade” do estudo, e mais complexa será a análise dos dados qualitativos.

Quadro 3 – Alguns Métodos de Coleta de Dados na Pesquisa Qualitativa

Método Descrição

Documentos Livros, artigos científicos, manuais, atas de reuniões, projetos, relatórios, etc. Podem incluir também resumos, esquemas, memorandos e publicidade. Notas de Campo Fichamentos e anotações realizadas durante a “imersão” temporária ou total no objeto de estudo. Apresentações Material utilizado por indivíduos, grupos de indivíduos, instituições, lugares ou eventos para apresentar algo formalmente ou informalmente.

Conversas Informais

São dados e materiais/artefatos empíricos obtidos em conversas informais ou de bastidores. Podem incluir igualmente informações restritas, sigilosas e/ou privilegiadas.

Estágios Institucionais

É a “imersão” temporária e cotidiana com indivíduos ou grupos de indivíduos, e/ou em instituições. É a convivência do(s) pesquisador(es) com o objeto de estudo e seus principais atores sociais, econômicos e políticos.

Dados Visuais

Pinturas, fotografias, filmes, vídeos, desenhos, diagramas e outras imagens. Os dados visuais podem ser: formais ou informais; criados pelos pesquisadores qualitativos ou obtidos de terceiros; e, fixos (visão “congelada”) ou dinâmicos (visão “em movimento”).

Viagens

Exploratórias São viagens dentro do objeto de estudo com o propósito de aguçar as intuições e obter insights acerca da realidade concreta e do ambiente local em estudo. Gravações Áudios obtidos com os indivíduos e os grupos de indivíduos, em instituições, em lugares e em eventos. Podem ser áudios formais ou informais. Fonte: Atkinson (2005, p. 8-12), Banks (2009, p. 18), Gibbs (2009, p. 44-53), Pimentel (2001, p. 180- 184) Putnam (1996, p. 19-31) e Sá-Silva, Almeida e Guindani (2009).

Nos estudos territoriais, quanto mais holística for a pesquisa qualitativa maior seráasuacapacidadedecompreendero objeto de estudo. Por exemplo, Silva (2012a)

percorreu mais de 4 mil quilômetros nos 20 municípios que compõem o Território do Sisal (na Bahia) realizando viagens exploratórias, observação etnográfica, e mais de 50 entrevistas com indivíduos, grupos de indivíduos e instituições (ver Figura 7). Além disso, Silva (2012a) participou como observador de dois eventos territoriais – duas Plenárias realizadas pelo CODES Sisal – e reuniu um amplo conjunto de atas de reuniões, documentos institucionais, notas de campo, conversas informais, etc. Esse

corpus de materiais/artefatos empíricos possibilitou que Silva (2012a) realizasse uma análise “densa” do Território do Sisal (na Bahia).

Essatriangulaçãodemetodologias(decoletadedados)permiteatriangulação de teorias, de perspectivas, de dados, e de trabalhos entre diferentes pesquisadores (Flick, 2009b, p. 65-73). Ou seja, a triangulação na pesquisa qualitativa possibilita a utilização de uma matriz científica multifacetada, que vai “além de uma abordagem”, concertando múltiplos pontos de referências para situar a posição de um objeto de estudo (Flick, 2009b, p. 61-62). Nos estudos territoriais, a triangulação abre espaço paraadiversidade,evitandovisõeseexplicaçõesrápidaseprematuras. É importante verificar tudo o que for possível, para que as evidências não dependam de uma única voz. Na prática, essa perspectiva multifacetada deve ser aplicada em paralelo, e não ser uma juntada de partes arbitrárias do processo de pesquisa160.

6 REFERENCIAL METODOLÓGICO DA PESQUISACOMPARATIVANOSESTUDOS