5.2 Samtaler
5.2.1 Gaia Trondheim: Kristin Støren Wigum
Nessa consulta, Bruno está há quase quatro meses da perda e relata o que sentiu a partir do ritual realizado em Garopaba: a missa que a família decidiu celebrar em lugar e na data que corresponderia ao dia do casamento de ambos:
Não consigo definir essa “ligação” claramente, é um “entre”, um “dentro”, uma forma diferente de sentir o amor por ela, com ela, mas um amor em nada menos importante que o daqui, de quando estávamos juntos, só diferente, talvez mais aberto, um amor onde toda a vida cabe e ainda a transcende.
A experiência intensa de contato com a data, a dor e a saudade, aqui do não vivido, ao menos inicialmente, hipotetiza o quão duro ou inapropriado poderia ter sido o intento familiar em manter a viagem, a estadia na cidade, a data e a missa onde aconteceria o casamento.
No entanto, surpreendentemente, a ritualística vivenciada pelo paciente, através de sua participação no evento, foi intensa emocionalmente, mas positiva; se pode afirmar, terapêutica, pois Bruno voltou trazendo noções sobre o amor de um modo diferente e adaptativo, bastante menos agudo em relação às aflições em face da morte e a privação de contato com Clara. Expressões do seu sentir que associa às palavras: amor, abertura e transcender.
Dias antes, Bruno pareceu deixar o espaço terapêutico preparado para enfrentar o evento e centrado em seu amor por Clara, porém, ao voltar, traz uma conotação diferente de amor, como se estivesse tratando de duas diferentes formas de amar em que uma comporta a outra.
Moltmann refere que o amor é a experiência mais forte e íntima que pode ocorrer entre as pessoas, é o que torna a vida digna de ser vivida. Assim, escreve:
Dele [do amor] nasce vida nova, ele é forte como a morte. Judaísmo e cristianismo colocaram em seu centro o duplo mandamento do amor. A experiência cristã de Deus chega mesmo a dizer: “Deus é amor”. (1 Jo 4,16). Que relação existe entre esta experiência de Deus e a experiência humana do amor? O que é que acontece naquele processo hermenêutico que transfere para a experiência de Deus as expressões da experiência humana do amor e que esta experiência de Deus assim explicada retorna à experiência humana do amor? Não devemos, na experiência do amor, pensar na experiência de Deus, e na experiência de Deus pensar na experiência do amor? Neste caso seria errado empregarmos a mesma palavra para as duas experiências. As claras e cuidadosas distinções teológicas entre eros e ágape, entre amor e caritas, entre amor sensível e amor espiritual, tentaram restringir a transferência dos significados. Elas separam novamente uma da outra a experiência de Deus e a experiência do amor, e com isto o duplo mandamento do amor ficou dividido. Mas é um único amor que abrange Deus e o próximo, como na primeira Epístola de João é um único amor que se experimenta por Deus e pelo próximo.183
O autor acrescenta, ainda, tomando como exemplo, a divisão do único amor em duas formas na interpretação figurada e literal erótica do Cântico dos Cânticos:
Será que este maravilhoso hino de amor merece figurar num livro religioso? Os que se escandalizam com isto interpretaram-no alegoricamente como o amor de Deus na alma. Com isto eles retiram o amor de Deus do amor sensível, empurrando a este a categoria dos “baixos instintos”, a fim de que o amor transcendental de Deus permaneça puro, espiritual e interior. Mas se a Bíblia é com razão chamada de o “livro da vida,” então as experiências vivificantes do amor merecem figurar neste livro, e então não nos é permitido subtrair a profundidade e a transcendência a esta experiência imanente do amor, suprimindo dela um amor mais elevado. Deus – o Espírito que vivifica – pode ser experimentado na experiência humana do amor. Embora seu nome não ocorra expressamente no “Cântico dos Cânticos”, seu esplendor encontra-se em cada expressão com que a experiência do amor é descrita, pois ele é “labaredas divinas”. (8,6).184
A partir disso, se pode dizer que em Moltmann Bruno seria compreendido no que o paciente nomina como ligação, entre e dentro, na tentativa de colocar em palavras e definir o amor que vem sentindo de um modo diferente no seu processo de elaboração.
Antropologicamente, do ponto de vista psíquico, é o que encontramos em Worden acerca da fundamentação em luto no capítulo anterior, a ressignificação vincular ou reposicionamento emocional com a pessoa falecida, apontado como tarefa a ser alcançada na caminhada de enlutamento. Porém, vê-se que, diante da experiência de Bruno, o amor é mais do que tarefa, objetivo ou redefinição, é amplitude de concepções.
183 MOLTMANN, J. O espírito da vida: uma pneumatologia integral, p. 242‐243. 184
Teologicamente, Moltmann enriquece com profundidade aquilo que o paciente tenta dizer, mas que, em diferentes momentos, nem mesmo suas palavras suportam conter a riqueza de significados. Noções que auxiliam a compreender também a amplitude do processo de transformação no luto. Esse pode ser um dos caminhos de uma ética da esperança no cuidado com o luto. Integração apontada por Bruno que se dá a partir da complementaridade entre fé e razão a serviço da reestruração da vida humana no enlutamento.
Se assim for, não é incoerente conjecturar que, em seu luto, Bruno encaminha-se para redescobrir Deus e sua fé, ao menos inicialmente, através do amor, do vínculo com Clara.
Moltmann considera que encontrar experiências de Deus nas experiências de amor não quer dizer divinizar o amor nem transformá-lo num culto, o que sobrecarregaria os amantes levando-os ao risco de decepções destrutivas.185 No entanto, chama a atenção para o fato congruente de que compreender que as duas esferas unem-se mutuamente, aprofundam-se e protegem uma a outra, corresponde a compreender que quem permanece no amor permanece em Deus e assim Deus nele.186
O amor, reforça o teólogo da Esperança, é um só e suas diferenças resultam das pessoas, de suas singularidades e relações de umas para com as outras. Isso, considera, é também o que estrutura a comunhão, já sutilmente sinalizada por Bruno anteriormente. Desse modo, Moltmann define a comunhão de Deus com todo ser humano, no excerto:
A comunhão do amor é comunhão erótica: a comunhão de amor de Deus com a criação que ele ama é erótica: a força que distingue e une todas as suas criaturas é erótica; o encantamento dos amantes um com o outro é erótico. “O eros nós o chamamos divino e angélico, espiritual, psíquico e natural – reconhecemo-lo como uma força que une e mistura.” [...] O amor é vida que traz vida. Vita vivificans é um antigo nome para o Espírito de Deus, que leva tudo a florir e a fecundar-se.187
Nesse viés, é possível compreender que as reações de Bruno nesse recorte revelam que o paciente volta da missa, na data que seria a da celebração do sacramento do seu matrimônio, tendo experimentado os primeiros sinais do que 185 MOLTMANN, J. O espírito da vida: uma pneumatologia integral, p. 243. 186 Idem. 187 Ibidem, p. 243‐244.
Moltmann aponta como verdadeira comunhão. Mergulhando através do amor por Clara, Bruno se dirige a uma profunda compreensão acerca do amor em Deus.
4.3.4 Análises do conteúdo teológico do Caso B – quarto recorte contido na