Martin (1984, p. 23) define campo como o ‘tópico’ da situação, isto é, a variável de registro que tem a ver com o foco da atividade em que estamos engajados. Conforme apontam Halliday & Hasan (1989, p. 12), campo é a “[...] ação social que está sendo realizada”24.
Diferenças no campo são realizadas, segundo Eggins & Martin (1997, p. 248), por meio do sistema de transitividade (metafunção experiencial) e das escolhas lexicais. Em outras palavras, é possível identificar diferenças no campo de um determinado texto por meio de escolhas do sistema de transitividade – participantes (entidades), verbos (processos) e circunstâncias (frases preposicionais de tempo, modo, lugar etc.) e de escolhas lexicais feitas pelo usuário da língua.
21 Describe the linguistic patterns (words and structures) in the two texts which created such different
effects.
22 The degree of formality of the language used, the amount of attitude/evaluation expressed by the
text-producer and the background knowledge drawn on in the texts.
23 We can think of field, tenor and mode as resources for generalizing across genres from the
differentiated perspectives of ideational, interpersonal and textual meaning.
24
Eggins (1994, p. 71) sinaliza, por exemplo, que por meio dessas escolhas léxico-gramaticais feitas pelo usuário da língua é possível identificar se o campo é técnico (especializado) ou senso-comum (dia a dia); porém, a tecnicidade não é codificada apenas pelo léxico. Eggins (1994, p. 74) salienta que “textos técnicos utilizam frequentemente abreviações, sintaxe não padrão”, além de “explorar outras técnicas comuns: uso de representação visual de um tipo particular de campo”25, ao
passo que a linguagem do dia a dia nos é mais familiar por utilizar palavras corriqueiras. Um léxico técnico, por exemplo, geralmente seria sinalizado em negrito ou entre aspas.
O quadro abaixo baseia-se em Eggins (1994) ao resumir as diferenças entre linguagem técnica e do dia a dia no que tange ao campo do texto:
Quadro 6 – Linguagem técnica vs linguagem do dia a dia
Implicações Linguísticas do Campo
Linguagem técnica Linguagem do dia a dia
Termos técnicos
- palavras restritas a determinada comunidade (insiders)
Termos do dia a dia
- palavras que todos entendem
Utilização de acrônimos Utilização de nomes completos
Sintaxe abreviada Sintaxe padrão
Processos técnicos de ação Processos identificadores (identifying)
(termos definidores) Processos atributivos (descritivos)
Fonte: Traduzido de Eggins (1994, p. 74).
Segundo Eggins (1994, p.76), uma vez identificadas as implicações linguísticas que correspondem à variação situacional no foco ou tópico da atividade, “o campo é uma dimensão do contexto de situação linguisticamente relevante”.26
No que tange à variável de registro relações, intrinsecamente ligada à metafunção interpessoal, ela é definida por Eggins (1994, p. 63) como “as relações dos papéis sociais representadas pelos interagentes”27. Exemplos desses papéis
sociais são: aluno/ professor, comprador/ vendedor, amigo/ amigo.
25 Technical texts frequently use abbreviated, non-
stantard syntax […] it exploits another common technical technique: the use of a visual representation of a type particular to the field.
26 Field is a linguistically relevant dimension of the context of situation. 27 The social role relationships played by interactants.
Poynton (1985) desenvolveu um estudo pioneiro sobre as relações dos papéis dos interagentes, categorizando-os em poder, envolvimento afetivo e contato. O poder abrange dois polos: de um lado o poder de igualdade – por exemplo, a relação entre amigos – e do outro lado o poder de desigualdade – a relação entre chefe e funcionário, por exemplo. A segunda categoria refere-se ao grau de envolvimento afetivo – alto ou baixo. Pode-se dizer que o grau de envolvimento afetivo entre professor(a) e aluno(a) pode variar, dependendo do contexto de situação. Já a terceira categoria está associada ao grau de contato dos interagentes, isto é, se o contato é frequente – como entre marido e mulher – ou ocasional – como entre conhecidos.
Martin & Rose (2003, p.248) utilizam Poynton (1985) como referência para descrever a variável de registro relações, transformando as três categorias em somente duas: poder e solidariedade. No que diz respeito ao poder, os autores desenvolvem uma dimensão vertical para explicar as relações interpessoais de poder: igualdade e desigualdade do status do interagente, contrariando a posição de Poynton, que o caracterizava em uma dimensão horizontal, conforme mostra a figura 2 a seguir (p. 37). Martin & Rose (2003) remetem ao modelo do sociólogo Bernstein, que subdividia as dimensões de desigualdade na sociedade pós-colonial em cinco categorias: geração (maturidade), gênero (sexo e sexualidade), etnia (raça e religião), incapacidade (desabilidade de vários tipos) e classe (social).
Para Martin & Rose (2003, p. 248), todas as cinco dimensões de poder são encontradas fora dos lares, como por exemplo, em ambientes voltados para a educação, a religião, a recreação e o trabalho. Desse modo, enfatizam que, na maioria dos textos encontrados, é preciso considerar o poder especificamente em relação ao campo.
No que se refere à segunda categoria (solidariedade) estabelecida por Martin & Rose (2003), dentro da dimensão horizontal ela corresponderia à segunda e à terceira categorias de Poynton (1985) – contato e envolvimento afetivo. Para os autores, as relações de solidariedade dizem respeito à distância social, isto é, definem se a distância entre os interagentes é próxima ou distante, dependendo da quantidade e tipo de contato que as pessoas têm umas com as outras e da carga emocional dessas relações.
Eggins (1994, p. 65) compara a variável de registro relações aos modos de linguagem formal e informal, ressaltando que uma situação informal envolveria, de modo geral, interagentes com o mesmo status de poder, que se veem com frequência e que estão envolvidos afetivamente, ao passo que em uma situação formal o poder entre os interagentes é desigual, o contato não é frequente e o envolvimento afetivo é baixo, como resume o quadro abaixo:
Quadro 7 – Relações dos interagentes em comparação ao modo informal e formal
Informal Formal
Poder igual Poder desigual, poder hierárquico
Contato frequente Contato não frequente
Envolvimento afetivo alto Envolvimento afetivo baixo
Fonte: Traduzido de Eggins (1994, p. 65).
Finalmente, a variável de registro modo, realizada pela metafunção textual. De acordo com Martin (1984), o modo diz respeito ao papel que a linguagem desempenha em uma interação. Este papel pode simultaneamente envolver dois polos que descrevem dois tipos diferentes de distanciamento na relação entre linguagem e situação: distância interpessoal/ espacial e distância experiencial.
No que tange à distância interpessoal/ espacial, em um dos polos temos a conversa casual com amigos, em que há o contato visual e auditivo, possibilitando o
feedback imediato; do outro lado está o ato de escrever um livro, em que não há
contato visual e auditivo entre escritor e leitor, impossibilitando o feedback imediato. Martin (1984, p. 26) acrescenta que, à medida que a linguagem se distancia dos eventos que descreve e a possibilidade de feedback deixa de existir, aumenta a necessidade de os significados do texto se tornarem mais explícitos para serem recuperados pelo leitor, seja este um leitor informado ou não. A figura a seguir exemplifica esse distanciamento interpessoal:
Figura 2 – Distância interpessoal ou espacial
Conversa Casual Telefone E-mail Fax Rádio Romance
+ Visual - Visual - Visual - Visual - Visual - Visual
+ Auditivo + Auditivo - Auditivo - Auditivo Auditivo (mão
única) - Auditivo
+ Feedback
imediato + Feedback imediato + Feedback rápido + Feedback rápido Feedback atrasado - Feedback Fonte: Simplificado e traduzido de Martin (1984, p. 26).
Em relação à distância experiencial, Martin (1984, p. 27) a define com base na distância entre a linguagem e o processo social. Em um polo podem ser colocadas situações como jogar cartas, em que a linguagem está sendo usada para acompanhar a atividade na qual os interagentes estão envolvidos, enquanto no outro polo está o ato de escrever uma peça de ficção, em que a linguagem está sendo criada e que por isso constitui o processo social, conforme se pode verificar na figura a seguir:
Figura 3 – Distância experiencial
Jogando Comentando Recontando uma Construindo
cartas um jogo experiência experiência
(ex. Bridge) (ex. reportagem jornal) (ex. ficção)
Linguagem acompanhando Linguagem constituindo
processo social processo social
Linguagem como AÇÃO Linguagem como REFLEXÃO
Fonte: Adaptado e traduzido de Martin (1984, p. 27).
Eggins (1994, p. 55) explica que, se combinarmos essas duas dimensões do modo (contemplando os polos), podemos caracterizar o contraste básico entre situações faladas e escritas do uso da linguagem, uma vez que, na maioria das situações faladas, estamos em contato face a face imediato com nossos interagentes, ao passo que ao usarmos a linguagem escrita (exemplo: escrever um relatório na universidade) não há contato face a face – visual ou auditivo – com a audiência pretendida. No quadro a seguir pode-se observar as diferenças entre os modos oral e escrito:
Quadro 8 – Características das situações de linguagem falada e escrita
Modo: situação típica do uso da linguagem
Discurso falado Texto escrito
+ interativo
(2 ou mais participantes) Não interativo (um participante) + face a face
(no mesmo lugar no mesmo horário) Não há contato face a face (Sozinho(a)) + Linguagem como ação
(uso da linguagem para executar alguma tarefa) Não há linguagem como ação (uso da linguagem para refletir) + Espontâneo
(sem ensaio do que vai ser dito) Não espontâneo (planejado, rascunhado e reescrito) + Casual
(informal e dia a dia) Não casual (formal e ocasiões especiais)
Fonte: Traduzido de Eggins (1994, p. 55).
Eggins (1994, p. 56) argumenta, contudo, que há algumas implicações óbvias do contraste entre os modos falado e escrito, uma vez que alguns padrões linguísticos correspondem a posições diferentes do polo. A autora sinaliza que, se gravarmos um texto falado, encontraremos uma gama de elementos espontâneos como hesitações, falsos iniciadores, repetições, interrupções etc., enquanto o texto escrito conterá (de preferência) todos os traços mencionados no quadro acima.
Halliday (1987) também analisa outros elementos linguísticos nos modos falado e escrito: a densidade lexical e a intricacia gramatical. Para o autor, a linguagem escrita tende a ser lexicalmente densa e gramaticalmente simples, opondo-se à linguagem oral, que tende a ser gramaticalmente intricada e lexicalmente esparsa. Sintetizando, Halliday (1994, p. 57) afirma que “a densidade lexical é maior no modo escrito não porque o número de itens lexicais é maior, mas porque o número de itens não lexicais (palavras gramaticais) é menor; e o número de orações diminui ainda mais”28.
Eggins (1994, p. 57) sumariza os elementos linguísticos mais presentes nos modos escrito e oral, baseando-se nos estudos de Martin (1984) e Halliday (1987) a fim de melhor compreender suas diferenças, como se pode observar no quadro a seguir:
28 The lexical density increases not because the number of lexical items goes up but because the
number of non-lexical items – grammatical words – goes down; and the number of clauses goes down even more.
Quadro 9 – Características da linguagem falada e escrita
Implicações Linguísticas do Modo
Linguagem falada Linguagem escrita
Organização em turnos (turn-taking) Organização monológica
Dependente do contexto Independente do contexto
Estrutura dinâmica - interativa - aberta (open-ended) Estrutura sinóptica - retórica - fechada Espontânea
(falsos iniciadores, hesitações, interrupções, sobreposição, orações incompletas)
Rascunho final (Polida)
Léxico do dia a dia Léxico prestigiado
Gramática não padrão Gramática padrão
Complexidade gramatical Simplicidade gramatical
Lexicalmente esparsa Lexicalmente densa
Menos metafórica (menos nominalizações) Mais metafórica (mais nominalizações) Fonte: Adaptado e traduzido de Eggins (1994, p. 57).
Vale ressaltar, no entanto, que Halliday (1987) não considera a linguagem escrita mais complexa do que a falada, pois trata-se de complexidades diferentes. Como justificativa, Halliday (1987, p. 340) afirma que “a linguagem oral e a linguagem escrita não se distinguem na sua sistematicidade: cada uma é extremamente organizada, regular e produtora de discurso coerente29.
Em suma, Halliday (1985, apud EGGINS, 1994, p. 76) estabelece dois pontos significativos no que diz respeito às variáveis de registro campo, relações e modo:
Cada variável de situação tem uma relação previsível e sistemática com os padrões léxico-gramaticais (grifo da autora);
Campo, modo e relações são as três variáveis de situação que importam porque são os três tipos de significados de linguagem estruturados para serem realizados.30
Martin & Rothery (1993) esquematizam as variáveis de registro e sua relação com as metafunções, conforme mostra o quadro a seguir:
29 Spoken and written language do not differ in their systematicity: each is equally highly organized,
regular, and productive of coherent discourse.
30 Each situational variable has a predictable and systemic relationship with lexico-grammatical
patterns; and field, mode and tenor are the three situational variables that matter because these are the three types of meaning language is structured to make.
Quadro 10 – As variáveis de registro e sua relação com as metafunções
Descrição Variáveis de registro Metafunção
A ação social, o assunto sobre o que se fala, a
natureza da ação Campo Ideacional
A estrutura de papéis, as pessoas e suas relações na
situação de comunicação Relações Interpessoal
A organização simbólica, o canal (fala ou escrita) e o
modo retórico da linguagem Modo Textual
Fonte: Traduzido de Martin & Rothery (1993, p. 144).
A seguir passo a discutir a subseção contexto de cultura.