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Carlos Amarante (1748-1815) nasceu em Braga, onde também desenvolveu sua carreira de arquiteto e engenheiro militar, sem formação escolar, com obras que marcaram a transição do Barroco Tardio bracarense para o Neoclassicismo, como foi colocado por Alves (1989). Porém também teve uma trajetória importante desenvolvida ligada ao Rococó.

A morte precoce de André Soares, apenas com 49 anos, não lhe permitiu trilhar as vias de um neoclassicismo incipiente a que as suas últimas obras poderiam conduzir. Esse caminho foi seguido pelo arquitecto bracarense Carlos Amarante, cujos primeiros trabalhos são ainda imbuídos do espírito rococó. (BORGES, 1993, p. 116) Sua facilidade e domínio do desenho o fizeram iniciar a carreira como “desenhador de decoração rocaille”, como apontado por Pereira (1992, p.149). Sua proximidade com a corte, devido à carreira de músico e escrivão de seu pai Manuel Ferreira da Cruz Amarante, e a proteção que vinha por parte do arcebispo13 lhe proporcionaram contato com livros e tratados, além de tê-lo deixado atento com o que ocorria no desenvolvimento da arquitetura no Porto e na capital do país. Com 20 anos desenhou a portada do livro de Recibo e Despesa do Mosteiro dos Remédios, o que comprova que tinha conhecimento das gravuras de Augsburg. Posterior a isso, realizou mais desenhos com estruturas tardo barrocas e rococó, e assim o descreveu Oliveira (2011, p. 196) “[...] Em geral, os desenhos são extremamente bem elaborados, com a mão leve e muito segura, com um desenho harmonioso, sempre dentro de uma estética Rococó”.

Suas primeiras obras como arquiteto, como atribuiu Alves (1989), foram a casa Dr. Francisco Maciel Aranha, casa da família Vilhena Coutinho e o presbitério de Maximinos, que serviram de subsídio para posteriores trabalhados que foram

13 “Para além da proteção do pai, teve, como atrás vimos, D. Gaspar de Bragança como patrono, que

chegou mesmo a encomendar livros de arquitectura e livreiros franceses e que em 1778, já Carlos Amarantes tinha 31 anos, o isentou das listas das Ordenanças da cidade [...]”. (OLIVEIRA, 2011, 189)

desenvolvidos ao lado de Manuel Fernandes da Silva e André Soares no século XVIII. Ainda de grande importância em sua carreira, na Igreja do Santuário do Bom Jesus do Monte (1784-1711), projetou também o jardim, as ermidas, a fonte do terreiro de Moisés e o Escadório das Virtudes. A modificação proposta por Amarantes nesta obra deixa clara a tendência de seu estilo ao Neoclassicismo, porém ainda com traços do Barroco Tardio e do Rococó presentes em suas obras, como pode ser verificado também na fachada da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo e no hospital de São Marcos da Misericórdia, ambos em Braga.

A primeira obra analisada, a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo (FIGURA 27), teve sua fachada redesenhada por Carlos Amarante. A edificação está inserida de fronte com umas das praças do Campo da Vinha e apresenta elementos neoclássicos – já presentes nas obras do arquiteto, como por exemplo o frontão triangular – e também do Barroco, como pode ser verificado nas cúpulas das torres. A capela, mesmo diante de intervenções sofridas durante o século XVIII, ainda apresenta a estrutura inicial, a qual é formada por nave única, com abóbada de berço, capelas laterais e capela-mor profunda.

FIGURA 27 – Fachada frontal e interior da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, Braga/ Portugal

Fonte: Patrimônio Cultural – Portugal. Disponível em: http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/ patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/74658/. Acesso em: 08/08/2014.

A segunda obra, o hospital de São Marcos, passou por diversas reformas no decorrer do século XVII, que modificaram totalmente a primeira edificação que foi construída, não sendo mais possível identificar fragmentos da obra original. No século XVIII, duas importantes modificações ocorreram na igreja: uma na primeira metade do século, por volta da década de 30, e outra na segunda metade do século, tendo início em 1787. Importantes modificações no mesmo século também foram feitas nas enfermarias, ocorrendo em quase todas as décadas14.

A implantação do projeto deve-se ao engenheiro Manuel Pinto Vilalobos, segundo Oliveira (1999), sendo composto por igreja, claustro, enfermarias, entre outros. Porém as obras para o hospital caminhavam muito devagar e, portanto, se questionava a atualidade dos projetos propostos. Nesse momento, ocorre a primeira importante modificação da igreja, proposta pelo pintor italiano Carlos Antônio Leone, entre 1733 e 1735, porém não foram obtidos resultados satisfatórios, pois anos mais tarde, após a conclusão da reforma, a edificação ameaçava ruir, como podemos verificar:

Estas obras não devem ter sido feitas com boa qualidade porque cinquenta anos mais tarde a igreja estava a ameaçar ruína iminente, tendo sido necessário transferir o Santíssimo Sacramento para a Igreja da Misericórdia. (OLIVEIRA, 1999, p. 170)

A segunda modificação da igreja, também analisada por Oliveira (1999), que foi feita por Carlos Amarante, iniciada em 1787, contempla a fachada do hospital, na qual está centralizada a igreja, que apresenta duas torres altas que ladeiam o frontispício bombeado (FIGURAS 28 e 29). Porém outras partes, como a porta do átrio de acesso ao piso superior, projetada por André Soares, foram mantidas, bem como o claustro atrás da igreja, projeto ainda de Vilalobos.

A solução adotada por Amarante foi uma concepção entre o Neoclassicismo, já em voga na região na época, e o Tardo Barroco, como pode ser observado na ornamentação das torres sineiras, acima das janelas, e no tratamento bombeado do frontispício da igreja. A planta da igreja está quase totalmente sob a cúpula,

14 Oliveira (1999, p.169-170) coloca que em quase todas as décadas do século XVIII, foram feitos

contratos de pedraria para a enfermaria do hospital, sendo que nas décadas de cinquenta e sessenta, as obras são projeto de André Soares.

centrada sob esta, e a ornamentação interna em madeira, como os retábulos e púlpitos também pertencem ao mesmo arquiteto.

FIGURA 28 – Fachada frontal do hospital de São Marcos da Misericórdia, Braga/ Portugal

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hospital_de_Sao_Marcos. Acesso em: 10/08/2014.

FIGURA 29 – Bombeamento da fachada do hospital de São Marcos da Misericórdia, Braga/ Portugal

4 A FIXAÇÃO DO BARROCO NO BRASIL

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