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Os quatro artistas entrevistados passaram por situações de vida semelhantes quando jovens, embora tenham vivido em épocas e locais diferentes. Dois moraram em cidades do interior de Estados vizinhos à Paraíba: Alexandre Filho, no Rio Grande do Norte, e Isa Galindo, em Pernambuco. Tadeu Lira e Analice Uchôa residiram em João Pessoa. Segundo o depoimento dos dois últimos artistas citados, João Pessoa é descrita como uma cidade provinciana, o que permitiu um convívio social próximo entre as pessoas e um cotidiano semelhante ao das pequenas cidades do interior do Nordeste brasileiro.

As mulheres entrevistadas - Isa Galindo e Analice Uchôa - demonstraram em suas falas a forte presença de uma família patriarcal na sua formação. O papel da mulher é representado em suas falas como algo pré-definido pela sociedade e delimitado pela família.

Ao se expressarem por meio das frases do depoimento, tais como “moça solteira só podia sair casada... Era feio trabalhar fora, só se fosse professora” (GALINDO,2006), ou “Eu fui fazer escola normal e lá eu me identifiquei com aqueles trabalhos de arte... Essa coisa de trabalhar com as mãos (...)” (UCHÔA, 2006), observa-se a pressão social para que as mesmas assumissem sua função na vida familiar. A formação deveria ser como professora, única profissão aceitável na juventude de Isa Galindo, formação também seguida por Analice Uchôa algumas décadas depois. Os trabalhos artísticos eram obrigatórios para a formação das moças, que deveriam ser prendadas em artes manuais.

Nos depoimentos dos homens, Alexandre Filho e Tadeu Lira, percebemos a tendência para colocar em primeiro plano o trabalho e, em segundo, o investimento nos estudos. Seguir os passos profissionais do pai ou acompanhá-lo na profissão era algo desejável para Tadeu Lira; Alexandre Filho não chega nem a citar as brincadeiras: o trabalho toma logo o seu lugar como a atividade mais importante. As relações com a escola são colocadas em segundo plano para ambos, o trabalho era não apenas desejável como imprescindível diante da família, como mostra a frase de Tadeu Lira: “Eu não era muito ligado a estudar mesmo (...)” (LIRA, 2006). O mesmo transparece quando Alexandre Filho fala: “Ah, lembro (...) Brincadeiras (...) Eu trabalhava” (FILHO, 2006).

Para todos os artistas entrevistados, a juventude foi uma fase de dedicação ao trabalho, seja ele qual for, incluindo a formação inicial para a arte. As descobertas profissionais ocorreram de forma diversa para eles. Apenas Tadeu Lira almejava tornar-se artista, procurando formação adequada desde jovem e ingressando no mercado de trabalho na área de publicidade. Os outros não imaginavam que isso fosse possível.

Tadeu Lira teve no ambiente doméstico, incentivo e condições necessárias para se tornar artista. Em relação ao Pai declarou em seu depoimento: “(...) ele sempre incentivou (...) nunca dava opinião não, deixava à vontade” (LIRA, 2006). Analice Uchôa tem um primo artista plástico que a incentivou muito a tornar-se pintora. Isa Galindo teve contato com atividades artísticas na escola e na feira de Caruaru. O único que não tinha contato com a arte era Alexandre Filho, segundo o qual o ambiente familiar não ajudou muito para o desenvolvimento da sua carreira artística. Sua família não demonstrava nenhuma relação com o meio artístico. A vida simples no interior não possibilitava muito contato com as artes plásticas, muito menos uma educação estética, o que só foi ocorrer na idade adulta. Mesmo depois da evidência do seu potencial como artista, Alexandre relata que os familiares disseram “ (...) você vai ficar nesse negócio de pintura, isso não tem futuro não, vai estudar, fazer um concurso para um banco (...)” (ALEXANDRE FILHO, 2006). Para ele, ninguém da

família deu apoio à sua carreira. Esse fato não impediu que Alexandre continuasse sua profissionalização como artista. Ignorou a posição da família e continuou sua trajetória

(...) eu ignorei, porque ganhava dinheiro suficiente para me manter. Eles começaram a ver matérias sobre mim na televisão, no jornal, nas revistas (...) já falavam comigo de outra maneira (...) (ALEXANDRE FILHO, 2006).

Analice Uchôa contou que seu “(...) irmão mais novo, o caçula, desenhava muuuito bem, ele fazia uns cavalos perfeitos, fazia rostos, e nunca foi para aula, eu (...) Sempre admirava o trabalho dele (...)”. Ela se ressente porque “(...) ele não botou isso pra frente” (UCHÔA, 2006). No entanto sua maior influência foi o seu primo, Carlos Djalma, artista plástico profissional, que a incentivou durante o início de seu trabalho, doando pincéis e tintas e orientando para que deixasse o artesanato e se dedicasse à pintura. Segundo ela, seu primo teve um sonho com uma exposição da artista, antes mesmo de ela ter pintado seu primeiro quadro. A artista descreveu que seu primo, ao ver seus primeiros quadros, exclamou: “você é

naїf (...) não precisa mais estudar, só vai pintar, pinte que vai pegar jeito, mas você não

precisa de curso nenhum (...)” (UCHÔA, 2006). Para Analice, só Carlos Djalma acreditou no seu trabalho, os outros parentes não, talvez pelo fato de apresentar um estilo diferente do seu primo, referência na família para a arte.

Isa Galindo citou sua irmã como o único membro da família que fazia arte, mas que deixou de pintar por desinteresse. Para Isa se tornar artista foi um acaso, não estava em seus planos, embora, sempre tenha demonstrado interesse pelas atividades artísticas. Durante a entrevista, ela relata: “eu não digo que sou artista (...) dizem que sou (risos) meu trabalho fala por mim” (GALINDO, 2006). Durante nossos primeiros contatos, ela afirmava: “sou mais dona de casa do que artista”. Essa postura demonstra receio em assumir sua identidade profissional apesar do seu extenso currículo como artista. No entanto essa postura torna sua situação confortável diante da família, a pintura aparece como um hobby e não como sua ocupação principal.

A família, no que diz respeito à profissionalização dos artistas, segundo os depoimentos, costuma alegar dois entraves: a instabilidade financeira e o estigma associado à figura do artista31. Isso está refletido no fato de desencorajarem a tendência e as habilidades para a arte. Em dois dos depoimentos citados, constatamos que a presença de parentes artistas foi um elemento motivador para o desenvolvimento inicial do trabalho como artista. Embora o descrédito da família em relação aos mesmos, pelo menos no início da carreira, tenha sido marcante, já que alguns dos parentes citados, mesmo sendo talentosos, não levaram a sério as

suas habilidades artísticas por inúmeras variáveis e não acreditaram no potencial que aparentemente apresentavam.

Apesar de ter recebido o incentivo do pai para seguir em frente com o seu trabalho como artista, Tadeu Lira procurou, desde o início, afastar-se da influência direta do trabalho dele, optando pela pintura naїf como uma maneira de se diferenciar do estigma de filho de artista. Para ele, “família sempre (risos) (...) é do lado do artista, nunca vai ser contra.” Quando fala dos próprios filhos, afirma: “Todos tinham um grande interesse [pela arte], eu vi que não tinha futuro (...) (risos) como eu já estou dentro mesmo, não tem mais jeito” (LIRA, 2006). Mesmo reconhecendo as habilidades dos filhos para a arte, preferiu afastá-los desse caminho e direcioná-los para os estudos, até que eles esquecessem da arte.

Para Tadeu Lira, a arte sempre foi pensada como uma profissão e sua tentativa foi a de manter o mesmo padrão financeiro da família ou, se possível, melhorá-lo. Como isso não foi possível, devido aos altos e baixos do mercado de arte, passou a demonstrar desencantamento com o trabalho. Apesar disso, tem tentado produzir quadros temáticos para concursos que possam garantir reconhecimento e algum retorno econômico.

As falas dos entrevistados revelam que há um descaso da família ou, pelo menos, falta de incentivo para o desenvolvimento do trabalho deles, embora permaneça sempre implícita a vontade de ser reconhecido por ela. Todos os entrevistados parecem ter certeza de que o trabalho artístico é o caminho correto. Os familiares só começaram a valorizar a produção do artista depois que o trabalho passou a ser elogiado nos jornais ou indicado por outros artistas famosos.

Outro elemento presente nas falas dos entrevistados foi a migração para outros estados do país32. Para eles a migração não foi uma tentativa de melhorar a qualidade de vida da família.

Alexandre Filho migrou da Paraíba para o Rio Grande do Norte, onde residiu por dezessete anos. Seguiu para Recife, depois para o Rio de Janeiro, Brasília, voltou para o Rio e, finalmente, fixou residência na Paraíba. Tadeu Lira morou alguns anos em São Paulo, trabalhando como artista gráfico até voltar para João Pessoa, onde formou família e fixou residência. Analice Uchôa também morou em São Paulo, trabalhando como artesã até voltar

32 Entre as décadas de 1960 e 1980, o fluxo migratório do Nordeste para outras regiões do país foi intenso. Os

nordestinos partiam em busca de melhores condições de sobrevivência, do emprego tão sonhado, da fortuna, no Sul e Sudeste do Brasil. Na maioria das vezes, apenas os homens migravam, deixando na terra natal mulher e filhos. Algumas migrantes seguiam para estados vizinhos em períodos sazonais, principalmente durante a colheita, para trabalhar como mão de obra barata em usinas e fazendas e trazer o sustento da família. Desde a década de 1940, o fenômeno da migração foi retratado em obras da literatura como “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e nas artes plásticas, como na série “Os Retirantes”, de Cândido Portinari.

para João Pessoa. Isa Galindo Saiu de Caruaru para Fortaleza, depois para Brasília e finalmente, mudou-se para João Pessoa, acompanhando o marido.

Para alguns dos artistas entrevistados, o apoio da família foi fundamental para sua profissionalização. Nos casos em que não houve o interesse dos parentes em relação aos seus trabalhos, os artistas continuaram produzindo e divulgando aquilo que faziam, independente disso, o que demonstra uma motivação intrínseca em produzir sua arte, independente da relação com a estrutura familiar.