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5.2 Tribometer Measurements

Houve o primeiro arrebatamento, o momento em que olhei para as minhas e outras experiências com dança desenvolvidas no NEI e senti que algo precisava ser interrogado. O fato de priorizarmos as danças da tradição, além da forma como desenvolvemos o ensino/aprendizagem desse conhecimento, suscitaram a seguinte questão: como os professores do NEI compreendem a dança e a vivenciam na Educação Infantil?

Para responder a essa indagação, definimos como objetivos descrever e interpretar a experiência de professoras com o ensino da dança no Núcleo de Educação Infantil-NEI com foco no significado da dança e organização do trabalho pedagógico; identificar lacunas e pontos de reflexão para a ampliação do trabalho com o ensino da dança no NEI; apontar perspectivas para o ensino da dança no NEI.

Descortinam-se diferentes experiências desenvolvidas com o ensino da dança no NEI e em cada uma aprendemos muito. Percebe-se que as professoras dessa escola compreendem a dança e a vivenciam como uma forma de expressão e resgate cultural, espetáculo, diversão, brincadeira.

As professoras demonstram priorizar as danças da tradição, e estas vinculam- se - como conhecimento/conteúdo - à área de Artes, com mais prevalência, e à de Educação Física. Para a organização do trabalho pedagógico, utilizam como metodologias: o ‘‘tema de pesquisa’’, para articular os conhecimentos das diversas áreas, a ‘abordagem triangular’, para o trabalho com a dança como linguagem artística, e os processos de imitação/repetição e improvisação, para ensinar/aprender dança.

No compartilhar das experiências/conhecimentos sobre dança descritas pelas professoras do NEI, foram tecidos os fios para subsidiar a prática desse conhecimento no contexto da Educação Infantil, sem, contudo, se fechar para outras possibilidades de interpretação e construção.

Esse retorno às experiências vividas permitiu fazer escolhas, colocar a dança em evidência, tomar consciência do inacabamento do ser, do conhecer e do fazer, e revelá-la para descobrir os possíveis caminhos. Com mais consciência - aqui entendida como percepção do mundo, que se realiza pelo ato de expressão –

tenciona-se trabalhar por uma escola em que também seja possível educar com a dança, sem desarticular esse saber, por vezes esquecido ou mal entendido.

O olhar sobre as experiências com a dança na escola foi ampliado pela compreensão de educação como produção da cultura, revelando modos de aprender a dançar, de abordar e inserir esse conhecimento na educação da criança. As tradições foram tratadas como experiências/conhecimentos culturais que não se adequam a estereótipos como ultrapassadas, mas que necessitam ser conservadas e resgatadas para que não desapareçam com o tempo. Porém esse resgate não admite estagnação, devendo ser exercitado através do intercâmbio de elementos do velho que ganham sentidos da cultura de um determinado grupo social em um dado lugar e tempo histórico. É essa dinâmica que as mantêm vivas e sempre abertas as recriações e reinterpretações.

As interpretações das experiências com danças descritas pelas professoras do NEI, articuladas com os conhecimentos de vários estudiosos, permitiram que fossem apontados as seguintes perspectivas para o trabalho com dança na escola: a dança como linguagem do corpo; a dança e seus fatores do movimento; a Imitação, improvisação e a brincadeira, como formas de desenhar caminhos para dançar.

Para colaborar com as reflexões - no sentido de ação para a transformação do ensino da dança para Educação Infantil - compartilhou-se com os conhecimentos produzidos por diversos teóricos (abordados durante a pesquisa) sobre educação, criança, dança, movimento, corpo e linguagem.

Desse modo, assumiu-se o exercício de pesquisadores. Para isso, realizaram- se escolhas e optou-se pela metodologia qualitativa do tipo ‘Fenômeno Situado’, abordada por Bicudo e Martins, pois considerou-se a mais adequada para o tipo de pesquisa que se apóia nas experiências dos sujeitos, tendo em vista interpretá-las e dar-lhes novos sentidos, uma vez que delas emana todo o conhecimento que pode- se ter do mundo.

Dialogou-se com Merleau-Ponty, que ajudou a pensar e a encontrar os significados para a dança: linguagem do corpo, expressão criadora de sentidos - tantos quantos sejam possíveis criar pela experiência do dançar.

Compartilharam-se experiências/conhecimentos com os estudiosos da dança: Barreto, Dantas, Marques, Nóbrega, Tibúrcio, Porpino, Viana, Strazzacappa e saiu- se acrescido pela relevante contribuição que os autores deram no sentido de ver e

viver a dança na Educação Infantil nas suas múltiplas possibilidades de transformação, criação e significação, como expressão e produção cultural humana. E, sendo criação, o dançar envolve a descoberta de múltiplas possibilidades de movimentos e gestos de que o corpo é capaz de desenhar, escrever e reescrever no tempo e no espaço.

Mediante a compreensão da dança como linguagem polissêmica do corpo, destacam-se as estruturas do movimento: o espaço e o tempo, como essenciais para que uma dança aconteça, e os processos de imitação e improvisação, os quais se complementam com outros processos de ensinar/aprender a dançar: contextualização e apreciação.

Tais perspectivas desdobraram-se na possibilidade do ensino/aprendizagem da dança na escola ser visto e vivenciado como linguagem do corpo, a qual se inscreve/realiza pelo movimento.

Concordou-se com os pesquisadores da dança e da educação, interlocutores nessa pesquisa, quando declararam que a criança aprende a utilizar a dança como comunicação e expressão - para dizer de si mesma e do mundo - a partir de um trabalho intencional, sistematizado, de situações desafiadoras em torno dessa vivência, do contato com a multiplicidade de danças e dos relacionamentos estabelecidos no ato de dançar.

Durante as ponderações tramadas nessa pesquisa, o corpo esteve sempre em cena, sem ele não se poderia ter olhado a dança na educação, na sua diversidade de formas, sentidos, cores e sabores: conhecimento, expressão, cultura, linguagem.

O fazer educativo da escola - seja em torno da dança ou de qualquer outro conhecimento - necessita da compreensão de que é com o corpo que se existe, pensa, sente, deseja, aprende, conhece, expressa e cria formas de intervenção, representação, expressão e comunicação com o mundo, na forma de jogos, danças, esportes, artes e outros modos de expressão corporal.

A escola é um dos lugares onde são ensinados, aprendidos e produzidos elementos da cultura, sendo a dança um deles. É nesse sentido que as danças populares e as demais danças são saberes inscritos nos corpos, constantemente renovados, pois o corpo que dança está sempre criando novos hábitos, novas significações cujos sentidos não estão dados, mas criados pelo grupo e o contexto cultural em que foi originada.

Considerou-se nessa pesquisa que aprender é produzir cultura, logo, quando se aprende ou cria uma dança está sendo produzida cultura. Esse aprendizado se dá na descoberta de movimentos, no entrelaçar de corpos que dançam, na experiência e na apreciação da dança. É dessa forma que se pode sentir e dar sentido, produzir e ver desenhado/inscrito no espaço e no ritmo do tempo infinitas configurações.

Na contemporaneidade, em que o corpo e arte, nas suas diferentes linguagens, têm sido tão explorados e utilizados pela mídia como mercadoria, meio para vender, comprar, divulgar diversos produtos, considera-se ser relevante para a formação das crianças, jovens e adultos, uma educação que possibilite a desconstrução e a construção de novos sentidos para o corpo, para a arte e a dança.

O diálogo, no sentido de transformação, pode ser um instrumento viabilizador desse processo de ensinar/aprender, capaz de abrir espaço para a criação de outras formas e modos de conhecer, aprender, viver, expressar, comunicar, brincar, amar e criar com o corpo, pois todos os conhecimentos vieram da arte humana de criar.

Acredita-se que dependendo da forma como a escola e seus educadores vivenciam com os alunos/crianças a descoberta, a elaboração e a apreensão dos conhecimentos - entre eles a dança -, poderão propiciar a estes a tomada de consciência de que tudo o que existe no mundo é criação humana e tudo o que se sabe origina-se de uma experiência vivida. Ser uma consciência, ser uma experiência é comunicar-se interiormente com o mundo, com os outros. A dança e outras formas de movimento e expressão sensíveis partem da existência, da experiência, do encontro com o outro e com nós mesmos.

Nesse sentido, o indivíduo é corpo, está no mundo, vive diferentes experiências, transforma e é transformado pela cultura. E a dança como linguagem artística e cultural, criada e expressa pelo corpo, se renova em cada tempo e lugar.

No trabalho com dança na Educação Infantil, tomam-se como princípios o corpo, a criação e a linguagem. Assim, tudo o que existe e é produzido pelo homem nesse mundo - ciência, arte, cultura, emoção, razão e morte - não ocorre fora do corpo, sem o corpo e sem a linguagem nas suas diferentes e singulares formas de expressão.

Nesse momento de êxtase, de descoberta, o corpo também estava em cena, sem ele não se poderia ter perscrutado a dança na educação. Ao retornar das

experiências em torno do trabalho com dança na escola (NEI), olhou-se para o presente que havia sido construído e percebeu-se que tudo já estava ali, no mundo, mas seria preciso aprender a enxergar. E foi vendo e nos vendo, tocando os outros e sendo tocadas por eles que se pode perceber que o conhecimento é sempre uma obra aberta, inacabada, inconclusa, multifacetada. Assim também é a dança, linguagem do corpo, expressão criadora de sentidos/significados, sempre novos e não apenas expressão cultural das danças da tradição. É assim que ela é vista e, nesse sentido, precisa-se ampliar e difundir essa visão na Educação Infantil.

Chegou-se ao final desse estudo com o sentimento de ter contribuído com reflexões para uma ação educativa mais aprofundada em relação à dança. No entanto, esse estudo se abre para novas indagações e possibilidades de pesquisa, pois esse foi um olhar entre tantos outros possíveis de serem pesquisados.

No papel de pesquisadora, coloquei em evidência a dança na Educação Infantil - como linguagem do corpo -, cabendo aos educadores conhecer os conteúdos que lhes são próprios e os processos de expressão e criação em dança como relevantes ao ensino/aprendizagem da dança, devendo inseri-la na rotina pedagógica da escola, planejando as atividades e valorizando as experiências das crianças e suas possibilidades de criação e expressão.

Nesse horizonte, viu-se que a equipe pedagógica do NEI construiu uma proposta pedagógica embasada nos princípios teóricos socioconstrutivistas, que dão respaldo às professoras para abordar com competência o ensino da dança como conhecimento/conteúdo. Nesse trabalho, apontou-se e dialogou-se com outras referências, em especial, Merleau-Ponty e Laban, que numa visão contextualizada e atualizada permitem vislumbrar outros conhecimentos sobre o corpo, a linguagem, a dança e a educação, vindo acrescentar e ampliar a proposta pedagógica do NEI, assim como as discussões sobre dança já realizadas nesse espaço educativo. Julga-se ser importante, no ambiente do NEI, o estudo desses fenômenos, com vistas a uma melhor compreensão, ampliação e sistematização do trabalho com dança na escola. Percebe-se também a necessidade dos professores terem experiências práticas com a dança, vivenciarem diferentes formas de dançar com seus pares, com profissionais da área e com as crianças. Compreende-se que esses dois aspectos juntos podem trazer mudanças significativas tanto na concepção quanto na experiência de ensinar e aprender dança na Educação Infantil.

Em tom de despedida, ratifica-se a crença na capacidade criadora e transformadora do ser humano, que busca viver, experimentar, se expressar e se comunicar com o mundo através de idéias e emoções, da arte e da linguagem do corpo e suas diferentes formas de expressão, sendo a dança uma delas.

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